Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

Por Márcio de Lima Dantas *

Nos dias 28, 29 e 30, no Teatro Alberto Maranhão, teremos o Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, evento promovido pela Fundação Capitania das Artes, o qual se pretende fomentar debates acerca da lusofonia, sobretudo no que diz respeito à literatura e suas interfaces.

Considera-se LUSOFONIA a reunião de identidades culturais que diz respeito aos países, regiões, estados ou cidades falantes da língua portuguesa, assim temos Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, Timor-Leste e São Tomé e Príncipe. A lusofonia não se restringe apenas ao fato de uma comunidade partilhar a mesma língua, mas se estende às áreas da literatura, artes, cooperação econômica e busca de um espaço de pertença que integre os lugares nos  quais a língua portuguesa desponta como principal. Ora, se considerarmos cada lugar lusófono como um arranjo, com certeza é possível detectar o espaço no qual há pontos em comum, uma pequena/grande extensão onde é possível hachurar, demarcar eventuais elementos que configurem afinidades e possibilidades de se empreender algo coletivamente. Pensemos nisso.

Muito bem. Considero que o que se encontra subliminar ao feitio do evento, como foi concebido, estruturado, é uma eventual possibilidade do que podemos nominar de um “território de afinidades” entre os diversos países que tem a língua portuguesa, a quinta língua mais falada do mundo, como sua principal forma de comunicação. Quero dizer com isso que mesmo tendo em vista desejarmos uma cidadania calcada em culturas distintas, não podemos esquecer que estão unidas pela mesma língua, portanto remetendo a um mesmo conjunto de tradições de representar e compreender o real, embora o processo histórico tenha operado cisões, separações não apenas geográficas, mas também isolamentos culturais. Há que lembrar existir todo um conjunto de potencialidades que podem vir a se materializar em projetos concretos visando o bem de todos, sobretudo num mundo globalizado como o nosso, no qual o esquecimento, o relativismo desenfreado, o descartável, a ausência do cultivo da memória são aspectos ostensivamente presentes e agressivos. Até certo ponto, irreversíveis.

Acho que a cidade do Natal só tem a ganhar com o Encontro de Escritores. Uma iniciativa dessa envergadura se inscreve como espécie de semente, como algo que será plantado num segmento de tempo de apenas três tardes. É claro que os frutos não poderão ser colhidos de imediato, há que esperar, pelo menos, uma versão a cada ano, para que o debate vá sedimentando uma tradição que, por sua vez, dê origem a intercâmbios culturais, fomente o turismo, chame atenção para a cidade como espaço aberto para a recepção de eventos relacionados à lusofonia em todos os seus aspectos: seminários, exposições de arte, convite da UFRN a professores visitantes, turismo de caráter histórico ou de eventos envolvendo países de língua portuguesa. Com efeito, não podemos esquecer que a cidade foi fundada no século XVI, por portugueses, resguardando, na sua paisagem, precioso material do período colonial, além de ressonâncias no imaginário ou na arquitetura.

Como se trata de um primeiro encontro, voltado exclusivamente para aspectos teóricos acerca da literatura lusófona e áreas afins; e também buscou-se imprimir uma feição de caráter verticalizante de um tema, ao invés de algo disperso, conformando-se como encontro monotemático, é claro que não se pode esperar grandes profundidades, tampouco resultados imediatos ou práticos. O tempo é curto, limitado a três mesas de debates, mas, mesmo assim, pode ser possível extrair resultados que repercutirão em novos encontros, em contatos, parcerias, operando uma dinamicidade na área da cultura da cidade.

O problema de ser consistente ou não, coisa amplamente questionada, vai depender da FORMA como se conduz o encontro, não do CONTEÚDO. Já é de bom tamanho achegar pessoas que tenham algo em comum: o fato de terem a língua portuguesa como matéria para sua expressão por meio da literatura, antes com apenas Portugal e Brasil como referenciais maiores, contudo, agora, já temos uma pujante literatura em países como Angola (Pepetela, José Eduardo Agualusa, José Luandino Vieira) e Moçambique (José Craveirinha, Mia Couto).

*Professor de Letras da UFRN

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Alex de Souza 27 de abril de 2010 8:32

    Antevejo hordas de intelectuais se estapeando às portas do Teatro Alberto Maranhão, ávidos por tão profícuo debate.

    Mas se der só os alunos de Letras da UFRN já está de bom tamanho.

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