Encararemos!!!

Tem um tipo de gente que adoro, com o qual me sinto organicamente confortável, satisfeito, tranquilo, realizado: são os artistas, todos eles. E dentre os artistas, coloco em destaque os escritores, os quais considero definitivamente a minha tribo eleita. Essa é uma raça (no melhor sentido da palavra) que sempre tem o que dizer, mesmo que no silêncio de um olhar blasé ou num devaneio aparentemente estéril, mas sensível. É sempre importante e produtivo prestar atenção aos escritores, principalmente aos poetas, claro, porque não vou deixar de puxar a sardinha para a minha brasa (ou vice-versa).

E os escritores produzem uma coisa, um objeto arretado que me atrai e me preenche as medidas. Chama-se livro. Fico igual a pinto na… não!!! Não vou usar essa expressão vulgar para revelar que sou um aficionado, um apaixonado irremediável por livros, livrarias, sebos, bibliotecas, principalmente o meu pequenininho ajuntamento de livros – mas que conta minha história pessoal e que traduz quem sou e quem almejo ser. Bom também é ficar de papo e na companhia dos escritores (os próprios) e – claro e evidente – das escritoras. Essa turma me faz viajar, buscando perguntas e respostas que tenham a mais mínima inteligência, profundidade, algo-que-o-valha. Digo isso mesmo tendo a convicção e a certeza de que a maior festa da literatura é a leitura. Óbvio e ululante! Mas aprendi a gostar (e muito) de todos os eventos e efemérides (essa palavra é meio feinha, né?) em torno dos escritores, do livro e da leitura. Saraus, tertúlias, feiras, festas, bienais, o escambau a quatro… isso vai sempre me atrair se vier acompanhado de palavras mágicas como literatura, leitura, escritores, leitores, livro etc. O crescimento pessoal sempre se dá e se dará nesses saborosos instantes.

Quando sou convidado para um evento desses, seja para mediar um debate, fazer alguma explanação, ler um poema, ou simplesmente comparecer à plateia, fico numa felicidade só. Ocorre também um fenômeno interno no meu ser e que diz respeito à responsabilidade que se amplia em mim. Afinal de contas, parece que já estou inserido nesse mundo, na condição de poeta que sou (ou quero acreditar que sou). Não é fácil não! Se me jogam um tema nas mãos, envolvo-me de uma maneira que talvez possa se traduzir em um radical mimetismo. Penetro naquele mundo à parte durante dias, semanas antes do evento e me transporto a tempos e dimensões diferentes do nosso momento e lugar. E isso aí é delicado. É até perigoso mesmo. Fico quase como o personagem central de Woody Allen no filme “Midnight in Paris”, ou mesmo em “Zellig”, que talvez ainda explique melhor a coisa doida que se passa comigo.

Foi esse envolvimento orgânico com o tema “Vinicius de Moraes – 100 anos” que me fez descobrir em meio às leituras e pesquisas uma expressão importante, uma fala rápida de Vina e que me deu a coragem necessária para compor uma mesa na FLiQ/Cientec juntamente com o biógrafo do Poetinha – meu já forte amigo, o escritor carioca José Castello – além do grande Vicente Serejo (maior cronista potiguar) a quem quero bem e admiro há tempos. A frase ou palavra dita no documentário intitulado “Um rapaz de família”, dirigido por Susana de Moraes, filha do saudoso Vina, é simplesmente esta: “Encararemos!”.

Isso foi dito por um Vinicius já grogue de whisky, em resposta a um convite de Pedro Moraes, seu único filho homem, para comerem juntos uma pizza durante as gravações do documentário de 1980, ano do falecimento do saudoso Poetinha. E essa foi a ótima expressão – “Encararemos!” – que também usei para, na sexta-feira, após o término das festividades literárias na UFRN, aceitar o convite de Tetê Bezerra para acompanhar o escritor/ dramaturgo paranaense/ paulistano Mário Bortolotto numa noitada boêmia-etílico-gastronômica e de excelentes papos no Farol Bar, em Areia Preta, diante de um luar tímido, porém belo (jornalistas Carlão de Souza, Tácito Costa – e sua Denise Araújo – além do editor e sebista Abimael Silva também estavam presentes), “traçando” costelas de porco com macaxeira frita, paçoca de carne com cebola, bolinhos de carne e…muita pimenta na língua salivante e plena de palavras e literatura.

Publicado também na Tribuna do Norte.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 11 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 29 de Outubro de 2013 11:39

    MASSA!

  2. Lívio Oliveira 29 de Outubro de 2013 12:54

    Anchieta, meu amigo, como eu gostaria de ter comparecido ao seu lançamento, meu amigo massa! Vou ler o livro e comentar oportunamente. Abraço forte!

  3. Lívio Oliveira 29 de Outubro de 2013 12:58

    Há uns pequenos defeitos gráficos na transposição do texto do site da TN para cá. Mas, tá valendo. E fico sempre grato a Tácito pela oportunidade generosa que tem me dado de trazer esses meus novos textos em prosa pra cá.

  4. Marcos Silva
    Marcos Silva 29 de Outubro de 2013 13:09

    Ô, Lívio, tem outros lugares invulgares que outros pintos felizes gostam de ficar…
    Mas achei seu texto de louvor ao verbo muito bom, sinto-me feliz que nem esses outros pintos naqueles lugares quando leio ou escrevo, ouço e vejo textos. Adoro poéticas visuais e sonoras (sinto pena de quem nunca viu El Greco nem ouviu Debussy, situação admissível apenas para os muito pobres – e tem uns muito pobres que viram e ouviram gente desse nível) mas isso não diminui meu tesão pela palavra.

  5. Oreny Júnior 29 de Outubro de 2013 15:14

    E viva a palavra adocicada, nessa colmeia de emaranhados versos, estilos, tomando inclusive a variante da canção, caso do nosso poetinha, vina.,
    Abração, Lívio!

  6. Marcos Silva
    Marcos Silva 29 de Outubro de 2013 15:47

    Relendo meu comentário, avaliei que seria melhor LUGARES INVULGARES ONDE OUTROS PINTOS. Perdão, leitores.

  7. Lívio Oliveira 29 de Outubro de 2013 17:20

    Oreny e Marcos, obrigado pelas observações.

  8. Anchieta Rolim 29 de Outubro de 2013 21:12

    Valeu, Lívio. Eu sei dos seus motivos, meu irmão. Um forte abraço!

  9. Tácito Costa
    Tácito Costa 29 de Outubro de 2013 21:33

    Lívio, já gostei de participar disso tudo. Mas nos últimos tempos ando abusado, enjoei, só aceito se não tiver jeito mesmo. Pra atender um amigo, como ocorreu na última Flipipa. De última hora um mediador desistiu e eu fui convocado. Prefiro ficar no meu canto, sossegado, na platéia. Da mesma maneira, prefiro o silêncio dos livros à tagarelice dos escritores.

  10. Lívio Oliveira 29 de Outubro de 2013 22:42

    Tácito, amigo, entendo suas razões. Mas ainda estou nessa etapa de compor as coisas. E ainda gosto duma boa prosa, também. Sempre aprendo. Abraço!

  11. Marcos Silva
    Marcos Silva 30 de Outubro de 2013 2:53

    Tácito: Lembrei de Bakhtin, falando do carnaval popular da Idade Média. Todo mundo era platéia e artista, não havia essa separação. Gosto de ouvir, tem escritor que se revela mais ao vivo, talento pra literatura oral.

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