Encontro com Tranströmer, o Nobel de 2011

POR JOHN FREEMAN
tradução CLARA ALLAIN
ILUSTRÍSSIMA – FSP

O poeta sueco Tomas Tranströmer, laureado com o Nobel em 2011, recebeu John Freeman em sua residência para uma conversa. Vítima de um derrame, ele foi auxiliado por sua mulher, Monica. Traduzido em dezenas de países, terá pela primeira vez poemas publicados no Brasil no segundo semestre deste ano.

*

A ilha de Runmarö fica uma hora a leste de Estocolmo, cercada de escolhos que se elevam da água. Para chegar a ela é preciso viajar num ferryboat que avança no mar revolto à velocidade de meros 20 nós por hora.

É uma tarde chuvosa de agosto, e o mar está verde e misterioso. Num dia como este, não é difícil imaginar por que marinheiros ergueram suas casas em Runmarö, em vez de em outra qualquer das centenas de ilhas da região.

Quando ela surge, rochosa, coroada de abetos e carvalhos, se mostra como uma versão do paraíso para um homem resoluto.

No final do século 19, o avô materno do poeta Tomas Tranströmer era um homem desse tipo. Capitão de navio, precisava de um lugar para fixar-se em terra e o encontrou em Runmarö. A pequena casa azul que ele ergueu na ilha ainda está de pé, e é nela que Tranströmer e Monica Bladh, sua mulher há quase 50 anos, passam seus verões.

Como um legítimo descendente de homens do mar, Tranströmer dá a devida importância aos visitantes que chegam das ondas, embora o AVC que o paralisou 25 anos atrás dificulte gestos que a expressem.

Paulo Pasta

Ao chegar, eu o encontro aguardando numa cadeira de rodas, na ponta de um caminho longo e estreito de cascalho, com um cobertor nos ombros, tendo Monica de pé às suas costas. Um rádio dos anos 1950 está sobre seu colo, oxigenando a floresta com uma sinfonia de Rachmaninoff.

Enquanto Monica suavemente empurra o marido rumo à casa, subindo uma rampa e entrando na sala, todos os símbolos da grande poesia de Tranströmer voam ao nosso redor. O chão em torno da casa é sulcado por raízes e musgo. O vento sussurra nas árvores. O ar cheira a sal marinho e a resina. Um falcão deve estar pairando ao alto, olhando para nós aqui embaixo.

Nas duas horas seguintes fica claro que a ilha lhe deu as notas com as quais criar uma partitura poética de beleza duradoura. E, assim, as perguntas sobre a poesia, sobre seu significado, sempre retornam à ilha, ao avô de Tranströmer, que muitas vezes ergue a mão para apontar objetos e pinturas espalhados pela sala, como se eles próprios fossem os poemas, não seus temas ou inspirações.

É assim que nos comunicamos. O derrame que Tranströmer sofreu em 1990 o deixou paralisado de um lado, roubando-lhe a maior parte da fala. Graças a isso, a sala à qual Monica nos conduz é pequena, mas está cheia.

Dois amigos –um cineasta americano e sua mulher sueca– dividem um estreito banco de piano.

Um fotógrafo, o assessor de imprensa e Monica se acomodam num semicírculo em volta de Tranströmer, como se ele fosse um pianista de concerto prestes a tocar, em vez de um poeta que se acomoda com relutância, mas gentileza, para dar uma entrevista.

Na realidade, porém, todos estão aqui para ajudar a interpretar as respostas de Tranströmer. Ele consegue dizer, com muita clareza, “sim”, “não”, e “muito bom”. São seus lemes verbais –outras palavras aparecem esporadicamente. Seu rosto, porém, diz muito mais.

Nos retratos, a marca de Tranströmer é, muito frequentemente, um olhar grave e penetrante; em carne e osso, contudo, seus olhos transmitem interesse e bondade, e ele chega a se mostrar brincalhão.

