Em 1967…

Eu ainda não havia nascido em 1967 e vi, ontem, mais que extemporaneamente (até mesmo porque sei que já houve comentários sobre o assunto aqui no SPlural), o filme sobre o Festival da Record daquele ano.

Achei fantástico o clima de mobilização da juventude em torno da arte musical (com uma boa dose de componentes políticos), como numa grande disputa futebolística, com vaias e aplausos a granel e muita movimentação nos bastidores.

Fiquei fascinado, também, com a imensa produtividade e qualidade de nossos artistas da música à época. Gente do quilate de Chico, Gil, Caetano, Rita e Os Mutantes, Edu, Roberto, Nara, dentre vários outros, dispondo-se a participar daquela louca competição artística e por demarcação e conquista de territórios midiáticos (até hoje muito bem ocupados por alguns daqueles nomes).

O filme contextualiza um período difícil de nossa história nacional e mostra como os jovens reagiram de maneira muito qualificada às limitações impostas pela ditadura militar e seu regime opressivo. O teatro era uma verdadeira ilha de liberdade. As canções eram entoadas como uma resposta poética à truculência policial e dos milicos. A criatividade era a tônica e a alegria era o lema.

Gostei, também, de observar alguns aspectos curiosos que relaciono agora:

1) Roberto Carlos não se saiu mal cantando um samba;

2) Sérgio Ricardo teve uma destacada e histórica performance (quebrando o violão) que, se teve um forte componente político de reação às vaias, esteve acima da altura de sua fraquíssima e perturbada interpretação musical;

3) Caetano, Gil e Os Mutantes fizeram e tocaram coisas que até hoje podemos considerar como ultramodernas;

4) A música Roda Viva, de Chico (com lindo arranjo do MPB4), foi sub-valorizada;

5) Ponteio, de Edu, era e é belíssima, mas não concorria de igual para igual com Roda Viva (Chico) e Alegria, Alegria (Caetano);

6) Os bastidores do evento eram um verdadeiro circo, com aquela gente toda transitando, fumando e se empurrando;

7) A grande coincidência foi aquela em que a canção vencedora (Ponteio) trazia versos para os quais Sérgio Ricardo deveria ter prestado, antes, atenção: “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar“….

É. Deve ter sido uma época maravilhosa, apesar de estranha e obscura em vários momentos.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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