Em que internet você vive?

Por Luli Radfahrer
FSP

Há quem se sinta moderno por usar uma cornucópia de aplicativos, sem se dar conta de que ela é um retrocesso

AO LER muito do que é escrito hoje sobre a rede mundial de computadores, me pergunto a que internet tantos se referem. Dificilmente será a estrutura acadêmica, textual, monocromática, de configuração difícil, baseada em máquinas enormes e barulhentas. Soa estranho pensar que já houve o tempo em que “entrar na rede” implicava se deslocar fisicamente até os terminais de algum mainframe institucional e mendigar uns minutinhos de tempo de servidor na frente de um monitor de fósforo verde.

Não, certamente a tal internet de que tanto se fala não deve ser essa. Tampouco deve ser a rede que a sucedeu, um território livre, revolucionário, inconformado, não alinhado, coletivo, jovem-universitário-entusiasmado, ingênuo, meio hippie até, imaginando utopias enquanto esperava o modem completar a conexão. Soa nostálgico pensar que já houve o tempo em que havia uma hora certa para “entrar na rede”, pois isso implicava em se desconectar do resto do mundo e deixar o telefone ocupado, cobrando os minutos feito taxímetro enquanto se buscava uma reconexão social por meio de salas de chat ou outro simulacro qualquer.

Não, acho que não. Por mais que os planos de dados cobrem preços abusivos, a internet em que negócios, governos e outros pilares do contemporâneo se apoiam já não liga mais para a hora do dia, nem é mesquinha com o peso das coisas que, hoje medidas em Gbytes, ofuscam a época modesta em que Mbyte era coisa de rico.

Muitos ainda se referem a uma internet dependente de browsers, em que ainda se digita http://www, pedindo um protocolo e rede específicos, por mais que gopher: e telnet: estejam praticamente extintos, que ftp:// use outros aplicativos e que seja difícil de imaginar uma rede não global nem gráfica. Resquícios da evolução, http e www fazem tão pouco sentido quanto o browser, hoje que muitos aplicativos e sistemas operacionais acessam a rede-mãe.

Há quem se sinta moderno por usar uma cornucópia de aplicativos, sem se dar conta de que ela é um retrocesso aos tempos de conteúdo fechado, restrito e pago. E irreversível, talvez só eventualmente superada por aparelhos que tornarão o conteúdo ainda mais fechado, restrito e caro.

As máquinas maravilhosas de um futuro próximo deverão acessar um tipo diferente de Skynet (ooops, ato falho), com um volume exponencialmente maior de dados contextuais, semânticos e outras variáveis muito além de nossos vãos algoritmos. Não há dúvidas de que serão usadas por gigantes que ainda nem foram inventados para tomar decisões por conta própria, agindo mais ou menos como o Google quando nos faz crer que os resultados apresentados sejam realmente os mais adequados.

A internet, como toda infraestrutura, evolui silenciosamente e se transforma ao longo dessa evolução. Tudo o que hoje há de mais rico e poderoso será rapidamente superado. Talvez por aquela tecnologia que os íntimos apelidam de Bio, talvez pela outra cujos fiéis chamam de Nano. Ou talvez -vai saber?- por algo tão simplório que, se fosse inventado hoje, não chamaria a atenção.

A nós só resta compreender que a evolução não prossegue em linha reta e buscar identificar seus pontos de inflexão. Talvez assim fique mais fácil compreender por que a humanidade que um dia sonhou com carros voadores e planetas colonizados acabou por se contentar, dez anos depois do prazo, com 140 caracteres.

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