En cuir chapeau et doublet

(IMAGEM – Cláudio Dickson)

As meninas minguaram o riso quando viram o galego todo ornamentado, ostentando, sobre os ombros irregulares à própria altura, uma manta de couro cru, recém curtido, que ainda exalava um cheiro travoso de sola. No alto da cabeça, outra peça de couro, encobria os cachos, ora brancos ora louros. O chapéu de abas baixas e curtas, embainhado de um branco gelo e tiras decaídas nas laterais, deixavam o homem tão desconexo quanto Mané Vaqueiro, um jovem do mato que não tirava o conjunto nem para o asseio.
Só a cor da pele denunciava a diferença entre os sujeitos. Mané tinha a cor do gado vermelho. Tão adaptado ao sol e à caatinga que, ornado e em montaria, parecia, ele e o animal, uma unidade. Não foi, por acaso, que essa figura calada e bronca despertou no visitante o vislumbre de uma personalização nativa. Vestiu-se o homem com um conjunto de vaqueta, sem esquecer nada, nem jaleco, nem paletó, nem perneira, botinas ou luvas, para se parecer com Mané, embora este nunca o tenha visto antes.
Que marmota é essa? Gritou do meio do salão um embriagado, suscitando aos outros uma gargalhada feroz. O terreiro estava cheio, embora no palco ainda arrumassem o teclado que daria o tom do forró.
Pardon?… Indagou num francês limpo e autêntico, causando estranhamento e entusiasmo. Do nada, vários sujeitos o rodearam oferecendo proteção e empurrando quem quer que fosse. Do meio deles, um mais exaltado gritou desaforos: Bando de animais! Não respeitam o povo de fora… Também, nunca viram um estrangeiro na vida! Realmente não tinham visto. E essa notícia piorou a situação do sujeito que se viu obrigado a deixar as dependências da festa, tamanho o assédio.
De manhã, quando a vida no povoado se restabeleceu, todo mundo dava notícia do estrangeiro bonito da festa passada. Havia muitas notícias e comentários para a curiosidade das moças. Quando antes do almoço, ele passou tentando fazer andar um pangaré, a comunidade pode admirar uma beleza distinta. Um homem alvo e tão qualificado que fazia, na visão daquele povo, das vestes nordestinas uma harmonia perfeita.
Na quermesse, após a novena, os jovens mais tímidos já usavam chapéu de couro como o estrangeiro. Os amostrados expunham surrados ornamentos que antes se endureciam nos velhos armazéns de barro.
Mané Vaqueiro quase enche os olhos de água ao ver que, a seu estilo, toda a cidade se banhava. Meteu-se nas esporas e até entrou no meio do salão. Não havia mais distanciamento de seu estilo do mato para o dos moços da rua. Por ser o primeiro a preservar a decoração, achou-se no direito de caningar as moças sem livrar nem as que se diziam de família. Pelo braço, puxou uma delas para o traçado e quando se encaixavam no xote, viu desaparecer as luzes. Caiu no chão com o vão trancado e acordou com o ruge-ruge. Havia tomado um soco, não se sabe de quem, nas fuças pelo atrevimento de mexer em casta errada.
Ninguém se atreveu a tocar nele novamente pelo respeito e até pelo medo do braço de puxar garrotes, mas também não o orientaram sobre os motivos da agressão. Deixaram Mané Vaqueiro na altura do solo para cuidarem do agressor. Ele não entendia: se todos estavam iguais, por que agredir a um irmão que veste do mesmo couro? Talvez, pensou campeiro, suas roupas não estivessem adequadas à moda do povo, então decidiu partir. Abandonou festa e banca e sumiu mata adentro no rumo de casa. De manhã cedo, entregava, na mão do marchante, uma rêz das com mais arrobas que ganhara de sorte e seguiu para a Vila Grande.
No Armazém Central, reservou um traje completo bem riscado, com detalhes em branco e tiras enfeitadas, para compor-lhe o corpo. Pediu preferência e se arranjou na casa de um primo a espera do resultado da pedra. Um menino trouxe um recado que o marchante só o pagaria no dia seguinte. Chegada a hora, pediu que esperasse até a noite. Por esse tempo, o magarefe avisou que só venderia o arraste no outro dia. Esperou o tempo necessário até que o dinheiro desse o tanto combinado no armazém. Na casa de seu Tomáz, a mesma encomenda sairia pela metade do preço, mas o velho do mato não tinha um penduricalho chamado etiqueta.
Chegou em casa com a lua em passos de pensamento. Mas, cedo, antes da procissão, entrou na rua principal da comunidade numa marcha. Do alto de seu animal, o legítimo herói sertanejo apagava o sol que morria longe. No adro da capela, as filas de gente apressadas lembravam um jardim, tamanha as estampas de flores das camisas e vestidos. Velhos e moços, senhoras e meninas pintavam um campo de nove-horas. Parecia-lhe uma homenagem pelo novo traje comprado a sangue e paciência de quem espera novilha na catingueira. Mas o povo que passava, não lhe emprestava nenhuma atenção, além do desdém comum. Ao invés disso, corriam no rumo do estrangeiro que fora convidado a caminhar na frente da imagem da padroeira. O francês não aguentara o mormaço da tarde e, há dois dias, abandonara as vestimentas de couro por uma camisa florida e calças curtas.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

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