Em busca de uma literatura capaz de explicar o mundo

Por Antonio Gonçalves Filho
O Estado de S.Paulo

Uma trilogia que começa pelo fim só pode ser obra de um visionário. E o austríaco Hermann Broch (1886-1951) sabia muito bem o que viria a significar no futuro uma obra que falava de uma Europa à beira do colapso moral, financeiro e político. Parece atual? Sim, mas foi em 1930 que Broch assinou um contrato para publicar Os Sonâmbulos, cuja primeira (boa) tradução brasileira, assinada por Marcelo Backes, acaba de chegar às livrarias pela Editora Benvirá. São três densos volumes – Pasenow ou O Romantismo (volume 1); Esch ou A Anarquia (volume 2) e Huguenau ou A Objetividade (volume 3). Eles representam para a literatura de língua alemã do século 20 um monumento literário incontornável – tanto como O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, ou A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O último, que, a propósito, era também ótimo crítico literário, considerava a trilogia de Broch o mais sério testemunho de sua conturbada época.

Broch preferiu, como se disse, começar essa história pelo fim, esclarecendo que seus sonâmbulos são seres que vivem em estado letárgico, entre a agonia e a emergência de sistemas éticos. De fato, o fim é mesmo Huguenau ou a Objetividade. Embora tenha sido o primeiro volume escrito, seria o último a ser publicado, em 1932, um ano antes da ascensão de Hitler. Seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos, o primeiro volume registra a data de 1888 como seu marco zero, justamente o ano em que o Kaiser Wilhelm II, mentalmente instável, sobe ao poder e implanta uma política externa agressiva. Pasenow, que dá título ao livro, é o sobrenome do personagem central, um nostálgico aristocrata e militar prussiano vivendo como sonâmbulo num mundo à beira da extinção, marcado pelo absolutismo do uniforme militar – tão temido como foi no passado a batina dos padres. Para complicar, Pasenow divide seus sentimentos entre uma vizinha da mesma classe social e uma suburbana prostituta checa.

No segundo volume, Esch ou a Anarquia, Broch usa como cenário as casas de pequena burguesia, elegendo como protagonista o contador August Esch, que deixa a vida burocrática para gerenciar um circo, promovendo lutas femininas. Essa é outra experiência insatisfatória para o erotômano Esch, que sonha trocar a Alemanha pelos EUA. Sua expectativa é frustrada quando o parceiro comercial foge com todo seu dinheiro. Os personagens de Esch movem-se no mundo da insegurança, inclusive o próprio, que busca um bode expiatório para sua desconfortável posição de falido. Matar o homossexual Eduard von Bertrand – industrial em que todos projetam seus piores pesadelos e que aparece já no primeiro volume – surge como possibilidade para ele, mas o crime não se concretiza. Bertrand será levado ao suicídio.

No terceiro volume, Huguenau ou O Realismo, Pasenow e Esch retornam no último ano da 1.ª Guerra Mundial para topar com o mais sinistro personagem da trilogia, o desertor Huguenau, que mata Esch, violenta sua esposa e parte para Lorraine em busca de uma vida burguesa, estabelecendo-se como “respeitável” homem de negócios. Inescrupuloso, ele sintetiza a dissolução moral de uma época – justamente no ano em que o mundo perdeu definitivamente a inocência, 1918, quando o romantismo e anarquia cedem terreno à objetividade de criminosos como Huguenau, um protofascista.

Broch não usa artifícios literários para acentuar a desintegração de valores nesses 30 anos de história europeia que o romance cobre. Se rejeitou o realismo literário no primeiro volume e parodiou a linguagem expressionista no segundo, no epílogo ele rejeita a alegoria e os modelos clássicos de narração para concluir sua história como um ensaio. Sintomático. Broch desconfiava – com razão – do romance. Amigo de Joyce, sobre quem escreveu um ensaio, o escritor acreditava que esse gênero literário (“pobre substituto da filosofia”) precisava de uma recarga extra de criatividade para sobreviver à demanda do leitor comum, quase um criminoso da sintaxe, ao exigir do autor que facilite sua vida.

Broch, obviamente, não veio ao mundo para agradar. Isso parece claro do primeiro ao último volume de Os Sonâmbulos, trilogia considerada a melhor obra produzida pelo autor vienense, segundo o tradutor Marcelo Backes, que também verteu Geist und Zeitgeist (O Espírito na Era Materialista) para o português – o livro de ensaios sai em 2012, simultaneamente ao lançamento do mais conhecido livro de Broch, A Morte de Virgílio, este na tradução mais antiga, de Herbert Caro. “No volume Huguenau, que é o mais filosófico dos três volumes de Os Sonâmbulos, o ensaio adentra chutando a porta do terreno do romance”, resume Backes. Broch se dá conta, segundo o tradutor, de que a Europa “vivia um processo de desintegração moral iniciado ainda na Idade Média, quando se perdeu o sentido orientador da Igreja.”

Judeu convertido ao cristianismo, Broch, contudo, não desenvolve uma literatura católica salvacionista, como a do francês Bernanos. Ele fala principalmente do retorno ao mito, lembra Backes, o que faz com que se ocupe da literatura de Joyce, Kafka e Thomas Mann em seus ensaios. Em O Espírito na Era Materialista, observa Backes, há, inclusive, um estudo sobre o autor de Ulisses, que exerceu relativa influência sobre Broch. Com efeito, ele fez uso do monólogo interior e renegou a narrativa tradicional, mas esse parentesco com o autor irlandês foi logo relativizado pelo austríaco, ao analisar a escritura fragmentada, cubista, do amigo – uma colagem que ele definiu como “pontilhismo psicanalítico”.

