Ensaio sobre “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles

O romance “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, tem como panorama histórico o final dos anos 1960, marcado por grandes agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos. Numa época marcada pelo signo do silêncio, pela supressão da liberdade de escolhas, a autora através da literatura, transcende o estado de submissão e silêncio histórico. No entanto, apesar de ter esse tempo histórico, o que funciona como instrumento de contestação, o romance não é panfletário.

As personagens vivem sob a tortura tanto ideológica quanto o drama existencialista, daí a expressão usada por Cristovão Tezza: “sob à sombra de Marx e Sartre”, no posfácio “As meninas: os impasses da memória”, que ele escreve no romance.

O livro narra a história de três universitárias – Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de Melo Schultz – que pertencem a classes sociais diferentes e que vão morar num pensionato em São Paulo com objetivo de cursar a faculdade.  Apesar das diferenças de valores e personalidades elas criam entre si um elo forte de amizade. Durante o tempo que convivem nesse espaço compartilham seus dramas nos momentos mais difíceis.

Lorena de Vaz Leme é rica, intelectual, contemplativa, com sua memória sinestésica, seus devaneios poéticos, adora as artes e é a mais estável e ajuda economicamente as outras duas colegas e dar apoio psicológico no refúgio do seu quarto dourado e rosa – a concha que a protege do mundo lá fora – vive um amor platônico com um médico misterioso conhecido como M.N.  Seus dramas interiores giram em torno desse amor, das lembranças da morte do irmão Rômulo e sua relação conflituosa com a mãe. Já Lia de Melo Schultz – a Lião – filha de uma baiana com um alemão, militante da esquerda, namora um preso político e luta contra o sistema opressor.

A outra é Ana Clara, ou Ana Turva como é apelidada. Viciada em drogas, namora um traficante de drogas. É dotada de beleza. Das três é a mais realizada no amor, porém a mais instável emocionalmente: atormentada por uma infância marcada pela pobreza e pela prostituição. Para ela, a solução é através da ascensão social, casando como um homem rico que realize seus sonhos de consumo.

Romance ganhou o Prêmio Jabuti em 1974.

Fusão do ponto de vista das personagens e do narrador

Instigante e renovador é a forma como o leitor conhece o drama dessas três personagens, uma vez que não tem a figura clássica do narrador do enredo linear e do tempo cronológico com começo, meio e fim. O foco narrativo é cambiante: essas três personagens contam a própria história através do monólogo interior que se desloca para o fluxo da consciência, misturando seus pensamentos, ações, lembranças e críticas recíprocas. Dessa forma, elas apresentam a si mesmas e umas às outras, num exercício de autoconhecimento. Portanto, a princípio, o leitor se vê diante de um labirinto.  Nada é organizado… Em suas falas (porque elas “pensam em voz alta”) o passado é presentificado. Há uma constante fusão dos pontos de vista das personagens e do narrador, com efeitos de mudança de foco. Só com o decorrer da leitura que é que o leitor vai aos poucos identificando o estilo de cada personagem e vai desvendando o universo interior delas.

Pode-se comparar a figura do leitor ao papel de um psicanalista que na escuta (leitura) vai buscando construir essas figuras, que se constitui numa tarefa nada fácil, porque nesse entremeado de falas, de visões fragmentadas representadas por cacos de observação, lapsos de lembranças, memórias sinestésicas – um cheiro sempre traz algo do passado – as personagens mergulham em devaneios -. Há momentos em que cada uma “fala de si”, mas há momentos em que uma fala da outra. E isto gera dúvidas porque tudo é movediço, escorregadio… Até que ponto a percepção que elas têm de si e uma das outras correspondem à “realidade”?pois, como já foi colocado, tudo é fragmentado, há mesmo uma sensação de desrealização. Como por exemplo, o que há de verdade na voz delirante de Ana Clara – turva -, o que há de verdade na fala da contemplativa Lorena quando ela se refere à morte do seu irmão? São, enfim, jovens cheias de conflitos, na busca de compreender a si, ao outro e ao mundo que as cerca.

Portanto, o leitor na busca da composição dessas personagens, não consegue compor um retrato nítido, mas sim desfocado e borrado.

Personagens sob tortura

Tal configuração das personagens, como já foi colocado, remete-nos ao ensaio “Reflexões sobre o romance moderno”, de Anatol Rosenfeld, que, segundo ele, a quebra do espaço, da eliminação ou da decomposição do indivíduo na pintura é análoga ao que vem acontecendo no romance moderno, uma vez que há uma fragmentação ou decomposição do ser humano. Quanto ao tempo, há uma quebra da linearidade, ou seja, não segue a ordem dos relógios e sim da vida psíquica:

 (…) Talvez fora básica uma nova experiência da personalidade humana, da precariedade da sua situação num mundo caótico, em rápida transformação, abalado por cataclismos guerreiros, imensos movimentos coletivos, espantosos progressos técnicos que desencadeados pela ação do homem, passam a ameaçar e dominar o homem (ROSENFELD, 1996, p. 86).

