O encanador bloqueado

Por Juan Pablo Villalobos
BLOG DA COMPANHIA

Não sei vocês, mas eu comecei o ano péssimo. Péssimo quer dizer preguiçoso, indisciplinado, distraído, improdutivo. Pra falar a verdade, estiquei as férias de Natal até o 22 de janeiro, dia em que eu tinha que entregar um texto pra um blog. O resultado, além da ressaca e da indigestão permanentes, foi o esperado: passei vários dias olhando fixamente para uma página em branco.

Eu sempre achei, e continuo a achar, que a página em branco está sobrevalorizada, como se reclamar de não conseguir escrever nada fosse uma façanha. Escrever, ou, neste caso, não escrever, deve ser a única profissão em que você pode se gabar da própria incompetência. Ou você já viu um encanador bloqueado e, ainda por cima, orgulhoso do cano que pinga e não consegue arrumar?

O “sofrimento” do escritor bloqueado já foi representado inúmeras vezes na literatura, no cinema e na TV. Acho que até novela da Globo teve escritor bloqueado! A cena é mais ou menos a mesma e, de fato, serve pra qualquer tipo de crise existencial: o cara dando voltas que nem gato com intestino preso, vestindo roupão, fumando e bebendo whisky.

Acredito que o prestígio do escritor bloqueado tem a ver com um certo tipo de escritor, ou, melhor, com um certo estereótipo: o escritor atormentado. Como é difícil escrever!, grita o escritor atormentado, porque assim, quando consegue escrever, se conseguir, espera o reconhecimento da façanha não só pela qualidade do produto (o romance, poema, textinho etc.), mas também pela quantidade de sofrimento investido na escrita. No final das contas, a mitificação da página em branco não é outra coisa que disfarçar de elegância o mimimi da esterilidade criativa.

Gosto de pensar que eu não sou um escritor atormentado, mas o fato é que eu tinha uma página em branco e meu cérebro se recusava a enchê-la de palavras. E só precisava de 400 palavrinhas! Aí eu fui fazer o que faço normalmente quando tenho pequenos bloqueios ou quando preciso pensar o desenrolar do enredo antes de continuar escrevendo: fui lavar a louça. Pelo estado da cozinha parecia que o exército ucraniano tinha tomado café da manhã ali. Calculei que arrumar aquilo me levaria uns 40 minutos no mínimo, mas então aconteceu que a água estava gelada, gelada mesmo (tenho que esclarecer que eu moro, neste momento, no inverno do c…). Dei uma olhada no aquecedor e descobri que não funcionava. Desliguei, liguei, dei uns tapinhas nas costas do aquecedor, falei com ele, o insultei em três línguas. Nada.

Porra.

Não é o caso de contar aqui a série de estragos que tenho padecido neste apartamento, basta dizer que fiz uma ligação ameaçante pra imobiliária e uma hora mais tarde o encanador bateu na minha porta. Naquele momento a página em branco continuava branca, branquíssima.

Acompanhei o encanador até o aquecedor. Desligou. Ligou. Deu uns tapinhas no cu do aquecedor e me pediu que ligasse o chuveiro e deixasse aberto. Passaram dois, três minutos. Nada. Lembrei dos amigos em São Paulo e fui colocar um balde sob o chuveiro, quem sabe eu poderia mandar essa água pra eles por correio. O encanador desmontou a tapa do aquecedor e apertou por aqui e por ali, tirou uma pilha e a colocou de novo, deu mais tapinhas e pediu pra eu ir verificar a temperatura da água do chuveiro. Gelada.

Daí o encanador falou:

— Esquisito.

Só isso: esquisito. E ficou quieto na frente do aquecedor, mudo, estático, olhando pro teto dum jeito sonhador. Teria oferecido a ele um whisky, se tivesse, mas em casa só tinha tequila e o tequila, todo mundo sabe, é um companheiro perigosíssimo da crise existencial. Deixei passar uns minutinhos. E logo falei:

— E aí?

— Você tem o manual do aquecedor?

Falei que não.

— Hum — falou o encanador.

Fui dar uma olhada no computador. A página continuava em branco, branquíssima. Voltei pro aquecedor.

— Então… — falei.

— Não sei, cara, está tudo certo, estou bloqueado.

Porra. Era precisamente o tipo de companhia que eu precisava. E de golpe lembrei de meu gastroenterologista, que mudou meu diagnóstico três ou quatro vezes até que um dia, simplesmente, ficou em silêncio depois de sugerir que eu estava perfeito. E do mecânico do carro, que não soube explicar de onde vinha aquele barulhinho irritante e ria, porque tem pessoas que quando ficam bloqueadas riem. O mundo estava lotado de páginas em branco.

— Vou descer a fumar e volto daqui a pouco — falou o encanador.

O encanador saiu e eu atravessei a sala, onde no computador a página em branco continuava branca, branquíssima, até chegar na janela. Passaram oito, doze segundos. Logo apareceu o encanador na calçada. O vi acender um cigarro e começar a dar voltas até a esquina.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

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