Eu faço perguntas, Monica as traduz ao sueco, e ele, então, responde; ela busca aprofundar a resposta, e assim avançamos pela tarde. Tranströmer guia as perguntas e extrapolações dela com o rosto, com suas poucas palavras e com o tom de voz. O tempo todo, eles se tocam e se olham. Observando-os, é difícil definir quem é o regente e quem é a sinfonia.

ÍNTIMO

Talvez seja mesmo conveniente conversar com um poeta que há tanto tempo é íntimo de um público vasto. Mesmo antes de receber o Nobel, em 2011, Tranströmer já tinha sido traduzido em quase 60 idiomas, sendo o segundo mais traduzido poeta do mundo, atrás apenas de Neruda –no Brasil, contudo, seus poemas serão lançados pela primeira vez no segundo semestre deste ano, pela Companhia das Letras.

Entre os admiradores de Tranströmer estão o irlandês Seamus Heaney (1939-2013, Nobel em 1995) e muitos dos maiores poetas americanos do pós-Guerra. E romenos, iugoslavos, japoneses. Paul Muldoon, poeta e editor de poesia da revista “The New Yorker”, conta que a fama de Tranströmer chegou até a Irlanda do Norte, onde ele passou sua infância e juventude, na pior fase do conflito. “O apelido que lhe demos, ‘Transformer’, indica o respeito profundo que sentíamos por suas realizações.”

O que ele realizou é ainda mais notável levando-se em conta sua produção relativamente modesta. Em 60 anos, publicou apenas 11 coletâneas, nenhuma das quais contém mais de 20 poemas.

Enquanto nos preparamos para a conversa, um volume de seus poemas reunidos fica ali, à mão, como diário de bordo dos lugares que ele percorreu com sua mente.

Pergunto se Tranströmer via na poesia uma maneira de se orientar no mundo. Ele responde “sim, sim”, e Monica extrapola: “Uma maneira de tentar abordar o enigma. Acho que essa é uma boa metáfora para descrever a poesia.”

Seu território não era vasto, mas era profundo. Durante anos passou muito mais tempo trabalhando como psicólogo, primeiro numa instituição correcional para rapazes e depois como terapeuta ocupacional para o governo sueco.

Seus poemas têm um poder psicológico profundo; são obras de um homem possuído. Muitos dos símbolos e presságios são recorrentes: as estações do ano e seu clima, estados oníricos e sósias, o arco do passado familiar.

Ler a poesia de Tranströmer é mergulhar em um espaço interior tenso, apresentado visualmente, repleto de signos e sinais, de intimações. Seus poemas podem usar imagens abstratas, mas os melhores são tão íntimos quanto um beijo no escuro. Ele alcança essa conexão através dos sentidos e do apagar gradual do “eu” que só busca seus próprios propósitos.

“Morgonfåglar” (Pássaros matinais), por exemplo, começa com a descrição do poeta entrando em seu carro, depois passa para uma descrição de pegas cantando alto e segue para este trecho surpreendente, que poderia servir de guia a boa parte de sua obra:

“Fantástico sentir como meu poema cresce/ enquanto eu mesmo encolho./ Ele cresce, toma meu lugar./ Ele me empurra para o lado. Ele me joga para fora do ninho./ O poema está pronto.”1

GUERRA

Tranströmer começou a escrever poesia seriamente logo após a Segunda Guerra Mundial e hoje, aos 83, vê o início de uma guerra perpétua no Oriente Médio.

Ao longo desse tempo, o desafio a que se propôs foi encontrar uma nova linguagem para a intimidade e o engajamento, como Seamus Heaney e Paul Muldoon fizeram em seu próprio ambiente politicamente carregado.

“Depois da guerra, muitos poetas suecos começaram a refletir sobre a neutralidade do país”, diz o estudioso literário Daniel Sandstrom, “publisher” do grupo de mídia Bonnier. “Foi um motivo de vergonha, e dessa vergonha nasceu o desejo de pensar de modo mais amplo e politizado.”

