Ensaio aberto à alegria


A memória poética e sentimental da cidade há que ser respeitada. É carnaval e os espíritos de Severino Galvão e Paulo Maux mobilizam outros antigos carnavalescos para iniciarem os “assaltos” às casas alheias – retratos de um passado já distante. A Banda Independente da Ribeira reluta em resgatar a liberdade e inocência do carnaval de rua há 12 anos. Hoje haverá nova tentativa. E sem a desesperança da luta perdida. A alegria emana de cada acorde entoado pelos 35 músicos da orquestra de frevo comandada pelo maestro Neemias Lopes.

A partir das 19h, o Bar das Bandeiras, na Rua Chile ouve o som das marchinhas, frevos-canções e troças carnavalescas. Muitas das composições integram o acervo de relíquias poéticas de Natal. Babal, Mirabô, Gaudêncio Torquato, Ciro Pedroza e o mestre Dosinho são alguns nomes transportados para os instrumentos. A Praieira – hino sentimental da cidade escrita pelo poeta Othoniel Menezes – é uma delas. A tentativa é criar ou recriar uma identificação cultural de Natal com o carnaval sem perder a tradição centenária do frevo pernambucano com reinado de Momo.

O ensaio de hoje é segundo. Nas próximas duas quintas-feiras a farra continua no mesmo horário. No dia 5 de fevereiro, o bloco sairá do Beco da Lama (Cidade Alta) em desfile rumo ao Largo da Rua Chile, na Ribeira. E quem manda é a tradição do bloco pioneiro na tentativa de revitalização do carnaval de rua no Centro Histórico a partir da identificação musical e dos tipos folclóricos, além da vontade de rever amigos e celebrar a vida. Reza a lenda que após o terceiro trago, se ouvem cantos de sereias e juras de marinheiros apaixonados nesta margem Ribeirinha do Potengi.

A banda, na verdade, tem nome mais pomposo: Grêmio Recreativo Litero-Etílico Cultural e Esportivo Banda Independente da Ribeira. A ideia foi do hoteleiro Leonardo Godoy, então dono da Pousada do Gostoso, em São Miguel do Gostoso. Corria o ano de 1999. Os dois maiores sítios históricos de Natal – Cidade Alta e Ribeira – careciam de revitalização material e imaterial. E o Pierrot já chorava suas saudades dos bons carnavais de rua na cidade há muito mais tempo. Leonardo teve, então, a ideia de contribuir com a revitalização por meio das prévias carnavalescas.

As tais prévias se multiplicaram. Natal assiste hoje mais de 50, segundo dados da Capitania das Artes, espalhadas pelas quatro zonas regionais da cidade. Novas agremiações se somaram à Banda da Ribeira na realização das prévias no próprio bairro da Ribeira. Segundo o produtor executivo da Banda, Júlio César Pimenta, o mercado musical no período também cresceu bastante. Os ensaios abertos da Banda da Ribeira servem como preparação para o carnaval e outras prévias as quais são convidados para tocar. A orquestra da Redinha recebe boa parte dos músicos.

Milhares de pessoas seguem a Banda a cada ano. E com um colorido diferente. Todos os anos são chamados um artista plástico diferente para produzir a arte da camiseta. Este ano é Fernando Gurgel – um dos mais conceituados nas artes plásticas potiguares, já com 30 anos de exposições. A camiseta será lançada hoje. E a Banda da Ribeira mantém a tradição. Onze artistas já participaram do projeto: Fernando Yamamoto, Flávio Freitas, Pedro Pereira, Rafael de Morais, Fábio Eduardo, Dorian Gray Caldas, Marcelus Bob, Franklin Serrão, Afonso Martins e Ângela Almeida.

Independente da camiseta e das lutas inglórias, a Banda segue dependente da Ribeira e do propósito único do resgate da alegria antiga para as gerações do futuro.

Ensaio da Banda da Ribeira
Quem: Orquestra do maestro Neemias Lopes
Onde: Bar da Bandeira, na Rua Chile (Ribeira)
Data e hora: Hoje, às 19h
Acesso livre

* Matéria publicada hoje no Diário de Natal

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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