O mito que interessa a Broch não é o do aggiornamento do herói homerístico, mas o do poeta de Eneida, cujas últimas 18 horas de vida são recriadas em A Morte de Virgílio. “Essa é a sua história fundamental, até mesmo porque Broch pretende traçar um paralelo entre a vida e a época do poeta e a sua, num exercício autobiográfico que em muito se assemelha aos autorretratos de Cézanne para entender seus semelhantes”, diz Backes. Preso num campo de concentração, Broch esboça um livro híbrido que cruza dois gêneros, o romance histórico e o poema em prosa, para contar como Virgílio pretendeu queimar sua obra-prima, Eneida, por julgá-la imperfeita.

Ao descrever os últimos momentos da vida de Virgílio e estabelecer um paralelismo entre a Roma antiga e o nascente nazismo – há uma nítida correspondência entre o imperador Augusto e Hitler no livro – Broch insinua, contudo, que o fascismo do século 20 era ainda pior que o dos Césares. A literatura, de qualquer modo, seria inútil diante da desumanidade dos dois regimes. Virgílio não queria queimar Eneida apenas por identificar em sua obra palavras inexatas que feriam os mandamentos aristotélicos da boa composição, mas porque seu ceticismo ia além do terreno formal da linguagem. Afinal, o que contava mesmo era a justificativa de Augusto para manter a integridade do poema épico de Virgílio – o imperador evoca a responsabilidade do poeta como cidadão romano para preservar a obra.

Broch enfrenta dilema semelhante: é um escritor diante de uma crise histórica, o que explica sua crença na Idade Média como um época verdadeiramente íntegra, ao contrário do período descrito por ele em Os Sonâmbulos, caracterizado pelo vale-tudo comportamental e pela derrocada de princípios éticos. Um dos possíveis modelos de Huguenau, aliás, pode ter sido o próprio pai do autor, Joseph Broch, arrivista, materialista, hedonista, enfim, um hipócrita que levava vida dupla e frequentava bordéis masculinos enquanto forçava o filho a seguir a carreira de industrial contra a sua vontade.

A conversão de Broch pode ter sido uma resposta à secularização ocidental e, particularmente, ao relativismo desesperado do pai. Só a arte, e não o conhecimento científico, podia espelhar a totalidade. É sobretudo na última parte de A Morte de Virgílio que ele exprime sua visão mística do mundo. Talvez por isso o tradutor Marcelo Backes se identifique mais com o Broch de Os Sonâmbulos do que com esse seu mais conhecido livro. “Em Os Sonâmbulos, ainda há um ceticismo que orienta sua literatura”, justifica, concluindo que o descrédito numa solução teleológica, nessa trilogia, o aproxima mais do autor. Entre as afinidades eletivas de Backes, aliás, está outro cético vienense (ainda que ameno), Arthur Schnitzler, de quem também é tradutor. Ele acabou de entregar para a Record a autobiografia do autor de O Tenente Gustl, que considera sua melhor novela.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jóis Alberto 3 de dezembro de 2011 12:01

    Excelente esse texto – matéria jornalística + resenha literária, de Antonio Gonçalves Filho, do “Estadão”, sobre reedição e nova tradução de “Os Sonâmbulos”, de Hermann Broch. Um ótimo exemplo de jornalismo cultural feito com profissionalismo, competência e grande talento. Felizmente, como Gonçalves Filho mora numa metrópole, São Paulo, está mais a salvo de vaidades – pelo profissionalismo, acredito – e, consequentemente, a salvo também de invejas, por ter escrito mais um texto brilhante, dentre os inúmeros que ele já produziu ao longo de sua carreira profissional como jornalista especializado em jornalismo cultural.

    Se fosse em Natal, que hoje está criando ares de metrópole, porém ainda é um bocado provinciana, onde predomina ainda, muito, uma mentalidade provinciana, jornalista da área cultural que conseguisse escrever um texto nesse nível – excelente -, geraria vaidades e consequentemente os mais variados tipos de invejas, maledicências… Mas vaidades e invejas são inevitáveis nesse métier, certo, mesmo em São Paulo? Sim, por isso se jornalista cultural natalense que faz parte das igualmente inevitáveis ‘panelinhas’ estará mais protegido de invejas, maledicências…

    O ruim é quando jornalista, artistas, intelectuais e até mesmo pessoas do público consumidor de arte e cultura não tem tais proteções e passa a sofrer discriminações e estigmas horrorosos como “intelectual de sovaco”, “sociologia de botequim”, “louco de palestra” e outros tipos de besteirol desqualificador de argumentações. Se Antônio Gonçalves usasse esses rótulos preconceituosos como “louco de palestra”, etc, seria, para mim, uma grande decepção. Porque argumentações livres, sem censura, não importando se enunciadas por pessoas ‘normais’ ou não, são a base da democracia.

    Pelo acesso de todos à arte e à cultura, sem preconceitos! Pela cidadania cultural, que permita ao cidadão sair da mera condição de consumidor, para tornar-se também artista e intelectual! Inclusive esse novo tipo de intelectual: o tal ‘louco de palestra’. Só não vale censura nem monólogos culturais elitistas!

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