Em busca de José Luís Peixoto

Fui há pouco ao Google em busca do nome de um jovem escritor português citado por Woden Madruga em conversa comigo anteontem na Siciliano. Achei que o primeiro nome era Luís, cravei esse nome no Google seguido de “escritor português”, e então apareceu José Luís Peixoto (99% remetia para Camões). Prossegui a busca e na Wikipédia (aqui) tem que Luís é poeta, romancista, composito e teatrólogo, com prêmios importantes na bagagem. Vendo a lista dos romances dele, bateu-me a certeza de que este é o autor que WM recomendou. Sim, na busca atrás do nome certo, deparei com estes poemas dele abaixo. É provável que a poetisa portuguesa Sylvia Beirute conheça alguma obra ou mesmo a poesia desse autor e pudesse dizer alguma coisa pra gente.

NINGUÉM

nenhum lugar se escuta no lugar onde não existes.
aqui, não há sequer o teu esquecimento. há palavras
que não te negam. crescemos sem esperar nada de ti.

se és o silêncio, nós não conhecemos o silêncio. se és
a solidão, és inútil. o que existe longe de nós não é a
nossa casa. nós suportamos as paredes da nossa casa.

nenhum tempo pode esquecer o tempo que te esqueceu.
agora, a música repete outros rostos. os instantes não
se lembram de ti. o horizonte tenta proteger-te do medo.

AMOR

o teu rosto à minha espera. o teu rosto
a sorrir para os meus olhos. existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras. vêes-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

ENCANTAMENTO

há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.

essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
mão se disse uma palavra. brilho, , montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.

há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.

EXPLICAÇÕES DA ETERNIDADE

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

*(José Luís Peixoto – do livro: A Casa, a Escuridão – Edição: Temas e Debates/Lisboa-Portugal)

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. pau 12 de janeiro de 2011 19:10

    O Zê Peixoto é um dos mais grandes escritores (vivos e ainda nao vivos) em língua portuguesa.. e em todas as línguas. Começou com o seu “Morreste-me”, um breve livrinho escrito após a morte de seu pai. Escreve sempre no gume entre a poesia e a prosa, paralelismos, reiteraçoes, metáforas.. tem um olhar sobre as coisas diferente, como se ele for novo na Terra. Desculpem a minha paixao. Saúdos.

  2. Varela Cavalcanti 23 de julho de 2010 14:48

    José Luís Peixoto é um belo escritor. Li, recentemente, Uma Casa na Escuridão, edição brasileira da Record. Muito bom, muito bonito, prosa densa e poética.

    Não guardei o livro, passei pra frente, dei de presente, e divulguei a “descoberta” o mais que pude.

    Cemítério de Pianos (Record) e Nenhum Olhar (Agir) são outros dois títulos dele publicados no Brasil.

  3. sylvia 23 de julho de 2010 11:50

    José Luis Peixoto é um nome muito respeitado em Portugal, mas sobretudo nos romances.

    De poesia, tenho dele “a criança em ruínas”, que considero um bom livro.

  4. João da Mata 23 de julho de 2010 11:45

    Um outro Luiz Peixoto

    Para os que não conhecem, Luiz Peixoto foi um dos maiores poetas da Música Brasileira. Letrista do célebre samba – canção “Linda Flor”. Parceiro de Ary Barroso – É Luxo só, Maria, Na batucada da vida, Por causa desta cabocla, quando eu penso na Bahia, etc – entre outros grandes da nossa música.

  5. Jarbas Martins 23 de julho de 2010 11:24

    José Luís é um bom poeta, Tácito. Não li todos, parei em Ninguém, que me lembra Homero.Tenho um fim de semana todo para ler esse poema, dizendo para Polifemo, meu alter ego: “Meu nome é Ninguém”.

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