Elogio e enigmas em torno de Nísia Floresta

“Prestará inestimável serviço às letras pátrias quem estudar criteriosa e demoradamente essa por tantos títulos excepcional figura feminina, uma das primeiras da fase romântica entre nós”. A frase é de Henrique Castriciano deplorando a falta de uma biografia de Nísia Floresta, cujo bicentenário transcorre este ano e vem dando margem a homenagens e colóquios sobre a obra multifacetada dessa escritora, o mais recente dos quais aconteceu na semana passada na Aliança Francesa, tendo na agenda as raízes gaulesas de Nísia.

Sabe-se que, entre suas idas à Europa, Henrique Castriciano coletou vasto material documental sobre Nísia Floresta, com vistas a um projeto de biografar a jovem de Papari, infelizmente, porém, semelhantemente ao que ocorreu com seu plano de romance, não chegou a realizá-lo, apesar de tê-lo revelado a mais de um confidente.

Chama ainda a atenção que Castriciano coloque Nísia entre as figuras da “fase romântica”, talvez se reportando a sua veia indigenista incorporada ao poema “Lágrima de um caeté”. Com isso, porém, abstrai vertentes mais “modernas” da obra da escritora, como seu protofeminismo, suas ideias revolucionárias sobre a educação da mulher, seu empreendedorismo, sua adesão à causa abolicionista etc.

Em sua “História de Nísia Floresta”, datada de 1941, Adauto da Câmara presta tributo de reconhecimento a Henrique Castriciano, ao reconhecer que “o Brasil não esqueceu Nísia Floresta por obra e graça de Henrique, que tão fervorosamente lhe tem estudado a memória, procurando tornar conhecidos, por toda a parte, os seus talentos”. E, em seguida, arremata: “Aproveitamos o ensejo para lhe reiterar o apelo que tantos outros lhe têm feito, no sentido de publicar o seu livro sobre Nísia Floresta, para o qual reuniu copiosa documentação colhida em mananciais que só ele explorou: esteve em contato com pessoas que conheceram Nísia; travou relações com sobrinhas residentes no Rio; correspondeu-se com a filha de Nísia; pesquisou, pessoalmente, na Europa, sobre esta grande vida. Ninguém melhor que ele para traçar a biografia definitiva de Nísia Floresta; é o órgão mais autorizado, o estudioso mais bem informado, a última instância neste assunto”.

O encargo dessa missão ficaria mesmo para o próprio Adauto que, incansável em sua busca, pesquisou jornais, revistas, livros, documentos cartoriais e batistérios no afã de levantar os fatos da vida da escritora potiguar, processo que seria aprofundado nos anos 1990 pela professora Constância Lima Duarte, em seu “Nísia Floresta, vida e obra”.

Dentre outros aspectos, salientam-se na leitura de “História de Nísia Floresta” dois enigmas sobre os quais o autor mossoroense não consegue calar. O primeiro, diz respeito às fontes de sua vertiginosa formação, que a leva a desenvolver atividades de educadora, preceptora, escritora em três idiomas e interlocutora de sábios e homens de letras europeus.

O segundo enigma remonta às origens de sua fortuna, extraordinária, pois lhe permitiu passar quase trinta anos como residente temporária ou permanente em países como França, Itália, Alemanha e Grécia, quando, ainda em 1849, vivia pobremente no Rio! Para Adauto, quem resolver esses dois enigmas terá esclarecido questões fundamentais da biografia da jovem de Papari. Lembremos, por suposto, que a exaustiva pesquisa levada a cabo pela professora Constância, não obstante ter lançado luz sobre numerosas lacunas que cercavam a vida da autora de “Opúsculo humanitário” e a torna ainda hoje tão fascinante a ponto de suscitar opiniões passionalmente contraditórias. Dentre estas, mas não certamente a maior, citaríamos aquela apontada por seu biógrafo mossoroense: “Uma das contradições mais curiosas da obra de Nísia é o seu proclamado apego ao torrão natal, e o gosto de viver longe da Pátria”.

Quanto às origens gaulesas na obra de Nísia, são por demais evidentes para alimentarem dúvidas, como o próprio Adauto observa ,quando escreve: “Afinal, fatigada de tanto caminhar por alheias terras, [Nísia] elegeu a França para seu pouso definitivo”. O colóquio convocado pela Aliança Francesa não poderia senão reiterar tal fato.

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Comments

There are 2 comments for this article
  1. Jarbas Martins 14 de Novembro de 2010 11:49

    Instigante o teu artigo, Nelson.A vida e a obra de Nísia Floresta merecem uma cinebiografia.Não faltarão à essa obra mistério,ousadia, inveja (a professora Isabel Gondim é uma Salieri de saias), poesia,política,falcatruas, rebeldia e sexo.Que tal uma co-produção franco-brasileira ?Sugiro que se faça um concurso para escolher o roteiro.Aproveitemos o Festival de Pipa para lançar essa idéia.Que Dácio Galvão, nascido nos arredores de Papari, leve esse tema para discussão em seu festival. Que o Substantivo Plural encampe essa idéia, amigo Tácito.Consultem Moacy Cirne, Décio Pignatari (que tem um livro, sobre NS, a ser publicando pela editora do Sevo Vermelho), e as professoras Constância e Diva, claro. Alex Nascimento poderia fazer o papel de Augusto Comte. Abs.

  2. newton 27 de Março de 2018 12:57

    Essa na foto não é Nísia Floresta. É Yayá Paiva nasceu depois da morte de Nísia e fui uma inimiga gratuita da ilustre escritora.

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