Em tradução (Saul Bellow)

Por Caetano Galindo
BLOG DA COMPANHIA

Sai este mês o volume com as quatro novelas tardias do grande Saul Bellow. Imperdível, claro, pra quem quer conhecer a melhor literatura americana produzida no século 20. Bellow, afinal, é daqueles autores que pairam acima de gostos, opiniões e tendências. E esses textos fazem muito para definir os rumos da sua literatura madura, onde ele investia num ritmo narrativo curioso, entre o relato oral e a elaborada trama literária, gerando, por lenta acumulação de detalhes e por complexas idas e vindas temporais, um resíduo final de uma densidade incrível.

De minha parte, o livro traz ainda duas marcas fortes, e duas coisas “atípicas” no mundo da tradução literária (ainda que longe de serem inéditas, vá lá).

A primeira delas é que eu traduzi pela primeira vez as duas novelas que me cabem onze anos atrás, quando outra editora, por indicação do grande Cristovão Tezza, aceitou entregar esse trabalho nas mãos de um tradutor praticamente virgem.

Andos e desandos do mercado, a tal outra editora nunca chegou a publicar as tais novelas. Morreu o projeto.

Ano passado, quando o grande Leandro Sarmatz me convidou a entrar na viagem deste volume, eu pensei “uia! posso dar uma olhada naquelas traduções antigas antes de trabalhar”: doce ilusão.

Caro leitor, cara leitora…

Não queira se confrontar com as tuas traduções de dez anos atrás, ainda mais quando dez anos atrás elas eram tuas primeiras traduções.

Resultado: sentei de novo com o original e refiz as traduções do começo ao fim, permanentemente percebendo o quanto eu mudei de opiniões sobre a tradução literária e o quanto, especialmente, eu fui passando a NÃO ter tantas opiniões. O quanto a gente vai ficando maleável na tradução na mesma medida em que as vértebras L4 e L5 vão ficando mais travadas…

O outro detalhe é que, como esse projeto vinha encaixado entre vários outros (eu ando meio que traduzindo bonecas russas, abrindo espaço num trabalho pra fazer outro etc.), eu não poderia cumprir os prazos com o mínimo de decência sem dividir a tarefa.

E aí entra o brodinho. O grande Rogerio, o segredo mais bem guardado da família. O tradutor de verdade entre os irmãos WG.

Eu em geral, como todo mundo, prefiro responder sozinho (e plenamente) pelos meus textos. Já tive, é verdade, experiências bem felizes em traduções “a dois”, seja partindo o original (como no caso das letras de Lou Reed, com o grande vizinho Christian Schwartz), seja efetivamente discutindo a tradução sílaba a sílaba, gerando um texto que eu nem sei mais de quem é (como na tradução que fiz com o mestre Luís Bueno do Doutor Fausto de Christopher Marlowe, ainda inédita). Mas, no geral, a tradução literária continua sendo, e deve mesmo ser, um trabalho solo.

Mas trabalhar com o meu irmão foi um prazer incrível.

Primeiro por me permitir entrar no barco Bellow com a confiança de cumprir prazos e entregar um texto de nível bom. Segundo, por poder ver o nível do trabalho do rapaz.

Deixa eu explicar: ele é meu irmão MAIS NOVO!

Por mais que eu saiba há muitos anos que ele é foda, é sempre um prazer perceber o quanto ele é melhor que eu.

Na revisão conjunta que fizemos das novelas (duas dele e duas minhas), pra poder regularizar eventuais desvios de estilo e de escolha etc., só pude perceber que não tinha o que acrescentar. O texto estava pronto e, na minha modesta opinião, muito bom.

As pessoas que nos conhecem aqui (colegas dele no jornal que acabam sendo meus alunos, ex-alunos meus que vão trabalhar com ele) se divertem com o quanto as nossas vozes (e tiques e manias e vocabulários) são parecidas. A gente até se divertia enganando quem ligava lá pra casa.

Agora, essa similaridade de “vozes” tem um teste maior, a serviço de um projeto de que eu me orgulho muito, a serviço de um grande escritor que definiu boa parte da literatura do seu idioma nesse século que se passou desde que ele nasceu.

E que, de quebra, definiu a minha entrada na tradução literária e moldou, agora, essa colaboração com o Rogerio.

Que venham outras.

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