Em conta-gotas, digital forma seu oceano

Por Joselia Aguiar
NO VALOR ECONÔMICO

Um Graciliano remoçado aparece na Festa Literária Internacional de Paraty, que o celebra de quinta-feira a domingo. Modelado em e-book: são 15 títulos, de obras consagradas, como “Vidas Secas” e “Angústia”, a novos volumes, como o de cartas inéditas. Até agora só havia três no formato, “São Bernardo”, um infantil e outro com suas recém-lançadas crônicas de mocidade. Não é apenas para somar mais um lançamento, entre os tantos do calendário de homenagens ao mestre alagoano, que o grupo carioca Record anuncia a novidade. Ao transportar para as telas de e-readers e tablets um dos nomes mais importantes do seu catálogo, com venda permanente sobretudo em escolas, espera atrair o interesse de um público ainda maior. Mais que remoçar Graciliano, é ele que, na plataforma, ajudará a cativar leitores para a nova tecnologia.

Às vésperas de Paraty, a Companhia das Letras colocou no ar um e-book aperitivo gratuito, com trechos de livros de seus 11 autores que comparecem ao evento. A ocasião de fazer uma investida digital de maior monta surgiria logo depois. Em meio à recente onda de protestos em todo o país, a casa editorial paulistana anunciou um novo selo, o Breve Companhia, para e-books de textos enxutos de jornalismo, comentário político e ficção. Os dois primeiros títulos saem em ritmo veloz, como exigem os acontecimentos: nas próximas semanas, para o público conectado à rede, o mesmo que se mobilizou nas ruas. Um será assinado por Piero Locatelli, repórter detido pela PM de São Paulo pelo porte do vinagre com que pretendia amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo durante a cobertura. O outro, por Marcos Nobre, professor da Unicamp na área de filosofia que avalia o impasse político do país da pós-democratização.

Quando os primeiros e-books começaram a ser oferecidos aqui, há cerca de dois anos, a participação do digital no mercado brasileiro, de tão ínfima, não alcançava 1%. Um pouco mais que isso, 1,5%, é o cálculo de executivos de editoras e livrarias consultados pelo Valor. Não é uma conta simples. Envolve dados dispersos e nem sempre divulgados, e há que se considerar que o impresso também dá sinais de que continua a expandir. As vendas cresceram 7,2%, incluindo as compras de mercado e governo, segundo o mais recente relatório CBL/Snel/Fipe, referente a 2011.

Esperava-se um tsunami digital assim que aportasse aqui a Amazon. Com o Kindle, inaugurou em novembro de 2007 um mercado nos Estados Unidos que representa entre 20% e 30% da indústria do livro, a depender do nicho – no entanto, editoras americanas divulgaram neste ano desaceleração e até leve recuo de negócios com o e-book. Seis meses depois da instalação no Brasil da gigante americana, em dezembro, a onda digital continua a se formar e pode surpreender, mas por ora pinga, em conta-gotas, no cotidiano brasileiro.

A velocidade lenta preocupa? “Este é apenas um mercado de seis meses no Brasil e, de todo modo, o tamanho do mercado não é algo que nos preocupe no dia a dia”, diz Alex Szapiro, vice-presidente da Amazon Kindle. O grupo é conhecido pela discrição com que divulga números e planos. Torna alguns disponíveis: para os leitores brasileiros, são mais de 19 mil títulos em português – num manancial de 1,9 milhão em outros idiomas – e destes 2.500 títulos gratuitos. Com aplicativos de leitura também gratuitos, é possível ler mesmo sem um Kindle à mão, usando tablet, smartphone ou o próprio computador. Szapiro lembra que o Kindle não é só um dispositivo, é um serviço que incentiva o próprio consumo de livros: “Vemos que as pessoas leem mais quando compram o Kindle”.