Assim, fundamentados em Rosenfeld, podemos afirmar que o monólogo das personagens de “As meninas” é um traço de modernidade do romance, além de encontrarmos a representação do ser humano fragmentado, e tempo e espaços relativos.

Isso podemos perceber pela própria condição humana, pela travessia existencial dessas três personagens jovens que, pouco conhecem a si mesmas, sim, porque elas vão se construindo,  daí esse fluxo ininterrupto, tal como as águas lodosas de um rio, elas estão mergulhadas em si mesmas, no entrecruzamento de tempo: o passado sempre presente que deixa entrever os problemas existenciais  das personagens. Nesse mergulho em suas existências, elas vão se construindo, se autoconhecendo.  E nessa vivência de cada uma, elas vão se compondo, decompondo, compondo, mas de uma forma tensa, paradoxal, dialética, como a própria existência humana. São personagens que estão sob o signo tortura: marcadas por um momento histórico opressor e por forças do passado e das circunstâncias traumáticas do passado.

 “a dama da literatura brasileira” e “a maior escritora brasileira viva” Lygia é considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do Século XX e da história da literatura brasileira.

A renuncia da má fé

Portanto, esse drama vivenciado pelas personagens reflete tanto no conteúdo como na forma que é construído, daí as reflexões em torno dos estudos teóricos de Anatol Rosenfeld que mostram essa despersonalização como reflexo de um mundo fragmentado, caótico. Tal situação nos leva a refletir também sobre os fundamentos da filosofia existencialista de Sartre que considera cada ser humano único e senhor absoluto do seu destino e de suas atitudes.

O existencialismo salienta a subjetividade, a responsabilidade e a liberdade individual do homem que este só pode esquecer por má-fé. Segundo o filósofo, o homem pode usar a má-fé como um mecanismo pelo qual o homem procura se defender da angústia que a consciência da liberdade provoca. Para eles a interferência de fatores externos como Deus, o destino, os astros ou a sorte são formas do homem explicar o seu fracasso.

Assim, para o homem assumir sua completa consciência e a autêntica responsabilidade por suas escolhas, é indispensável, portanto, renunciar sua má-fé. Mas diante desse pensamento, ficamos em um impasse, pois como já foi colocado, as personagens vivem numa época marcada pela ditadura militar, pela supressão da liberdade, além dos fantasmas do passado que as rondam… Até que ponto elas podem romper com essa realidade opressora e tornarem-se sujeitos livres, donos da sua própria história, arquitetas dos seus destinos?

No fragmento abaixo, Lia aconselha a Lorena a fazer suas escolhas, não se deixar levar pela chantagem emocional da mãe, abandonar o amor platônico de M.N.

 (…) – Você tem que viver sua vida ao seu modo e não do que os outros decidirem. Ô Lena, Lena, não sei explicar, mas aquela história do Tempo devorando os filhos, não o deus Cronos? Ele mesmo ia parindo e ele mesmo ia devorando tudo. Mas de verdade não é o Tempo que engole a gente, é um tipo de mãe como a sua. Um pouco como a minha (…) (TELLES, p 2009. 254).

Em outro momento, ela filosofa sobre o Tempo:

(…) Lembro da ampulheta quebrada (…) e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e será se despedaçaram? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em transito sem se comprometer com os extremos. Livre.  Sou (…) (TELLES, 1996, p. 258).

Âncoras existenciais

Essa situação é paradoxal, uma vez que instiga o ser humano a ser senhor do seu destino. Mas até que ponto somos realmente livres e até que ponto somos capazes de assumir nosso destino?  Aqui temos três jovens, cada uma com uma forma subjetiva de olhar o mundo, de enfrentar os desafios, as barreiras. Lia tem uma consciência política, uma visão racional… Lorena é mais contemplativa, pensa muito e age pouco e Ana Clara totalmente refém do seu passado.

Assim, partidos, religião, consumismo são âncoras existenciais que amparam o ser humano em mundo movediço, liquido… O espaço de Lorena, que metaforicamente é chamado de concha – território onde sente paz, segurança…  é também o espaço onde as outras duas amigas buscam refúgio. Através do laço de amizade que as unem, elas buscam equilíbrio, preenchimento dos seus vazios, das suas faltas.

 Lia de Melo Schultz, longe dos pais, encontra sentido para sua vida no movimento político de esquerda, na sua luta de resistência contra o “aparelho”.

Ana Clara procura livrar-se do desamparo através da ascensão social. Ela acredita que através do consumismo poderá preencher seus vazios. É a personagem que se revela mais fraca e menos livre.

Assim, essas três personagens expressam suas individualidades, seus dramas, traumas do passado e uma luta atormentada de vencer as imposições ideológicas de uma burguesia hipócrita e alienante.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Edilberto Cleutom dos Santos 26 de janeiro de 2021 16:02

    Excelente artigo. Parabéns.

  2. Marta Cortezão 26 de janeiro de 2021 14:05

    Interessante ensaio. Parabéns!

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