Em Doha

Por Demétrio Diniz

Ao jornalista e amigo T. Costa

E às noites (…) havia um pássaro de cimento. Seu canto

                                   era áspero, uma canção de cimento. Herta Muller.

 

Em Doha, um sol gigante

entra pelos vidros do aeroporto.

Os passageiros disparam suas máquinas às seis da manhã

levam para guardar em casa o sol grande de Doha.

E eu fico triste em ver um sol tão bonito

desperdiçado entre máquinas e vidros.

 

(Tão diferente do sol derretendo a neve nas montanhas de Paro

deixando à vista o verde úmido, sempre pronto, dos pinheiros.)

 

Lamento que eu acorde e durma

com os olhos entupidos de cimento

– salvo apenas por esse amarelo de novembro das craibeiras.

Sei tratar-se de um cinza em pó, inóspito

e esvoaçante como todo pó.

(Um vento de nada o carrega, some com ele

uma chuvinha de nada o derrete, faz lama.)

Pó sujo, pó miserável.

Encarde os braços, as mãos

escurece o rosto

acinzenta um céu tão claro!

E de uma aspereza tal que não se presta ao toque.

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