As concorrentes daqui se mantêm na briga. Antecipando-se à Amazon, a Livraria Cultura lançou em outubro dispositivo de leitura exclusivo em associação com a canadense Kobo. A venda do aparelho superou, em mais que o dobro, a estimativa inicial e a de e-books, incluindo clientes que usam tablets ou smartphones, cresceu 398% em um ano, diz Sergio Herz, presidente-executivo. Números absolutos não são informados. Para uma ideia desse volume, que apesar de crescer é pequeno, tem-se o percentual que representa nas vendas totais: 3,7%. A cultura digital gera negócios por outras vias, as filiais Geek, para games, HQs e bonecos colecionáveis. A primeira foi aberta há um ano. Hoje já são quatro.

A ainda pouca oferta de títulos em português e o preço relativamente caro do leitor eletrônico – modelos mais avançados surgem também em ritmo veloz – são vistos como fatores para dificultar uma explosão do digital. “Para quem compra só seis livros por ano, o que é muito mais que a média nacional, que não chega a dois, não vale a pena o custo investido”, pondera Herz. Deve-se considerar aquele que talvez seja o principal motivo para o percentual ainda baixo: trata-se, enfim, de um novo hábito de leitura. “Por costume, ainda prefiro papel.” De uma queda de preço se pode fazer o hábito. À vista, um Kobo Aura HD, o mais avançado, custa R$ 599. Na Amazon, o Kindle Paperwhite, também de ponta, entre R$ 479 (wi-fi) e R$ 699 (wi-fi + 3G). Caso ocorra a prometida desoneração fiscal, o preço dos dispositivos pode cair em 40%, calcula Herz. O preço dos e-books também não caiu como se espera. Custam em média apenas 30% menos – por um “Vidas Secas” impresso, paga-se R$ 32,90, pela versão digital, R$ 23.

Revolução digital

 Em certos nichos, o digital já faz diferença. Quem conta é o diretor de compras do grupo Saraiva, Frederico Indiani: a depender do livro e do seu público, corresponde a 20% ou 30% das vendas imediatamente após um lançamento. Como exemplo, recorda quando saiu o segundo e então esperado volume da trilogia pornô soft “50 Tons de Cinza”, de E.L. James. Somam-se aí um leitor conectado e ansioso pelo título, uma autora com status de mega-seller – lista que inclui também Dan Brown e Sylvia Day – e o tipo de marketing. Por sua portabilidade e ferramentas de pesquisa, o digital é também formato ideal para livros técnicos como o catatau de direito “Vade Mecum”, entre os best-sellers digitais da Saraiva há dois anos, quando começou a colocar no ar os primeiros e-books. Centenário, o grupo investe em e-commerce desde 1998, e a loja digital é há tempos a segunda no ranking das 105 filiais. O crescimento é contínuo: de 83% no primeiro trimestre, na comparação com mesmo período de 2012, num total de 62 mil downloads.

Entre escritores, o digital alterou hábitos e ampliou possibilidades, mas não transformou, ao menos com a radicalidade antes prevista, aquilo que fazem em sua literatura. “A revolução literária causada pela internet não ocorreu, ou até ocorreu, mas não no sentido de modificar a maneira como escrevemos”, disse Daniel Galera em coluna no “Globo”.

Identificado uma década atrás como parte da “geração internet” – o termo era usado para escritores que possuíam blogs –, é autor do recente “Barba Ensopada de Sangue”, romance nada breve em suas 424 páginas. “Ocorrem mudanças profundas na maneira como lemos, consumimos e debatemos a literatura”, diz ao Valor. “O fato é que um conto ainda é um conto e um romance ainda é um romance.” Aquela nova literatura que se imaginou, como observa, “acabou se manifestando nas redes sociais, na maneira como conversamos e compartilhamos histórias e nossa vida nos meios eletrônicos, são essas as narrativas verdadeiramente novas do paradigma digital, o Instagram, o Facebook, o Tumblr, o Twitter.”

