Em tradução (City on Fire)

Por Caetano Galindo
BLOG DA COMPANHIA

O grande Sérgio Rodrigues, lá no Todoprosa, tem uma seção chamada QUE CENA! sobre aqueles momentos da literatura que são meio de tirar o fôlego mesmo.

Tradutores são cheios de momentos quecena.

O tipo de leitura que a gente faz (próxima, detalhada, obsessiva) faz o cabra ficar ainda mais chapado com esses momentos de humilhação técnica, com esses dribles de Neymar que os prosadores às vezes engatam.

Aí embaixo vai publicado pela primeira vez um trecho da tradução-em-curso do romance City on Fire, de Garth Risk Hallberg. A bem da verdade, ESSE trecho, especificamente, até onde eu sabia é inédito mesmo. O livro só vai sair em outubro nos esteites, e por lá só se viu até agora a cena de abertura.

Aproveite.

É uma PUTA cena. O primeiro contato do nosso amigo William com a heroína, em Nova York, nos anos 70.

Enquanto traduzia eu ia ficando pasmado aqui com a solução do problema que é como incorporar o êxtase da droga ao texto.

William, no livro, é músico. E ele usa a heroína pela primeira vez no sótão de uma loja de discos.

Boa parte do sucesso da cena está justamente nessa integração da literatura à música. Tanto que eu acabei traduzindo ao som da música mencionada (Cortez the Killer, de Neil Young), apesar de eu não ser fã de Young e nunca, mas NUNCA trabalhar ouvindo música (eu tendo a sumir na música e esquecer de trabalhar…).

Quer fazer um teste?

Põe o seu Neil pra tocar e lê aí.

Me conta lá nos comentários.

🙂

(p.s.: a “Coisa Distinta” foi o termo que Henry James usou para se referir à [sua própria] morte, apesar de William não lembrar… cortesia do tradutor, ok?)

*************

William puxou o canivete e ficou procurando uma superfície para alinhar umas carreiras, mas de novo o cara, de quem William já estava até começando a duvidar se gostava, o deteve.

“Não não não não, meu”, ele disse, como se William fosse uma criança brincando com uma lata de inseticida. “Isso aqui é caviar. Tem que meter nos canos.”

Enquanto o cara lhe amarrava um garrote no braço, William desviou os olhos. O medo que ele tinha de agulhas, desde pequeno, era lendário. Cada vez que sua irmã contava de novo a história da antitetânica, era maior o número de enfermeiras que tiveram que ajudar a Mãe a segurá-lo. Só que aparentemente o medo era apenas a máscara que o fascínio usava para se esconder de si próprio. Ou pelo menos era fascínio o que ele estava sentindo agora, uma certa empolgação, como se talvez fosse essa a coisa que ele estava procurando nos últimos meses, enquanto o futuro da banda ia ficando mais negro. A coisa distinta. Agora de onde foi que essa expressão apareceu? O cheiro da droga no fogo era como cabelos ou milho queimado, ou como uma consulta odontológica, acre mas doce. Veio uma mão no seu antebraço e um beliscãozinho vituperativo. “Fique firme, rapaz. Você está que não para.”

“Eu não estou sentindo nada”, ele disse. E aí ele estava entrando, do braço para a frente, numa banheira da temperatura do corpo, pensando desinteressadamente, no momento em que aquilo lhe chegou ao peito, se por acaso ia gozar na calças. O rosto dele estava viajando para longe da, do quê, da alma, que estava entrando de cabeça no calor, que era onde Deus estava. E isso só nos dez primeiros segundos. Ele sentiu o queixo bater no peito, que nitidamente era o seu lugar mesmo.

Maravilha. Não te disse? A voz vinha de longe, muito longe.

Ele ouviu uma outra voz uma oitava mais baixa que a sua, uma linda voz densa, ronronando, “Maravilha”. Ele estava apenas vagamente consciente da primeira voz, dona nem de ronronado nem de queixo, e que agora se garroteava, e depois dizia que William podia ficar ali em cima o quanto quisesse, quando na verdade o que William queria saber era se seria possível ir ainda mais alto.

As caixas dos alto-falantes subiam sem parar. O disco falava de Cortés o conquistador, o assassino, e era angelical, imensas nuvens brônzeas de guitarras que singravam como naus, numa brisa doce e casta que subia das calçadas e lixeiras lá fora. Havia algo infinitamente triste, e assim infinitamente lindo, naqueles galeões e no verde mar e no pôr do sol yucateco e nas mínimas partículas de cinza nos folículos do carpete. Ele queria pintar o pó volante, o verde distinto. A coisa distinta era a morte, claro, a Morte já estava vindo do litoral distante para onde tinha levado sua mãe, mas se era assim que a coisa acontecia, então, como dizia Nicky, ele estava pouco se fodendo. Os navios estavam longe demais para poder feri-lo agora e ele ficou um tempo olhando, nu com sua máscara de esqueleto, enquanto alguém entrava e alguém saía e os canhões cintilavam nas encostas como miçangas de baba no braço de uma poltrona. Ele mal conseguia voltar a agulha para o começo da faixa, e aí depois de um tempo nem precisava mais. A música estava por dentro. Ele tinha engatinhado para dentro do falante.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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