Elogio do saber literário

Por Silviano Santiago
ESTADÃO

Tomamos partido. A favor de Mário de Andrade. Contra Carlos Drummond. Isso nos anos 1924, quando eles trocaram cartas definitivas. Mário queria que Drummond se abrasileirasse. Drummond rejeita o processo de abrasileiramento proposto. Julga-o artificial. Opta por ter Manuel Bandeira como escudo, repetindo-o: “é preciso incorporar-se ao movimento universal das ideias”. “Sou” – acrescenta o mineiro – “acidentalmente brasileiro” e “hereditariamente europeu”. Reconhece: “Não sou ainda suficientemente brasileiro”. Bem antes de Sérgio Buarque e à maneira do albatroz de Charles Baudelaire, Drummond será um “exilado” (a palavra se repete na carta) na pátria.

Drummond queria ter experiência de vida no Brasil e no estrangeiro; queria ser semelhante a Bandeira que saíra de Pernambuco para o sanatório em Clavadel, na Suíça, onde conhecera o jovem poeta Paul Eluard e aprendera línguas. Queria ter a experiência que Joaquim Nabuco tivera em incontáveis viagens ao norte do globo. Drummond os inveja, e, marcando passo na província das Gerais, viaja pelas asas do livro. Lê e treslê obras da literatura universal. Anos depois, trabalha a metáfora da bruxa solitária, que dá voltas e mais voltas em torno do globo de luz, para poder, em imitação dela, expressar o dolorido e único “sentimento” do mundo, que faltava aos dois mentores, apenas “experientes” do mundo.

Desde a coleção Alguma Poesia (1930), posterior à proposta andradina de abrasileiramento, o mundo – e nele o Brasil – se apresenta a Drummond como livresco, caso se tome a palavra no sentido positivo que lhe dá Jorge Luis Borges. O mundo é a materialização dele, que é oferecida ao leitor pelo arquivo universal das tragédias e comédias humanas valorizadas desde sempre pela literatura. Por não ser um globe-trotter, o planeta Terra de Drummond se enreda na leitura da grande literatura universal, como já está no poema Biblioteca Verde, biblioteca que tinha sido exigida do pai quando ainda criança em Itabira. Atentem-se às palavras que se sucedem ao verbo ler e o metaforizam. “Mas leio, leio. Em filosofias / tropeço e caio, cavalgo de novo / meu verde livro, em cavalarias / me perco, medievo; em contos, poemas / me vejo viver”. E encerra: “Tudo o que sei é ela que me ensina”.

Não é por acaso que, no poema Infância, Drummond aponta para a história narrada por Daniel Defoe em Robinson Crusoé (lido, repita-se, no interior de Minas Gerais). Aponta-a para privilegiá-la. A camaradagem entre Robinson e Sexta-Feira na ilha deserta contribui para o menino ganhar outros olhos em Itabira. Não só se distancia dos valores patriarcais e escravocratas da família fazendeira, sua herança real, como endossa carinhosamente a herança perceptível e imaginária que recebe dos vários serviçais na casa e na fazenda paterna. Tinham feito a viagem da África ao Brasil e, depois da Abolição, eram apenas e pobremente colonos, como a Siá Preta. Eram colonos africanos mais desclassificados que os outros colonos, os de origem europeia, que sofriam a desclassificação social apenas na falta de títulos de nobreza, como Antonil já anotara em Cultura e opulência do Brasil.

Drummond escreve a Mário: “Confesso-lhe que não encontro no cérebro nenhum raciocínio em apoio à minha atitude. Só o coração me absolve. E isto não basta. Há sempre o caquinho de lógica procurando intrometer-se entre as nossas contradições”. Parece-me, hoje, que certos poemas de Alguma poesia foram escritos por esse caquinho de lógica, em resposta à carta em que Mário garante ao jovem que ele não tinha provado “peraltice, vida, vitalidade, fraqueza juvenil”. Leia-se, entre outros, o definitivo Iniciação Amorosa, cuja ação se passa na rede estendida entre mangueiras, no local em que o menino lera a aventura de Robinson. O adolescente não aprendera ousadias com Anatole France. Saber e permissividade coexistem em Drummond e são pilares em nada antagônicos.

Mário é um neoromântico, a empinar o papagaio de Macunaíma na Pauliceia. À semelhança de José de Alencar, prega um “nacionalismo universalista” que funda a linguagem-Brasil na taba dos tupis. É preciso analisar com coragem a metáfora musical de que se serve Mário para explicar a concorrência de raças que compõem o mundo. Afirma: “as raças são acordes musicais”, para em seguida sonhar: “quando realizarmos o nosso acorde, então seremos usados na harmonia da civilização”.

É preciso ter coragem e dizer que na metáfora de Mário a harmonia apresenta uma forma de eurocentrismo às avessas. A utopia musical também se centra em valor étnico único, o indígena, centramento que é desmentido pelo movimento da história social brasileira, que vinha entrelaçando, hibridizando as várias etnias que compõem a nossa realidade humana e o nosso imaginário ensaístico e poético. À centralidade na falsa tradição portuguesa Mário opõe, pelo avesso, a centralidade na verdadeira tradição indígena. Escreve: “Os tupis nas suas tabas eram mais civilizados que nós nas nossas casas de Belo Horizonte e São Paulo. Por uma simples razão: não há Civilização. Há civilizações”. Mário estava a favor da diversidade, correto. Mas de uma diversidade onde certos brasileiros eram mais brasileiros que outros. Neoromântico.

Drummond pontua. O debate entre Mário e ele “gira menos sobre a necessidade de ser brasileiro que sobre os meios de vir a sê-lo”. O discípulo não se perturba com o poder de persuasão e o peso da inteligência do mestre; segue avante com a ironia corrosiva que mais tarde será peça-chave da sua genialidade. Afirma e pergunta: “Não sei se haverá bom ou mau nacionalismo principalmente em literatura. Como fazer com esta o que se já fez com a pesca: nacionalizá-la?”

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