Emergentes não são ‘mercados’, diz Pamuk

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

Para vencedor do Nobel de Literatura em 2006, países como Turquia e Brasil deveriam ser vistos como ‘humanidades’. Autor turco participou do ciclo Fronteiras do Pensamento; mais cedo, arrancou risos de estudantes em SP

Por Fabio Victor
FSP

O escritor turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura em 2006, disse ontem à noite, em conferência pelo ciclo Fronteiras do Pensamento, que países emergentes como Brasil e Turquia deveriam ser vistos não como “mercados”, mas como “humanidades”.

“Falam dos emergentes como mercados. Temos de dizer que não somos mercados emergentes, somos humanidades emergentes”, afirmou, a uma Sala São Paulo cheia.

Ele defendeu que as identidades nacionais não podem sufocar liberdades individuais. “Somos pessoas livres, não somos escravos de nossa história e identidade.”

Numa palestra de 45 minutos, seguida de 25 minutos de perguntas, Pamuk discorreu sobre o poder dos romances e os limites entre ficção e realidade na literatura.

“Ler um romance é entender o mundo por uma lógica não cartesiana, [é perceber] que não existe uma única verdade e que podemos crer em ideias contraditórias.”

O autor de “Neve” e “Meu Nome É Vermelho” divertiu a plateia com suas respostas ao mediador Mario Vitor Santos, da Casa do Saber. Questionado se havia um lado ruim em ganhar o Nobel, respondeu: “A única coisa ruim é que me perguntam o que há de ruim no Nobel. O Nobel é bom e recomendo a todos”.

À tarde, em palestra na Universidade Mackenzie, arrancou risos ao falar de sua experiência como professor da Universidade Columbia, em Nova York.

Observou que ser escritor e dar aula de literatura são ofícios distintos. Lembrou do episódio em que Nabokov foi rejeitado em Harvard e do argumento do professor que o barrou: “Se levamos escritores para ensinar literatura, podemos levar elefantes para dar aulas de zoologia”.

Pamuk disse ter sido um autodidata que não aprendeu quase nada na universidade, mas sim refugiado na biblioteca do pai.

“Meu pai entendeu que eu queria ser um escritor, respeitou isso e me permitiu não fazer nada além de ler -me dava até um dinheirinho para comprar livros-, enquanto minha mãe achava que eu não seria ninguém.”

Aos estudantes, Pamuk criticou os países que reclamam da falta de reconhecimento de suas culturas mas, ao mesmo tempo, reprimem seus artistas e intelectuais. Nominou como exemplos China e Coreia do Norte.

Questionado pela professora e mediadora Marisa Lajolo sobre a influência da conquista do Nobel para as culturas de nações em desenvolvimento, disse que “especialmente em países onde não há liberdade de expressão, os governos são muito preocupados com a má recepção que têm no exterior”.

BÍBLIA E MACHADO

Presenteado com uma Bíblia -a Mackenzie é uma universidade presbiteriana- e uma edição em inglês do romance “Memórias Póstuma de Brás Cubas”, de Machado de Assis, agradeceu e disse ser um “grande admirador” do escritor brasileiro, o que repetiu à noite.

O escritor veio ao Brasil para o Fronteiras do Pensamento e para lançar o livro “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), reunião de conferências que deu em Harvard sobre grandes obras da ficção mundial.

Amanhã autografa a nova obra no Rio, na Livraria da Travessa do Leblon, às 17h.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo