Encontro com um editor de direita

Cena de Frankenstein, de James Whale (1931)

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

O editor de direita me surpreende. Menos pelo que ele tem de direita do que pela peculiaridade de raciocínio. Ser de direita é um direito, como também o é ser de esquerda, preferir música sertaneja ao samba, detestar teatro ou ópera, gostar de tomar sorvete ou acreditar em Deus. Já a burrice é uma condição que ninguém escolhe e que pode acompanhar ou não todas as escolhas anteriores. Ninguém diz: “Neste ponto, tendo para a burrice”. Ninguém diz, embora devesse. Mas aí não seria mais burrice; seria inteligência. E nos pouparia do desgaste das discussões inúteis.

Encontro o editor de direita num café. No início, o burro sou eu. Devia ter olhado o catálogo da editora antes de aceitar tomar um café com o editor. Devia ter desconfiado. Menos pela tendência neocon do catálogo do que pela discrepância e pela excepcionalidade de umas poucas escolhas – na verdade, as melhores.

Só depois de ouvir o editor é que começo a suspeitar que a obra de um escritor genial tenha sido incluída no catálogo da editora pelos piores motivos – os mesmos que poderiam levar um leitor/editor de esquerda a rejeitar o mesmo autor, por preconceito, e que fazem com que esse autor genial tenha acabado ali e não em outro lugar. Pelo que ouço do editor de direita, só me resta pensar que o escritor genial entrou no catálogo da editora menos pela genialidade da obra do que pela reputação de reacionário – o que, radicalizando a mesma lógica, equivaleria a privilegiar o antissemitismo de Céline, em detrimento da sua excepcionalidade literária, como razão para publicá-lo.

Se é que há uma coerência entre a escolha do autor genial e o discurso do editor, o equívoco terá sido ainda maior, já que, examinado de perto, o autor genial nada tem de conservador. Defensor combativo da liberdade de pensamento, foi um espírito de contradição ambulante, avesso às autoridades hierárquicas e às academias, católico anticlerical, monarquista de esquerda, inimigo dos fascismos mas também do capitalismo americano, homem de excessos capaz de se expor, em busca da verdade e da integridade, com uma inteligência, uma sensibilidade e uma coragem raramente vistas.

Estamos no café, com um jornalista francês cujas simpatias políticas tendem para a direita republicana em seu país, mas que, ao contrário do editor de direita brasileiro, cultiva o bom senso e o gosto pelo diálogo inteligente. Estamos falando de árabes e judeus, quando o editor intercede a favor do clichê: “Aqui no Brasil, eles não brigam entre si. Entendem-se muito bem e até trabalham juntos”, ele diz. “Só porque não há motivo de disputa, como na Palestina”, eu respondo. “Bastaria haver um objeto comum de disputa para que se odiassem também aqui”, eu digo. E aproveito para expressar o meu horror pelo governo Netanyahu. O editor volta à carga com nova munição: “É igual ao nosso”. Nosso o quê? “Esse governo que está aí”, diz o editor de direita, com o rosto convulsionado. Demoro a entender. O governo brasileiro é igual ao de Netanyahu? Ocupamos o Paraguai? Estamos construindo assentamentos na Bolívia?, pergunto. “Ela é uma terrorista!”, responde o editor de direita, inflamado. Busco a cumplicidade do olhar do jornalista francês, que a esta altura já desviou os olhos e finge que não está acompanhando.

O editor prossegue: “É essa gente da USP que apoia os terroristas islâmicos!”. Como? “Isso mesmo. É o pessoal de esquerda que apoia os islamistas, esses esquerdistas da USP, que fazem os palestinos de vítima.”

Minha cabeça começa a dar voltas para acompanhar o raciocínio do editor de direita que compara Netanyahu a Dilma e associa a USP ao fundamentalismo islâmico. “A luta pela libertação da Palestina teve origem laica. Foi Israel que fomentou o Hamas contra a OLP”, tento argumentar com um pouco de história. “Foucault era amigo do Khomeini. Todo mundo sabe!”, rebate o editor de direita.

Foucault amigo do Khomeini? Continuo tentando argumentar: “Foucault cometeu o erro de tomar o partido da revolução islâmica, no início, contra o governo do Xá (o que não o impediu de continuar defendendo o direito à existência do Estado de Israel). Foi um erro, como todo mundo pode cometer. Mas ele não era amigo do Khomeini”, digo. “Não, não! Eram amigos, sim senhor!” E aí eu perco a cabeça: ”Que merda de má-fé é essa? Que porra de ignorância é essa?”. E me vejo reproduzindo tudo o que mais condeno, a histeria de uma ira inócua. Digo barbaridades. Perco a razão.

Acho que era Kant quem dizia que ninguém pensa sozinho. E o que acontece quando a burrice passa a imperar? Alguém dirá que a burrice sempre imperou. Prefiro achar que nem sempre. Até muito recentemente, muito da nossa burrice coletiva se mantinha circunscrita ao isolamento da esfera privada. Ou pelo menos ainda não tinha encontrado os canais públicos para alardear sua hegemonia.

Os projetos de esquerda faliram, o mundo está mais conservador e mais chato, mas o problema não é a direita ou a esquerda (e isso fica claro na minha conversa com o jornalista francês – e na minha simpatia por ele). O problema é a má-fé, a desonestidade intelectual e política, a virulência dos preconceitos contra (e no lugar de) um ideal desgastado de solidariedade. A burrice orgulhosa e individualista, que finalmente encontrou um canal de expressão e reprodução coletiva, de massa, nas novas tecnologias.

A expressão da burrice, essa cacofonia sem esforços, está enfim liberada para todos. Reproduzida e amplificada, ela opera num ritmo veloz de virulência, que desautoriza o tempo reflexivo e reduz as chances de sermos inteligentes juntos. Ela intoxica o diálogo, elimina sutilezas e contradições em nome de uma pasteurização grosseira, sustentada pelo oportunismo retórico de clichês, frases de efeito, sofismas e imposturas. É a naturalidade do senso comum contra o esforço do pensamento crítico. O encontro com o editor de direita não revela apenas que retrocedemos no nível das ideias (afinal de contas, trata-se de um editor), mas que agora, se quisermos continuar conversando, teremos que retroceder ainda mais, para explicar tudo de novo, uns aos outros, do zero.

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