“Essa mudança afetou muito intelectuais e políticos. Mas com certeza afetou também os poetas, em especial os da geração de Tranströmer, a qual veria nas independências coloniais um processo moral importante. Poucos deles, porém, eram marxistas, e eram menos abertamente políticos que os da geração seguinte.”

Para essa geração seguinte, ou se era marxista ou reacionário. Tranströmer, porém, não era nenhum dos dois. Viajava e era engajado, mas não se interessava por usar a arte como arma política.

Havia ainda outra dicotomia a encarar. Tranströmer foi criado em um contexto religioso e, mesmo se estava longe de ser proselitista, num país cada vez mais secular, a religiosidade era um problema.

“Você estava livre disso tudo”, diz Monica a respeito da doutrina religiosa, arrancando do poeta uma piadinha facial irônica, como se ele dissesse “graças a Deus”.

Enquanto muitos de seus contemporâneos contemplavam falsas polaridades, Tranströmer retornou à ilha onde passou todos seus verões quando menino, convertendo os sons, as estações e os estados de ânimo desse lugar em sua mitologia particular.

Durante nossa conversa, Tranströmer aponta para um retrato de seu avô e para os registros de suas viagens náuticas. Seguindo a teia de sua escrita, ele parece dizer, é aqui que começa a viagem. Aqui.

NEXO

Seriam precisos 20 anos publicando para que ele estabelecesse esse nexo. No começo, seu maior desafio era encontrar a sintaxe para sua imaginação.

Como todos os poetas nascidos no entreguerras, Tranströmer teve no modernismo e no surrealismo marcos intelectuais. Mas foi uma experiência pessoal e íntima que o transformou mais drasticamente.

No verão entre seus 14 e 15 anos, Tranströmer sofreu o que descreveu em suas memórias como uma espécie de terror existencial. Suas pernas tremiam; ele se sentia dominado pelo medo. “Na época, eu via todas as formas de religião com ceticismo”, escreveu em suas memórias, publicadas em 1993, admitindo que, se isso tivesse lhe acontecido mais tarde na vida, provavelmente teria sido uma revelação.

Após a crise, ele começou a tocar piano com frequência, atividade que ainda mantém –ocasionalmente se apresenta sobre o palco, executando peças escritas para a mão esquerda. Hoje ele confirma a avaliação que fez do que aconteceu naquele período, dizendo que foi mais próximo de uma psicose que de um experimento religioso.

Monica amplia: “Acho que você disse que, se tivesse alcançado esse tipo de fé religiosa suave ou confiança na fé que você alcançou alguns anos mais tarde, poderia ter conseguido lidar com a crise de maneira totalmente diferente. De certo modo, você simplesmente desenvolveu uma fé própria ao longo da adolescência. É assim que você teria explicado?”

“Sim, é correto”, diz Tomas. “Mas…”

“Você criou para si mesmo uma certa imagem de Deus.”

“Sim…”

“…Mas que não tinha filiação ou relação específica com o que era ensinado nos estudos religiosos da escola. Um sentimento de confiança, viesse ele de onde viesse. Não é fácil falar desse tema.”

Tranströmer não sabe dizer se foi essa experiência que despertou seu interesse pela psicologia.

“Acho que ocorreu uma transição de uma consciência religiosa básica para a fé”, Monica explica. “E teve a ver com a música.”

Um fato interessante é que, de todos os poemas de Tranströmer, aquele que trata mais diretamente da fé também trata de música: “Schubertiana”. “Quanto devemos confiar”, escreve no poema, “para que possamos viver nossa rotina sem afundar no solo”.2

VIRTUOSE

Ao se aproximar dos 20 anos, Tranströmer começou a se afastar da música em direção à poesia, escrevendo tanto que –como qualquer virtuose– foi criando dificuldades para sua própria escrita. Começou a escrever em estrofes à moda de Horácio (nas métricas sáfica e alcaica), criando parte de “Höstlig Skärgård” (Arquipélago de outono) e ” Fem Strofer till Thoreau” (Cinco estrofes para Thoreau). Ambos saíram em seu primeiro volume, “17 Dikter” (17 poemas, de 1954).

Paulo Pasta

Tranströmer saca uma coletânea sua e começa a identificar as diferentes métricas em um e outro poema: “Ali, ali, ali”, ele diz. “Acho que o verso sáfico lhe conferiu uma espécie de liberdade”, opina Monica, e ele comenta: “Muito bom”, acrescentando: “Uma forma dentro da qual trabalhar”.

Não foi a única restrição que ele se impôs. Os poemas de seu livro de estreia esboçam uma espécie de ecossistema dentro do qual trabalharia intermitentemente por toda a vida e que, ao chegar a Runmarö, percebemos ser próprio da ilha.

Seu verde e seus marinheiros, as ondas espiraladas. O DNA sonoro da ilha impregna seus poemas iniciais. Ali estava um poeta “tateando em busca dos instrumentos da atenção”, para citar um poema dessa fase (“Han Som Vaknade av Sång Över Taken”, o homem que acordou ao som de canto sobre seu telhado).

A reação que esse fenômeno de 23 anos provocou no país foi instantânea. Como diz Sandstrom, “o sucesso de crítica foi imediato e duradouro. O início da década de 1950 foi visto como época áurea da poesia moderna: para ser ‘cool’ nessa época, não se fazia um som na garagem, e sim um sarau”.

Tranströmer acabaria por lançar mais três livros nessa fase inebriante; em cada um deles, aprofundava seus vínculos com a paisagem, ao passo que a economia das imagens se tornava mais estranha e enigmática. Enquanto a época áurea da poesia ficava para trás, Tranströmer foi se interiorizando mais e mais, tornando-se, como diz Sandstrom, “quase seu gênero próprio”.

CARTAS

Por volta dessa época, teve início sua correspondência com o poeta, tradutor e editor literário americano Robert Bly. Esse homem de personalidade exuberante tinha lançado nos Estados Unidos uma revista literária que, a cada década, era rebatizada.

Em 1964 era chamada “The Sixties” e, em março desse ano, Tranströmer, então com 32 anos, escreveu ao editor –que estava em Madison, Minnesota–, perguntando como obter um exemplar da publicação. Bly respondeu de imediato, observando que nesse mesmo dia ele tinha atravessado metade do Estado para ler, em sueco, “Den Halvfärdiga Himlen” (“Céu Semi-Acabado”), que Tranströmer lançara em 1962.

Nos 25 anos seguintes, os dois poetas trocaram centenas de cartas, matando sua sede recíproca por fofocas literárias internacionais. A história dessa amizade é revelada em “Air Mail”, um livro tão estimado por Tranströmer que, ao ver que eu havia levado uma cópia, ele a toma e parece pouco inclinado a devolvê-la.

Ler o volume é entender por que ele pode querer tê-lo por perto. Suas páginas captam uma amizade que voa nos ventos cruzados da literatura e que mudou a trajetória de vida dos dois homens.

Tranströmer e Bly se traduzem mutuamente e discutem política. Os poemas de Bly sobre a Guerra do Vietnã não encontram quem os publique. Enquanto isso, Tranströmer é criticado pelos marxistas por ser arredio: “De um modo geral, na Suécia”, ele diz a Bly depois de resumir algumas críticas enviesadas, “os jovens marxistas têm muito pouca tolerância para a poesia” (pág. 64 das cartas de Tranströmer a Bly, versão inglesa, 29 de outubro de 1966).

