‘A memória de todos nós’

Título original: Em ‘A memória de todos nós’, Eric Nepomuceno enfrenta passado de ditaduras na América do Sul

Por Guilherme Freitas
O GLOBO

Livro de ensaios retrata pessoas que denunciaram autoritarismo e lutaram por direitos humanos em Argentina, Uruguai e Chile

RIO – A memória é tema recorrente no trabalho de Eric Nepomuceno, seja nos contos de seus livros, como “A palavra nunca” e “Coisas do mundo”, nas obras que traduziu de grandes autores latino-americanos como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Eduardo Galeano e muitos outros, ou nas entrevistas do programa “Sangue latino”, do Canal Brasil. Em seu novo livro, ele se aprofunda no assunto, investigando os cruzamentos entre as dimensões pessoal e coletiva da memória. Os ensaios de “A memória de todos nós” (Record) retratam pessoas que lidam com o passado traumático das ditaduras recentes na América do Sul. Gente como a chilena Marcia Scantlebury, diretora do Museu da Memória, em Santiago; o argentino Adolfo Pérez Esquivel, arquiteto e escultor premiado com o Nobel da Paz em 1980 por sua luta pelos direitos humanos; e Macarena Gelman, neta do poeta Juan Gelman. Depois de seus pais serem sequestrados e mortos pelo regime militar argentino, em 1976, Macarena foi entregue a uma família uruguaia e só descobriu sua verdadeira identidade em 2000, depois de uma longa campanha internacional liderada pelo poeta em busca do filho, da nora e da neta. Em entrevista por e-mail, Nepomuceno fala sobre estes personagens e compara a forma como o Brasil e países vizinhos enfrentam os fantasmas das ditaduras.

As pessoas que você retrata no livro aparecem como símbolos da mobilização pela memória na Argentina, no Chile e no Uruguai. Como o Brasil se compara a esses países na forma de lidar com o passado ditatorial recente? Por que esse tema esteve mais presente nos países vizinhos?

‘Em nosso país, o tema da memória, da verdade e da justiça foi abafado. Há muitos interesses para que não se mexa nesse passado da ditadura civil-militar.’
Em primeiro lugar, são, acima de tudo, pessoas que sobreviveram ao horror. Suas histórias são simbólicas, embora não sejam únicas. Busquei cinco exemplos, entre milhares. Mas poderia, claro, ter tratado de casos ocorridos no Peru, na Guatemala, em El Salvador. Escolhi países mais próximos. E em cada um deles a memória das ditaduras mais recentes é tratada de uma determinada forma. Não há como comparar com o Brasil. São nações politizadas, cujas trajetórias são desconhecidas, ignoradas ou incompreendidas pela maioria dos brasileiros. Exatamente por isso, os países que menciono no livro tratam, cada um à sua maneira, de enfrentar um passado nefasto, recuperar a memória, resgatar a verdade, fazer justiça. No Brasil, o tema vem sendo tratado de um jeito muito diferente. É como se não fosse conveniente abordar a questão, como se fosse de mau gosto. Muitas vezes acho que o Brasil optou pela amnésia.

Na apresentação do livro, você menciona o fato de o Brasil ter levado muito mais tempo do que outros países do continente para criar uma Comissão Nacional da Verdade. Como avalia a atuação da CNV? Acredita que a Lei de Anistia deve ser revista?

Sinto que, em nosso país, o tema da memória, da verdade e da justiça foi abafado. Posto de lado. Há muitos interesses para que não se mexa nesse passado, no período da ditadura civil-militar. E não me refiro apenas aos agentes públicos — militares, policiais — que praticaram o terrorismo de Estado e cometeram crimes de lesa humanidade, imprescritíveis, mas também aos que se beneficiaram, e muito, nos longos anos do regime: empresários nacionais e estrangeiros, empreiteiros, banqueiros, alguns donos de grandes meios de comunicação… Num cenário como esse, é natural que uma Comissão da Verdade encontrasse obstáculos pela frente. A negativa das forças militares em colaborar talvez seja o mais visível, mas há muitos outros. De todas formas, acho que o trabalho da Comissão foi levado a cabo com muita dignidade e correção. Quanto à manutenção da Lei da Anistia, acho que se trata de uma postura covarde, indigna. Só os covardes têm medo do passado. Assegurar a impunidade dos que, agindo em nome do Estado, como agentes públicos, torturaram, vexaram, violaram, sequestraram e assassinaram, é algo típico dos poltrões. Lembro de uma frase do advogado argentino Eduardo Luis Duhalde, secretário de Direitos Humanos que se encarregou de anular as leis de Anistia do seu país. Dizia ele: “Tudo bem, é preciso virar a página e seguir adiante, mas antes é essencial saber o que essa página a ser virada contém”.

