Em viagem pelo tempo

Passo olhos de binóculo pelo espaço do tempo. Passado, presente, futuro – tijolos do castelo das eras. O pretérito, sempre fugidio, alimenta de saudades a alma, mesmo quando de lembranças tão próximas. Parece antítese ao presente na poesia de Drummond. O passado tem também a mania dos fatos. Em sua película, raras são as hipóteses. Há até quem diga: “O passado não passa!”. É que recordações são sempre vivas no porão da memória, amigo leitor. E o presente é uma rotina quase sempre indigesta.

O presente é morador indesejado do cotidiano. O vizinho inconveniente do passado. A realidade alicerçada das recordações e memórias. Não precisa a depressão para sentir o peso da realidade. O presente tem mesmo a cara da vida, da dor. É a possibilidade da ilusão. A oportunidade da pergunta. O presente é a materialização da escolha: bancário ou cigano. Mas a poesia do agora é escrita, necessariamente de mel ou cicuta. Não há alternativa. É coisa do destino. Ora, a morte é a sombra do presente.

O futuro tem a face do infinito. São as linhas tortas de Deus, mas tem também projeto próprio. Por vezes se apresenta tardiamente de muletas e bengalas, em despedida repentina do presente. O futuro é o outono quando se é inverno. É o destino quando tudo são planos. É o concreto dos sonhos fracassados. O futuro é um segredo desvendado. O resultado da dádiva divina e a frustração do fim. São os milhares de anos do amanhã ou o minuto seguinte.

Difícil não é escrutar as molduras do tempo ou caminhar a estrada do presente, amigo leitor. Nem mesmo olhar as marcas abraçadas pelo passado. Vislumbrar um destino seja ele qual for ou pintar de cores alegres e simples esse quadro de tempos é o verdadeiro segredo da vida. Ou será ilusória a idéia de que madrugada e alvorecer são distintos? Quem surgiu primeiro: o antes, o agora ou o depois? Viver o segundo é pisar em qual espaço de tempo?

Certeza tenho apenas a de que o tempo, alheio e surdo aos chamados de socorro, não espera por nada. Então, como viver? Carpe Diem? Não. Aproveitar o momento talvez seja pouco. A vida é pra valer, como dizia Vinícius. E é bom lembrar: as nostalgias também elevam o espírito. São tristezas gostosas de curtir. Quem sabe, então, fazer de um dia a vida inteira? Arriscado. Há também que se planejar o futuro. De hoje e amanhã. Tantas interrogações…

Esquecer o tempo. O compasso da vida. É isso. Viver na inércia dos ventos. Ou no impulso dos desejos. Flutuar sobre nuvens no planeta dos sonhos… São muitas as opções. Mas parecem tão longes… Vamos replicar, então, o lema do Teatro Mágico: “De ontem em diante serei o que sou no instante agora”. E pronto! Mas, quem é você agora?

Por hoje sou o comandante de um saveiro reluzente. Ainda de poita recolhida. De amarras soltas e velas içadas, em preparo para a grande e última pescaria. Velejo ciente dos arrecifes e nevoeiros. Do perigo iminente oculto no mar. Sequer invejo navios mercantes, de rotas tão previstas. Eles transportam cargas pesadas demais para a leveza da vida.

E por hoje, só por hoje quero velejar sem naufrágio repentino. No descansar do último arrebol quero largar a âncora ao mar, recolher meus tresmalhos e varas e degustar peixes fresquinhos entulhados nos samburás. Rodeado da brisa e da tranqüilidade proporcionada pelo esforço dos anos.

Amanhã, somente naquele amanhã inesperado meu coração pertencerá às marés. Nesse momento saberei viver o ontem como o instante agora. E nesse dia, apenas nesse dia, meu coração não mais navegará nos mares da vida. Ele será o próprio mar.

Comments

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  1. rosemarry 28 de Maio de 2008 1:24

    Estas de parabéns,um belo texto e um assunto sem fim o TEMPO,mas mim indentifiquei com essa parte:

    “Certeza tenho apenas a de que o tempo, alheio e surdo aos chamados de socorro, não espera por nada. Então, como viver? Carpe Diem?”

    então CARPE DIEM pra vc !!!

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