“Tomas escrevia uma quantidade enorme de cartas, não apenas a Bly mas também a muitos outros, e realmente se soltava nelas”, diz Monica. “Nelas ele é prolixo, divertido, às vezes intransigente. Então acho que, embora Tomas possuísse todas essas qualidades, ele nunca sentiu a necessidade de expressá-las em sua poesia.”

Mesmo assim, foi no ano de correspondência mais intensa com Bly, 1970, que Tranströmer experimentou seu primeiro grande avanço como poeta. “Estou me debatendo com um poema muito longo (sobre o Báltico –de todos os pontos de vista)”, ele escreveu a Bly em agosto daquele ano.

“Começou quando encontrei os almanaques de meu avô da década de 1880”, ele acrescentou no mês de maio seguinte, “nos quais ele tinha anotado os navios que pilotava… Descobri que uma parte tão grande de minha vida tem alguma ligação com o Báltico, então comecei a fazer um esboço confuso de muitas coisas”(pág. 193).

Tranströmer estava sendo modesto. “Östersjöar” (O Báltico, de 1974) está longe de ser confuso –move-se como uma música, relatando primeiro a história de seu avô e depois a de sua avó. Ondas de imagens desabam pelas estrofes, convertendo as preocupações dos marinheiros com os fatores da natureza em preocupações cosmológicas.

Tomas e Monica discutem um pouquinho sobre se Bly o incentivou a escrever poemas em prosa ou se ele os teria explorado de qualquer modo. “Mas Bly não gostou de ‘Östersjöar’.” Monica pondera: “Não, ele não gostou muito. Assim, eu diria que você era totalmente independente de Robert”.

Até hoje, foi nesse longo poema que Tranströmer se inseriu em sua obra de maneira mais direta. Ele é o navegador que nos conduz pela história familiar, é o espectador, é aquele que define o que significa ser de algum lugar, mas saber com certeza que vamos desaparecer.

ENIGMA

O pesquisador literário Torbjörn Schmidt organizou a edição sueca de “Air Mail”. “Eu diria que o enigma de Tranströmer é espiritual”, ele escreve em um e-mail. Mas acrescenta: “O próprio Tranströmer sempre se negou a ser descrito como ‘místico’. Por outro lado, ele ressaltou que sua experiência de vida é enigmática num sentido profundo: existem dimensões da vida que não podem ser captadas por uma mente puramente racional”.

Em nenhum lugar da obra de Tranströmer essa dualidade se torna tão pessoal quanto em “Östersjöar”, que é uma espécie de genealogia espiritual e sensual musicada. Quando se aproxima de completar o poema, as cartas a Bly ganham lirismo crescente. Em certas ocasiões, soa quase como Blake. “Às vezes tenho a sensação de ter um dever a cumprir em nome de alguma Consciência oculta. Por que preciso viver esta confusão constante, enxergar e ouvir todas estas coisas, o que significa? Eu às vezes encontro conforto no sentimento de que Alguém, ou Algo, quer que eu faça isso.”

Quando pergunto se essa postura espiritual guarda semelhanças com o budismo, Monica recorda que essa pergunta já foi feita antes a Tranströmer, que acena com a cabeça para indicar sua concordância com a resposta dela.

“Você disse que nunca tinha estudado o budismo realmente. Então aquela outra pessoa respondeu que, se era esse o caso, você era uma espécie de budista intuitivo. Mas não profissional.”

Essa ideia de dever numinoso dota de humildade a obra de Tranströmer. Ele não encontrará as respostas e não precisará passar tempo demais nas trevas.

“Há tantas coisas maravilhosas em Tomas”, diz o poeta norueguês Jan Erik Vold, que o conhece e o traduziu por quatro décadas, “mas uma delas é que ele sabe onde guardar as trevas.”

Sua capacidade de refletir sobre o infinito, ao mesmo tempo em que mantém as trevas à distância, lhe valeu enorme popularidade em todo o mundo. A partir dos anos 1960 e, com mais intensidade, na década seguinte, sua obra começou a ganhar traduções, em especial para o inglês.

