Ensaios não existem

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Esbarro, distraidamente, em versos da poeta polonesa Wislawa Szymborska, traduzidos por Regina Przybycien para a Companhia das Letras. Estão em Poemas, livro recém chegado às livrarias. Versos que _ eis o que me assombra _ parecem a mim destinados. Como se eu os recebesse em uma carta lacrada de que fosse o único destinatário. E eles contivessem um segredo que não diz respeito a mais ninguém, a não ser a mim mesmo. Como se a octagenária Wislawa me conhecesse, não de outras décadas, mas de outros instantes. Fosse bem mais que minha amiga íntima: pudesse ler minha alma.

Os versos, que me assaltaram em uma tarde cinzenta e desanimada, são assim: “A vida na hora./ Cena sem ensaio./ Corpo sem medida./ Cabeça sem reflexão.” E, saltando uma linha, o poema _ batizado “A vida na hora” _ prossegue: “Não sei o papel que desempenho./ Só sei que é meu, impermutável”. Não serei, por certo, o único a vestir esses versos com o sentimento de um corte impecável. Versos “sob medida”, como paletós cortados por um rigoroso alfaiate.

De que falam esses versos? Do insubstituível. De algo que tenho, e que não é grande coisa, é absolutamente comum e, no entanto, me distingue. Aquilo que você tem, você que me lê, algo a que nunca deu importância e, contudo _ aguente isso firme! _, é a sua marca. Estamos todos, como diz Wislawa, “despreparados para a honra de viver”.

Consideramos, em geral, que a vida é incômoda, ou difícil, ou mesmo indesejável _ e sonhamos como outras vidas, inexistentes. Não percebemos a grandeza de ser quem somos. Nennhum gênio, ninguém especial, nenhuma glória, ou fortuna: só (mas será “só”?) uma pessoa comum. Só o que cada um é capaz de ser. O que cada um, apesar de si, continua a ser. Ou, porque tudo flui no grande rio do Um, a “re-ser”.

Nessa direção aponta a poesia: o particular. Uma pinta discreta sob os olhos, sombrancelhas mais caídas, algumas rugas em um lugar inesperado, um gesto inconfundível embora banal, a marca que algum sentimento deixou, quase invisível, no olhar. A poesia fala do Um. Impiedosa, Wislawa fala de si mesma: “Meu jeito de ser cheira a província./ Meus instintos são amadorismo.” Fala de si, ou da poeta que inventou para, enfim, escrever versos? Esta “voz lírica” é Wislawa, ou sua máscara? Pouco importa. Importa que se trata de um semblante inconfundível. Você lê três ou quatro palavras e já sabe: é Wislawa quem escreve.

Disso fala, sempre, a literatura: trabalhamos com materiais cuja procedência desconhecemos. Defrontamo-nos com eles, sem ensaios, sem estudos, sem antecipação. “Se eu pudesse apenas praticar uma quarta-feira antes”, a poeta se lamenta. “Ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!” Mas não: a vida não suporta a repetição, ou o enquadramento. Na vida é assim: 1 + 1 = 1. A vida desmente a aritmética e suas operações. Você está condenado ao único. Eu também. Todos estamos. Ninguém se livra de si mesmo e isso, a poeta assinala, é viver. É também escrever.

Adverte ainda: “É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida feita em acomodações provisórias”. Claro: tudo é transitório. Mas, no vão de cada momento, só cabe isso mesmo, o momento. Em cada homem, ou mulher, só cabe um homem, ou uma mulher. Tarefa do poeta: suportar quem é. Destino do poeta: fazer deste “quem é” a sua escrita. Como isso exige coragem! Dentre todos os números, Wislawa nos mostra, o 1 é o número mais perigoso.