Galera usa Kindle para ler livros e textos disponíveis em sites, mas ainda compra a mesma quantidade de livros impressos que antes. “De modo geral, me beneficio de todos os formatos ao mesmo tempo e não tenho a intenção de substituir minha biblioteca impressa por outra digital. Terei duas bibliotecas paralelas.” Em Paraty, participa de mesas que aliam as duas vertentes, tradição e inovação: sobre tragédia clássica na Flip e sobre imagem e palavra na Flipzona, que ocorre em paralelo.

Da geração que surgiu com os blogs, Andrea Del Fuego estreou com narrativas breves experimentadas na internet. Integrou antologias de microcontos aqui e em Portugal e fez um livro digital, “O Replicante”, recontando o filme “Blade Runner”, cult da ficção científica. Para escrever seu premiado “Os Malaquias”, isolou-se num sítio sem internet. O procedimento é outro: “A produção para um blog era influenciada pela rapidez, pela pressa que, antes de ser inimiga da qualidade, e muitas vezes é, também dá ao texto algo de seu próprio instrumento. Escrevi o romance de outra forma, desconectada dos meios digitais, isso influencia a mente, que se acalma e alcança outras coisas. Um sítio também é ferramenta.”

Das mudanças que a internet permite à literatura, a que parece mais crescente é de fazer de todo leitor um potencial escritor, como prevê Andrea Del Fuego. “Todo leitor, se quiser, fará sua ficção, um pouco como aconteceu com a fotografia, hoje todos fotografam e publicam suas fotos. Ganha a fotografia.”

Não é apenas um palpite. Amazon e Saraiva comentam com entusiasmo a procura por suas ferramentas de autopublicação. Na Amazon, chama-se KDP – Kindle Direct Publishing, usado por autores independentes ou nanoeditoras que já conseguem entrar na lista de cem mais vendidos. Na Saraiva, a Publique-se!, lançada em maio, possui quase 7 mil autores cadastrados, com mais de 200 títulos já à venda no site da Saraiva. Diante de tantos autores em potencial na rede, a curadora Giselle Zamboni teve a ideia de promover saraus literários pelo Twitter – usando a tag que identifica a comunidade literária interativa, #letras365 – e, depois, realizar exposição dos talentos recolhidos. Uma amostra do que encontrou está em #Tuiteratura, em cartaz no Sesc Santo Amaro até 4 de agosto.

As micronarrativas de 140 caracteres foram criadas por 61 autores, a maioria estreantes e alguns já consagrados, convidados para criar no formato para a exposição, como Andrea. Não foi fácil fechar o número, como conta. Em quase um ano, catalogou mais de 150 criadores e quase 1.200 frases poéticas e microcontos. A meta é fazer a mostra viajar por outras cidades. O impresso não sai do horizonte: já recebeu propostas para publicar o conteúdo. “Seria bacana perenizar a tuiteratura desses escritores todos, tornar perene a mostra em si, perenidade que todo escritor deseja e só o livro traz. Tomara aconteça.”

Em 2010, a revolução digital ocupou mesas da Flip. Nesta edição, que reúne ensaístas e gente do cinema, não trata especificamente do tema, mas inclui uma ficcionista premiada por inventar sob a forma de escritos brevíssimos, a americana Lydia Davis, vencedora do Man Booker International Prize. “Acho que a Flip deve voltar ao assunto quando tiver certeza de que vai trazer algo de original para o debate”, diz o curador Miguel Conde. Na Bienal do Rio, que começa em 29 de agosto, Amazon e Kobo vão participar como expositores pela primeira vez, e a nova tecnologia se faz presente em convidados internacionais como o roteirista de jogos eletrônicos Corey May, da série “Assassins Creed”, lançada pela Galera Jovem, com 50 milhões de cópias vendidas no mundo, 450 mil exemplares no Brasil. Em conta-gotas, o digital forma seu oceano.

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