Qual é a maior força de uma instituição como o Museu da Memória, em Santiago do Chile? Acredita que deveria haver algo do gênero no Brasil?

Acho, sim, que o Brasil deveria adotar uma série de iniciativas para contar, às novas gerações, o que ocorreu durante a ditadura civil-militar que durou de 1964 a 1985. Ao escrever “A memória de todos nós”, soube de coisas que são ignoradas por quase todos no Brasil. O Museu da Memória, em Santiago, tem o mesmo efeito de instituições similares na Argentina e em outros países: revelar o que aconteceu, como uma tentativa de esclarecimento para que nunca mais torne a acontecer. Quando vejo aqui pessoas nas ruas reivindicando a volta dos militares, me assusto. Ou são pessoas que não têm ideia do que estão pedindo, ou pior, têm.

Você acompanhou o caso de Juan Gelman e Macarena, que espelha tantos casos semelhantes na América Latina. Quais são suas lembranças mais fortes da busca de Gelman pelo filho, a nora e a neta?

‘Argentinos, uruguaios e chilenos criaram uma obra que trata dos tempos negros das ditaduras e depois, do reencontro com a democracia, muito mais vasta e sólida que a nossa.’
Gelman foi uma amizade fraterna. Meu irmão poeta. As primeiras lembranças são do sequestro de seu filho Marcelo e sua nora Maria Cláudia, em agosto de 1976. Marcelo tinha 20 anos. Uma patrulha militar foi buscar Juan, que já estava no exílio, em Roma. Sem Juan, levaram Marcelo e Maria Cláudia. Primeiro, Juan tentou saber do filho, um “desaparecido” a mais. Naquela Argentina, “desaparecido” era alguém sequestrado e certamente morto. O primeiro desespero foi esse: saber o que tinha acontecido com o filho. Depois, o que tinha acontecido com a nora grávida. E depois, com o neto ou neta. Minha lembrança mais forte é de Juan Gelman, poeta maior, em seu desespero. Macarena, a neta, foi finalmente encontrada, depois de uma campanha mundial. E aqui, uma vez mais na nossa América, salta o exemplo de um religioso. Juan Gelman fez de tudo. Ouviu do então presidente uruguaio, Julio María Sanguinetti — sua nora, presa na Argentina, tinha sido levada grávida para o Uruguai, num movimento típico da Operação Condor —, a promessa formal de que moveria céus e terra para encontrar sua neta. Sanguinetti prometeu muito e, indignamente, não fez nada. Quem ajudou Gelman a encontrar a neta foi um bispo católico, Pablo Galimberti.

Além de Gelman, você foi e é amigo e tradutor de vários escritores que lidaram com o tema da memória. Como a literatura pode abordar os traumas do passado ditatorial? Quais foram as intervenções mais importantes de escritores nesse tema, na sua opinião?

Muito mais que a brasileira, a literatura hispano-americana foi pródiga na abordagem desse tema. Os exemplos são muitos, e de muito tempo. A realidade e a memória como tema literário estão sempre ativas e presentes na obra de autores hispânicos, muito mais que na nossa. A lista preencheria páginas. Cito, em todo caso, uns poucos exemplos: “Dias e noites de amor e de guerra”, do uruguaio Eduardo Galeano; “Recuerdo de la muerte”, do argentino Miguel Bonasso; ou “Soñé que la nieve ardía” e “El baile de la victoria”, do chileno Antonio Skármeta. A verdade é que argentinos, uruguaios e chilenos, cada um à sua maneira, criaram uma obra que trata dos tempos negros das ditaduras e depois, do reencontro com a democracia, muito mais vasta e sólida que a nossa.

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