“Eles são muitos, mas não podem voar”

Não acho que podemos comemorar (ainda) a queda de Eduardo Cunha. Não houve cassação (só o plenário da Câmara poderá fazê-lo) e só Deus (nesse caso é bem apropriado invocá-Lo) sabe que tipo de chantagens, falcatruas e que tais o dito cujo pode fazer para manter-se no poder. Mas, para quem combate a violência preconceituosa praticada contra as mulheres neste país, foi uma batalha ganha. “Eles são muitos, mas não podem voar”, dizia Ednardo, camuflando na letra da música seu protesto contra as crueldades da ditadura.

Pois eu pego emprestadas as palavras do compositor, para apontar os que querem calar as mulheres. Eles são muitos e com a conivência de muitas delas, infelizmente. Eles, os que contribuem todos os dias para que a violência contra as mulheres se mantenha. Os que lhes atacam as liberdades, os que, de baixo de suas moralidades eletivas, se dizem bons e de bem, mas atiçam as chamas dos piores males: o desrespeito aos outros e o não reconhecimento de que todos têm o direito de viverem suas vidas do modo que bem escolherem.

Feminismo se mostra cada vez mais necessário, neste mundo de irracionalidades criminosas. O feminismo que pretende o reconhecimento da liberdade da mulher é a perfeita tradução de uma face da humanização, que tem outras faces, decerto. Os que nos desrespeitam pelo fato de sermos mulheres, todos os dias e de todas as formas, são muitos, mas não voam. Não voam, porque, ao pelejar para ser obstáculo à liberdade alheia, também comprometem a sua própria liberdade de ser, íntegra e verdadeiramente, humano. São arremedo de gente.

Há um longo caminho a percorrer, mas haveremos de fazê-lo voando, seja com asas ou vassouras. De qualquer jeito, foi um ganho, sim. Não só para a democracia, ultimamente tão atacada. Não só para a construção de um conceito de cidadania, que nos possa levar a compreender a extensão dessa palavra tão necessária. Mas especificamente para as mulheres, houve hoje um ganho. Espero que se complemente com mais avanços. Voemos, irmãs.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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