Termina Wislawa: “E o que quer que eu faça, vai se transformar para sempre naquilo que fiz”. Eu sou o que sou, você é o que é, e é nisso que reside a única grandeza. Pequena e ridícula grandeza, de ser tão pouco. De ser _ e isso deveria bastar. Sem ensaios, sem repetições, sem preparações, sem métodos. Sem prescrições de especialistas, ou roteiros de segurança. Os poetas conhecem esse segredo que conduz ao que chamamos de destino. O destino? Ele vem inscrito no corpo. Nós o carregamos a cada suspiro, a cada tropeço, a cada falha, a cada alegria, ou desesperança. Na noite escura, ou no dia fervente. Ele é nosso palco.

Alerta a poeta: estamos sempre no momento da estréia. Passa um segundo, e estamos a começar mais uma vez. Estamos a estrear. O presente é esta estréia que não termina. Esse 1 + 1 que resulta sempre em outro 1, e outro 1, e mais outro. A vida é esta sucessão de mortes e renascimentos. Este 1 que se repete e, no entanto, é sempre outro. Essa marca que, a cada passo, se transforma em outra marca, e mais outra, e ainda outra _ e elas jamais se somam! Isso é a poesia.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Jóis Alberto 16 de Outubro de 2011 13:18

    Mais uma poetisa européia pra gente ler; um poeta europeu ou norte-americano a mais, que José Castello e outros críticos literários da chamada grande imprensa nos apresentam, como se fossem o melhor da poesia contemporânea… Enquanto isso, quantos bons poetas do RN e de outros Estados brasileiros sequer mereceram notinhas em jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo? Se contam nos dedos os poetas e poetisas potiguares que conseguiram algum reconhecimento da crítica literária carioca ou paulista – seja participando de antologias, como Zila Mamede, na antologia que foi organizada por Ítalo Moriconi; Franklin Jorge; J. Medeiros; Nei Leandro de Castro, Marize Castro e mais um ou outra, certo? E isso acontece também com a imensa maioria dos autores de outros Estados nordestinos; do Norte; do Centro-Oeste e até mesmo do Sul – talvez um pouco menos no caso dos gaúchos; e do próprio Sudeste – Minas Gerais não conta, porque esse Estado é hors concurs em fornecer bons poetas e escritores pro Rio de Janeiro e São Paulo – são dezenas e, como se sabe, não apenas Carlos Drummond de Andrade, o mais conhecido; mas quantos conhecemos do Espírito Santo, por exemplo, além dos cronistas Rubem Braga e Carlinhos de Oliveira? É bem verdade que, no caso do nosso Estado, parte dessa situação se deve à dificuldade do livro de autor potiguar circular no Rio, São Paulo e outros Estados mais distantes, e até mesmo em Estados vizinhos. Mas, sem dúvidas, a situação é decorrente também da mania de muitos jornalistas, críticos literários e ensaístas cariocas e paulistas de valorizarem primeiro o que vem da Europa e EUA. Antes, durante décadas, a moda literária vinha com a valorização do idioma francês e da cultura da França – ainda que desse país, inúmeras vezes merecidamente. Depois, com o declínio da influência francesa sobre a nossa cultura, cresceu a influência de países de língua inglesa, como EUA e a própria Inglaterra… Nos últimos anos, com a globalização, a moda agora é valorizar livros e filmes de outros países, muitos dos quais a imensa maioria dos brasileiros jamais vai conhecer sequer as noções básicas de idiomas, como o iraniano, o polonês… Não é xenofobia não, nem também pela dificuldade em pronunciar em bom polonês ‘Wilslawa Szymborska’, mas dificilmente vou me interessar em ler algum poema dessa poetisa polonesa. Acho muito mais interessante continuar valorizando a arte e cultura local – sem qualquer bairrismo, provincianismo, etc -; a cultura brasileira; e, na sequência de importância, a cultura latino-americana; e os bons clássicos de línguas francesa, inglesa e, eventualmente escritores e artistas de outras nações, quando se tratar de inegável talento, e não por mero modismo ou exotismo literário!…

  2. Edjane Linhares 17 de Outubro de 2011 9:54

    Ela é maravilhosa! Uma sabedoria inerente ao poeta. Alguém sabe dizer se poderei encontrá-la na Siciliano (livraria)?

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