Maestro Bembem Dantas fala sobre sua demissão da FJA e seu amor às bandas

A edição do Diário Oficial desta terça-feira, 26, publicou a reintegração do maestro Bembem Dantas no cargo de Direção e Chefia Cultural da Fundação José Augusto. A demissão do cargo na semana passada, pelo qual ganhava R$ 1.400,00 por mês, provocou duras críticas ao governador Robinson Farias e uma onda de solidariedade nas redes sociais.

Não se sabe ainda o que levou o governador a assinar tão desastrado ato administrativo. De qualquer forma, a razão parece ter voltado ao Centro Administrativo. O que merece comemoração. Uma das raras unanimidades num meio bastante desunido, o maestro realiza há cerca de 40 anos um importante trabalho na área musical, principalmente no interior do estado e mereceu recentemente uma reportagem do conceituado jornal espanhol El País.

Reconhecido como um dos nomes mais importantes para a cultura do estado, o anúncio de sua saída da Fundação José Augusto pegou tomou todo mundo de surpresa.

Na segunda-feira, 25, à noite, antes de sair o ato de reintegração, eu conversei com o maestro pelo WhatsApp. Ele estava tão atônito como todos nós. “Amigo eu não sei… alguém me avisou… Depois ligaram, passaram mensagem… Soube por ver nas redes sociais que tinha sido o governador… Não sei mesmo… Meu compromisso é com as Bandas. Não tenho compromisso com políticos, muito embora sou grato a Mineiro, Isaura, Rosalba, Wilma, Garibaldi, Woden, pelo que eles contribuíram, um pouco de cada um”.

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O maestro lamentou que as bandas não são prioridades no estado. “Mas é um erro. Pois em qualquer encontro de Bandas nós colocamos 500 músicos nas ruas, nas praças. Fazendo música honesta, cultural, de boa qualidade técnica e artística”.

Durante o nosso bate-papo o maestro se mostrou magoado com a forma como foi tratado. Não mereceu sequer uma ligação telefônica. Ficou sabendo pelas redes sociais, através de amigos.

Ele vinha da gestão anterior, de Isaura Rosado, e foi aproveitado na de Rodrigo Bico e depois na de Crispiniano, tendo começado na primeira a criação do SEBAM (Sistema de Bandas) e cuidar do projeto Bandas Filarmônicas no RN Sustentável. A SEBAM ainda não saiu do papel, depende do Fundo Estadual de Cultura, que também continua no papel. “Talvez porque não estamos organizados para termos a força que necessitamos, talvez não exista vontade política, talvez não existam recursos, talvez esse sistema não funcione”, especula.

Antes de ser nomeado por Isaura trabalhava como voluntário. Na base do amor a causa, como muitos da área cultural. Ele reconhece e lamenta não ter podido fazer mais pelas bandas devido a falta de recursos. “Apresentei vários projetos, mas não consegui nada”.

Pergunto sobre os valores para os projetos voltados às bandas. Bembem diz que não são expressivos. “São muito abaixo do que precisamos e pretendemos”, afirma.

Em seguida faz a defesa da importância desses equipamentos para as cidades do interior. “As Bandas dão ares de cidadania às cidades do interior, geram ocupação, emprego, renda e inclusão sociocultural. Todos sabem… Mas fecham os olhos. São cerca de 10.000 ou mais, incluídos diretamente hoje nas bandas, tendo aulas, aprendendo a tocar, ensaiando, compondo, regendo, arranjando e lutando para melhorar seus serviços para a sociedade e contra a massificação cultural”.

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Segundo o maestro, os frutos desse trabalho já são visíveis. “Essa semana um filho de agricultor daqui, estava em temporada no teatro municipal do RJ com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Outro terminou mestrado nos EUA, com louvores, outro em Portugal fazendo doutorado e tocando com grandes artistas e Orquestras e tantos outros assumindo postos importantes… Mas continuamos de pires na mão”.

O maestro se mostrou agradecido e sensibilizado com a solidariedade nas redes sociais. “Sinceramente, surpreso e meio ressabiado, só não quero que vire coisa de politicagem, mas a grande maioria foi muito sincera”.

Ele conta que não se considera importante nesse processo, porque as Bandas é que são. – Esse não é um movimento que tenha um dono, nem um líder. Todos os maestros sofrem o descaso e abandono, muitos trabalham voluntariamente. E muitos são enganados.

Questiono se sua exoneração pode ter causa política, uma vez que ele é ligado ao deputado Mineiro e no Facebook tem defendido o mandato da presidente Dilma. Ao que ele responde: “Não sei. Gosto de Mineiro porque é sincero. Nunca falei de política com ele. A luta das Bandas, as dificuldades das Bandas são eternas amigo”.

Digo que vi no perfil dele no Face várias fotos do governador em eventos de bandas, não pode ter assinado a exoneração por engano.

Ele lembra que votou em Robinson em gratidão a Mineiro, pelo empenho do deputado na Assembléia na conquista do SEBAM, e que votou em Betinho em gratidão a Isaura. “Mas também com a promessa deles nos apoiar nas nossas demandas”. Sobre Dilma o maestro é claro e coerente: “Defendo a presidenta não, defendo a democracia e reconheço que nos últimos anos, o pobre teve um pequeno apoio. O pobre viu um caminho para se tornar um cidadão. Acho que tirar essa presidenta dessa forma, é golpe na democracia. E principalmente pelo medo do Brasil ficar nas mãos de Cunha, Bolsonaro e outros que na minha opinião vão ser um retrocesso para a nação. Nunca fui filiado a nenhum partido, nem acredito neles. Como bom sertanejo acredito em caráter.”

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Para finalizar quero saber quais os planos que ele tem para o futuro, naquele instante já se considerando fora da FJA. “Esse ano são os 30 anos da banda de Cruzeta. Sem dinheiro nenhum vamos conseguindo montar um programa. Já gravamos um CD na EMUFRN, dia 2 de junho vem uma orquestra americana aqui em Cruzeta, estou articulando um CD, só com peças de compositores revelados na banda e outro, de dobrados, valsas e fantasias brasileiras só para banda. Palestras, concertos. Tudo sem dinheiro público. Com a cara, a coragem e a contribuição dos amigos e vou continuar a luta pelas Bandas e concluir a implantação das Bandas do RN Sustentável. Também ficar um pouco aqui plantando melancia e milho irrigado, num pedaço de terra que tenho. Também são meus 40 anos de carreira. Queria fazer uma pequena confraternização entre amigos”.

UMA FOTO COMO TESTEMUNHA

Em um birô na sala do editor-chefe da Tribuna do Norte, Carlos Peixoto, tem uma foto em que aparecem três rapazes belos, recatados e do lar, em uma praça, ao lado de um carrinho de pipocas. Um deles está comendo pipocas. Os outros dois aparecem ao lado, distraídos. Não é uma foto posada. Foi feita no século passado, aí pela década de 1990, em Cruzeta ou Carnaúba dos Dantas.

Na cidade estava ocorrendo um grande evento de bandas de músicas liderado pelo maestro Bembem Dantas e dois deles participavam a convite do então presidente da Fundação José Augusto Woden Madruga. Um deles, o das pipocas, é Peixoto. O outro é Carlão de Souza. O terceiro sou eu, que na época trabalhava como assessor de imprensa da Fundação. Comecei a acompanhar o trabalho de Bembem e esta foto é um testemunhal, desde aquela época. Por isso choquei quando soube da demissão dele.

Felizmente, parece que tudo não passou de um grande mal entendido.

Viva as bandas, viva Bembem!

 

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