Em Londres, novos russos miram mercado mundial

Por Josélia Aguiar
ENVIADA ESPECIAL A LONDRES
FSP

Conhecido pelos clássicos do século 19, país arma estratégia para consolidar escritores contemporâneos

A embalagem vermelha do chocolate diz em letras prateadas: “Saboreie os novos livros russos”.

Não é o único souvenir. Canetas e calendários promocionais distribuídos no pavilhão da Rússia, país homenageado na London Book Fair, na última semana, também desconcertariam os camaradas dos tempos soviéticos.

Os russos querem ocupar as prateleiras de livros do mundo. Editores, autores e instituições se organizaram para apresentar e vender sua nova ficção a leitores que só os amam até o século 19, de Dostoiévski e Tolstói.

Depois da feira londrina, vão seguir para a de Pequim, em agosto, e para a Expo Book America, no ano que vem. E já preparam um calendário para receber editores estrangeiros. Novas revistas, prêmios e agências literárias, além de programas de incentivo à tradução, fazem parte do arsenal.

Não se trata de mais um país homenageado em feiras internacionais. A Rússia, hoje quase inexpressiva no mundo das letras, possui a literatura de talvez maior influência no século 20.

“Perguntei em livrarias daqui qual autor contemporâneo conheciam. Ninguém sabia dizer”, contou à Folha Denis Kotov, à frente da União Russa do Livro. “Há muito mais que clássicos: histórias de detetive, ficção científica, biografias”, enumera Svetlana Adjoubei, diretora da Academia Rossica, há uma década sediada em Londres para estimular traduções em inglês.

Não parecem faltar, aliás, instituições com esse objetivo: na feira londrina, estavam representantes de outras duas fundações, Mikhail Prokhorov e Russkiy Mir.

BEST-SELLERS

Parte desse exército literário foi apresentada em Londres, num catálogo com 50 autores de diversos gêneros. Alguns são best-sellers em seu país, vendendo alguns milhões de exemplares -um ficcionista brasileiro é bem-aventurado quando alcança os 10 mil exemplares.

O abre-alas da comitiva é Andrei Bitov, 75, já bastante traduzido no Ocidente (no Brasil, pela Record), com obras como “A Casa de Puchkin”. Outro veterano é Boris Akunin, 54, autor de, entre outros, “Leviatã” (Objetiva).

A maioria só começou a publicar, porém, na última década. Entre os críticos russos, fazem sucesso Alexander Ilichevski, Ludmila Ulitskaia e Mikhail Shishkin. A lista de autores promovidos reúne também os novíssimos,como Alisa Ganieva, 25.

A ironia é que a Rússia quer emplacar títulos de gêneros dominados pelos Estados Unidos, com que polarizava a geopolítica mundial até 20 anos atrás.

“A “pulp fiction” triunfa sobre a ficção de qualidade”, reclama Natasha Perova, fundadora e Publisher da Glas, uma das novas editoras. “Tolstói e Dostoiévski teriam dificuldade de publicar hoje. Provavelmente não venceriam prêmio.”

Editores brasileiros que participaram da London Book Fair não demonstraram interesse específico pelos autores apresentados no pavilhão russo. “O país-tema, em Londres ou em qualquer outra feira, pouco ou nada tem a ver com a compra de direitos”, lembra Roberto Feith, diretor editorial da Objetiva/ Alfaguara, que tem russos em seu catálogo.

“São eventos para a imprensa e o público”, acrescenta. “O livro muitas vezes tem de passar antes com sucesso por mercados como o dos EUA”, confirma Alexandre Mathias, diretor geral da Ediouro (selos Agir e Nova Fronteira).

Escrever perdeu peso político, dizem autores

Estatal e sob censura até duas décadas atrás, a indústria de livros da Rússia possui duas gigantes que detêm mais de 80% do mercado, a Eksmo e a AST.

São grupos que também controlam a distribuição e o varejo, concentrados em Moscou e em São Petersburgo. Novas editoras, que atuam em nichos tão específicos como o de história ou o GLS, se estabeleceram apenas nos últimos anos.

Após a abertura política, uma enxurrada de títulos estrangeiros ocupou a atenção dos leitores. Só depois, a partir dos anos 2000, vozes locais surgiram e se firmaram.

Apesar das vendas exuberantes na Rússia, escritores e poetas não têm o peso político ou estético do século passado, concordaram os ficcionistas Leonid Iuzefovich e Olga Slanikova, a poeta Maria Stepanova e o crítico Lev Danilkin, participantes de um dos muitos eventos sobre a nova literatura russa.

“Somos tão sem importância que a imprensa ainda é censurada, mas nossos livros não mais”, afirma Danilkin.

O objetivo do debate era mapear as grandes tendências de hoje. “Depois de um século de realismo-socialista, estamos cansados de ter de seguir alguma tendência”, ironiza Stepanova.

Entre muitas divergências, os autores identificaram a dicotomia fantasia versus realismo como um dos eixos que norteiam a miríade de ficções. (JOSÉLIA AGUIAR)

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