Entramos pelo cano (São Paulo sem água)

Entramos pelo cano!
Por Paula Jnovitch

Dando continuidade ao post anterior sobre o abastecimento da cidade de São Paulo antes da água encanada, passo agora ao momento em que finalmente a cidade começa a receber água através do Sistema Cantareira de águas e esgotos.

Depois de inúmeras questões com a dificuldade de abastecimento da cidade através dos chafarizes, rios, tanques e fontes finalmente a população da cidade começava a nutrir esperanças com um sistema de abastecimento que levaria água potável e encanada até suas casas.

Em 1864, a serra da Cantareira foi o local eleito pelo engenheiro civil James Brunlees e seus colegas depois de feito um levantamento topográfico de S. Paulo onde demarcaram seus recursos hídricos e mananciais.

A partir de 1877 a Companhia Cantareira , à época uma empresa privada, comprometia-se com o abastecimento da cidade de São Paulo por 70 anos. Porém a empreitada de partida não foi aquela maravilha. A população crescia desproporcionalmente à implantação do sistema de encanamentos da cidade. Em 1888, a Cantareira levava água encanada para 5.000 edifícios através do seu primeiro reservatório implantado na Consolação. Mas isso não era suficiente para abastecer toda a cidade. Por falta de planejamento da empresa, rapidamente o sistema de abastecimento tornou-se falho e restrito a determinadas regiões.

A população desiludida pegou seu baldes usados até então no ir e vir dos chafarizes, tanques e rios e retomou a busca de água como há décadas fazia. Para aqueles mais abastados, também mantinha-se o comércio de água via atravessadores, porém o preço dos barris que já eram caros antes da água encanada, com o sistema Cantareira, ficaram exorbitantes conforme afirma a historiadora Denise Sant´Anna em seu livro A cidade das águas: “ A venda da água tornou-se mais cara do que havia sido até então: $030 por um barril de vinte litros.” (Sant´Anna, 2007, 168)

Assim, num primeiro momento, além da falta de planejamento da empresa em relação as dimensões que a cidade ia tomando rapidamente no final do século XIX, a forma como se deu a implantação do sistema de abastecimento da cidade não deixava muitas opções à população. Se antes do sistema Cantareira faltava água nos chafarizes, fontes e tanques, com a presença da empresa muitos destas antigas fontes foram desativadas deixando a população quase refém da água encanada.

A cidade da água potável e encanada aliava-se aos preceitos higienistas para desenhar todo um mapa subterrâneo de rios, águas próprias e impróprias para o consumo humano. O resultado, como nós sabemos aqui do futuro, foi que os rios que corriam pela cidade a céu aberto desapareceram das nossas vistas, assim como todas as bicas, fontes e chafarizes que não eram controlados pelo novo sistema de abastecimento da cidade foram desativadas progressivamente.

Não foi de forma silenciosa que a população da cidade aceitou o fim dos antigos hábitos de buscar água. Mesmo porque, além dos rios, a captação da água nestas fontes não envolvia custo algum. Com a Companhia Cantareira, a água encanada e potável, deixava de ser gratuita e passava a ser medida e cobrada.

“ Em 1893, a retirada do Chafariz do Largo do Rosário, por exemplo, que desde o dia de sua inauguração, em 7 de abril de 1874, havia servido de referência cultural e simbólica para os moradores daquela região central, provocou manifestação popular e intervenção da força pública.” ( Sant´Anna, 2007, 172)

Grande parte da população não poderia pagar pela água encanada. Mas com o tempo, o fim das fontes públicas e os rios cada vez mais impróprios, não restou outra opção para quem morava em São Paulo; ou água encanada e paga da Companhia Cantareira, ou água imprópria dos rios que banhavam a cidade.

No final do século XIX, as reclamações contra a ineficiência dos serviços da Companhia Cantareira se somaram a questionamentos sobre a qualidade das águas. Haviam suspeitas que a água da Cantareira poderia ser responsável por doenças que grassavam na cidade como a febre amarela .

Por conta da insatisfação popular e a falta de eficácia da empresa na administração e abastecimento da cidade de São Paulo, em 1893 o Estado assume a Cantareira criando a Repartição de Águas e Esgotos ( RAE) sob a direção técnica do engenheiro José Pereira Rebouças. Porém, a água além de continuar a ser cobrada por um preço bastante elevado, continuou a faltar nas torneiras de vários bairros da cidade de São Paulo: uma hora eram os canos que não se encaixavam de forma correta, outra eram os entupimentos constantes que impediam o fluxo das águas pelas tubulações subterrâneas.

Entramos de fato pelo cano!

Para saber mais:

Denise Bernuzzi Sant’ Anna , Cidade das águas: usos de rios, córregos e chafarizes em São Paulo (1822-1901). Editora Senac.SP. 2007
paula janovitch | 27 de outubro de 2014 às 9:33 pm | Categorias: são paulo | URL: http://wp.me/p2lKrs-e2

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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