Emoções Baratas

Por Conrado Carlos

“Apenas me dê um velho que volte para casa, que quando sair às nove eu saiba que estará em casa às seis para mim e só para mim, e eu assumo essa merda de vida com duas garagens e duas tevês”. Ciente que a existência apresenta mais dissabores que satisfações, Janis Joplin, a mulher que calculava ter chafurdado com mais de dois mil homens (“e algumas centenas de garotas”), queria a tranquilidade de uma relação estável. Dotada de uma volúpia singular quanto às drogas e ao sexo, ela representava a emancipação feminina nos anos 1960 em estado bruto. Mesmo feia, gorda e suja virou símbolo sexual e dividiu a cama, além de copos e seringas, com os homens que desejou. E não Ignorava suas imperfeições como autoadulação. “Tenho medo de acabar me tornando uma dessas velhas bêbadas e roucas que ficam vadiado pela rua da amargura assediando rapazinhos”.

Filha de pai bebum e maconheiro, e mãe promíscua quando jovem e carola na meia idade, encontrou na música (e nas drogas, sempre nas drogas) o amor que a vida lhe recusou. Sua atitude libertina e independente sinalizava uma nova era para a metade mais bonita e perfumada dos seres humanos ocidentais, outrora condenados à prisão perpétua de um casamento ‘até que a morte nos separe’.  Ao cantar “I Need a Man to Love” (“Eu preciso de um homem para amar”), porém, expôs impasses persistentes no universo feminino (só no feminino?): como conciliar profissão e casamento/família? Ser independente e, portanto, adepta do sexo casual ou ‘amarrar-se’ à monogamia? Mulheres ainda sonham com o ‘grande amor’ ou contentam-se com alguém para dividir contas, o sofá e algumas horas de diversão?

Dois parágrafos sobre Janis Joplin, vícios, década de  1960 e anseios femininos até chegar ao livro da semana? É que tinha lido o ensaio sobre Janis no “Livro dos Mortos do Rock”, de David Comfort (que será motivo de uma resenha especial) antes de “O Desfile de Páscoa”, de Richard Yates – este, sim, a dica da semana. A vida errática, depressiva e experimental de Joplin assemelha-se a das irmãs Sarah e Emily, personagens do livro de Yates – exceto pela heroína e pelo rock’n’roll. Tive medo de forçar a analogia, mas vi que era cabível. Afinal, pais problemáticos, onipresença etílica e alternância de parceiros, de alguma forma, influíram no destino de cada uma das mulheres – a real e as fictícias.

Claro que Emily, a irmã mais nova, inteligente e ‘descolada’ de Sarah não detém o recorde de 65 mancebos em apenas cinco dias – marca atingida por Joplin durante uma excursão canadense. Mas, se por um lado, Sarah escolheu o caminho mais fácil e nem sempre satisfatório do matrimônio prematuro, Emily procura o velho que voltará para casa às seis horas em meio a soldados, bissexuais, bateristas de jazz, escritores fracassados e empresários da indústria têxtil. A narrativa de Richard Yates é simples, cadenciada e emotiva como um blues. Assim como tem trechos caóticos, densos e apreensivos como um rock.  Da infância à fase adulta, Sarah e Emily invertem os papéis. Aquela foi uma linda adolescente e, hoje, é uma mulher acabada, envelhecida, após anos de uísque e surras do marido. Esta, era magrela e insossa, agora, entretanto, é interessante, culta e sensual. Ambas infelizes. Janis, que foi uma bela criança e uma mulher mal-amanhada, também foi infeliz.

Entre a inconstância profissional, reminiscências angustiantes e sonhos frustrados, as três mulheres temiam a solidão. O caráter ardente e indócil de Emily, a personagem de Yates, e Janis Joplin, o ícone da contracultura, instigou uma independência perigosa. Enquanto Sarah, quatro anos mais velha que Emily, foi entorpecida pela inércia que enfraquece a inteligência. Ao terminar “O Desfile de Pascoa” e lembrar o texto sobre Janis Joplin, senti o amargor das escolhas erradas que elas fizeram, da mesma forma que compreendi a inevitabilidade de algumas delas. Com ou sem opções, são as mesmas dúvidas que nos estremecem, mortais leitores/ouvintes.

O Desfile de Páscoa
Autor: Richard Yates
Editora: Alfaguara
Preço: R$33,90

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