Nessa década, ele conheceu Allen Ginsberg na Cidade do México e W.S. Merwin na Suécia. Foi também nesse período movimentado de viagens e primeiras publicações que o poeta sírio Adonis se deparou com a obra de Tranströmer. Ambos receberam um prêmio da Universidade de Pittsburgh.

Anos depois, Adonis ajudaria a traduzir e publicar as obras reunidas do amigo em árabe, levando Tomas e Monica ao Líbano e à Síria para uma turnê de leituras, experiência que o escritor sírio descreveria em um e-mail, décadas mais tarde, como “um poema de essência humana suprema, uma extensão da poesia dele”.

Adonis fez uma leitura mais cuidadosa que muitos da poesia de Tranströmer e o considera um místico, só que não no sentido convencional do termo. “Quando falo em misticismo na poesia de Tranströmer” –diz por e-mail, de Paris– “me refiro a uma visão que não divide a existência em duas categorias, a ‘física’ e a ‘espiritual’, mas que vê a existência como sendo una e indivisível”.

DERRAME

É difícil saber se essa maneira de abordar a vida foi o que deu a Tranströmer mais capacidade de sobrevivência, após seu derrame. Desde então ele publicou apenas dois livros: a curta autobiografia “Minnena Ser Mig” (As memórias me contemplam), cuja maior parte já havia sido escrita antes do AVC, e um livro breve de haicais, “Sorgegondolen” (Gôndola triste, de 1996).

O fato de ele ter começado a escrever ainda mais haicais depois de sofrer o derrame, diz Monica, foi “uma solução técnica e prática”. “E que lhe pareceu natural.”

Tomas concorda, enquanto Monica prossegue: “Na realidade, acho que essas formas fixas podem conferir um senso de liberdade. Trabalhar dentro de suas restrições pode funcionar como uma espécie de jogo”.

Quando chegamos à questão sobre o conteúdo dos cadernos de Tranströmer, se ainda podemos esperar algo novo vindo deles, uma sombra atravessa o rosto de Monica, e o círculo na sala se fecha.”Acho que você pode deixar essa pergunta de fora, Tomas”, diz ela.

Existe uma certa quantidade de cartas, e há “um volume pequeno programado, sabemos disso”, diz Monica. Nesse ponto, fazemos uma pausa na entrevista, e ela gentilmente nos conduz à pequena cozinha, onde nos aguardam pratos de frango com arroz, pão preto e canecas de cerveja.

Uma hora mais tarde, depois do o almoço e de uma visita a alguns vizinhos, retornamos à casa azul para o adeus final. Tiramos fotos; reservamos o ferryboat.

Encontro Tranströmer sentado no quintal sob um raio solitário de sol, novamente com seu rádio, Monica sentada com a mão sobre o joelho dele. Agora a rádio sueca está tocando “Canção para a Lua”, de “Rusalka”, de Dvorák, uma das óperas mais belas já compostas.

E é assim que o universo lança uma de suas pistas inesperadas sobre nós.

Tranströmer foi um grande poeta porque encontrou uma forma de refletir sobre o infinito e se recusou a desviar o olhar. Mas uma das razões pelas quais pôde fazê-lo com tanta beleza reside no fato de que (como qualquer artista que canta melhor em dueto) ele não o fez –não o faz– sozinho.

Notas:

1. As citações, salvo indicação contrária, são traduções livres a partir do inglês

2. Tradução de Enaiê Azambuja, que responde pela antologia a sair no Brasil neste ano.

JOHN FREEMAN, 40, jornalista e poeta, ex-editor da revista “Granta”, organizou o livro “Tales of Two Cities: The Best of Times and Worst of Times in Today’s New York” (OR Books).

CLARA ALLAIN é tradutora.

PAULO PASTA, 56, é artista plástico.

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