Eleições em Natal

Apesar de estar há 3 anos fora da cidade, a proximidade com João Pessoa, as visitas constantes e as pessoas de meu afeto me impedem de deixar de ser natalense. Talvez por isso tenha cometido a leseira de não transferir meu título de eleitor e, portanto, estarei por aí nesse fim de semana para minha humilde contribuição democrática.

Mesmo sendo um fervoroso defensor do voto nulo, como todo ser humano sou um poço de contradições, então há algumas eleições tenho preferido fazer uma fezinha em candidatos que mereçam a confiança. Até agora, ganhando ou perdendo, não tenho tido decepções. E, sim, sou daqueles que não esquece em quem votou tão logo dobre a esquina de sua seção eleitoral.

Aproveitando esta reta final da campanha (pelo menos de seu primeiro turno), aproveito a convocatória de Tácito para compartilhar minhas expectativas em relação ao pleito.

Depois que Micarla tiriricou a prefeitura de Natal, instaurando um processo de sucessão em que ‘pior do que está não pode ficar’, realmente não vejo em que a cidade possa sair perdendo com qualquer um dos quatro principais postulantes ao cargo sendo eleito. Infelizmente, também não acredito em nenhuma grande conquista por parte deles. Metade desse mandato que se inicia em primeiro de janeiro de 2013 será gasto em limpar as cagadas da borboleta e sua atabalhoada trupe.

Também não serei leviano ao ponto de cair na conversa de que esses candidatos sejam ‘farinha do mesmo saco’, como alguns propagam. Talvez, da mesma safra de mandioca. Rogério Marinho é cria de Wilma de Faria, o que dispensa outros comentários. Carlos Eduardo saiu da asa da família para cair nos braços da guerreira – ou seja. Hermano sofre da síndrome de Marco Maciel: se tiver alguém no poder, pode procurar que ele tá na foto de papagaio de pirata. E Mineiro e o PT potiguar pagam pelo preço dos oito anos ao lado de quem mesmo? Ah, é, de Wilma. Vai demorar uns 20 anos para se recuperar, no barato.

Por isso mesmo, votarei em Mineiro muito mais por uma questão de amizade do que por qualquer outro motivo. Ora, vocês devem pensar, mas amizade é lá motivo para se votar em alguém? Bem, se vocês conhecessem meus critérios para chamar alguém de amigo, compreenderiam.

De todo modo, como disse, acredito que a cidade irá melhorar, muito ou pouco, independente de quem se eleja.

O que realmente me preocupa é que, neste domingo, estaremos renovando a composição da Casa de Noca. Digo, da Câmara dos Vereadores. No momento, me parece tão ou mais importante esse fato do que quem será o ocupante do Palácio Felipe Camarão.

Decerto que nunca fomos lá bem servidos no quesito vereador. Mas nas últimas eleições o nível dos escroques, digo, do escrete, caiu muito. Parece que a ruindade da gestão no Executivo ajudou a realçar a fuleiragem presente na CMN.

De todos os atuais vereadores, apenas os quatro que se alinharam na oposição fazem jus à oportunidade de retornar à casa – ainda assim, não há de se esquecer facilmente aquelas estranhas gravações envolvendo a Sargento Regina, ou a passagem de Raniere Barbosa pela ‘supersecretaria’ da última gestão de Carlos Eduardo. De rocha mesmo, só a coerência surpreendente da estreante Júlia Arruda, o corajoso bicudo no pau da barraca do prof. Luís Carlos e o velho e bom George Câmara.

(eita, deu cinco na conta)

O resto é lixo.

Por isso, gostaria de lembrar a vocês que existem vários candidatos, de diversos partidos, à esquerda e à direita, com muito mais gabarito – e caráter – do que esses picaretas hoje aboletados em seus gabinetes.

Eu, por exemplo, votarei no Cabo Jeoás, do PCdoB. (jabá: 65190)

Mas tem ainda gente do quilate de Sávio Hackradt, Rodrigo Bico, Junior Souto, Isaque Galvão, Amanda Gurgel, Karol Posadski, Lourimar Neto, Hugo Manso, Augusto Varella, Raoni, Justina Iva, Eleika Bezerra, Santino Arruda, Chico do Bar do Roberto Carlos, Veneranda Julião, Sandro Pimentel, Deth Haak, Soraya Godeiro, Palhaço Macarrão.

Qualquer um deles faria melhor figura. Só não vote, por favor, em algum candidato do PV. Prefira Dagô.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ View all posts ]

Comentários

There are 4 comments for this article
  1. Joana Vilanova 5 de Outubro de 2012 13:50

    Quais motivos te levam a ser um fervoroso defensor do voto nulo?

  2. Alex de Souza
    Alex de Souza 5 de Outubro de 2012 15:31

    Porque acho que, numa sociedade democrática, todo tipo de expressão ou protesto é válido.

  3. Jota Mombaça 6 de Outubro de 2012 2:08

    A pergunta deve então ser reformulada da seguinte maneira: pode, ainda, o voto nulo servir como forma de protesto, ou foi já recuperado e sobrecodificado pelas dinâmicas da ordem? E ainda: o que a descaracterização do voto nulo como forma de protesto tem a dizer sobre a nossa sociedade supostamente democrática? Parece-me, Alex e todos aqueles que escreveram textos para essa série proposta por Tácito sobre as eleições em Natown, que falar sobre o próprio voto como um eleitor consciente é alienar-se a uma consciência majoritária anterior ao próprio voto, a de que a democracia está dada, e que há, portanto, mecanismos que registram tanto a opção por candidatos menos-piores quanto a recusa ao sistema tal como ele se apresenta. Procurei mostrar, num dos meus textos sobre o assunto, de que forma a parafernália jurídica das eleições anula o sujeito nulo (aquele que vota 00) para que não seja ela mesma anulada por ele, porque me parece emblemático que, no seio de uma sociedade dita democrática, não existam formas diretas pelas quais o cidadão possa exercer seu poder de recusa. Penso ser necessário empreender uma hermenêutica das eleições (que considere desde a estrutura jurídica até a produção discursiva das campanhas), a fim de que possamos reconhecer com mais clareza as disjuntivas entre o atual sistema político brasileiro e uma democracia real, e assim compreender de que modo o nosso “direito de voto” está mais ocupado em produzir os votos de que precisa do que em, propriamente, conceder à sociedade o direito de decidir quem a representa.

  4. Jota Mombaça 6 de Outubro de 2012 2:10

    Ah, sim: a propósito do meu voto, venho registrar, enquanto há tempo, que estou disposto a trocá-lo por uma dentadura.

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