Entre a verdade e o poder: o jornalista em Boa noite, e Boa sorte

O mestre de cerimônia e diretor da CBS anuncia o homenageado que, detrás das cortinas dá o último trago no cigarro, revisa o discurso e é recebido no palco com aplausos de colegas de profissão e convidados. Ele começa:

“Haverá alguém que isso não lhe fará bem. Ao final deste discurso alguém poderá acusar-me de sujar meu próprio ninho e a Associação pode ser acusada de dar abrigo a ideias heréticas e inclusive perigosas (…). É meu desejo e minha obrigação falar-lhes com franqueza sobre o que ocorre no rádio e na televisão. E, se o que digo é conjetura, eu sou o único responsável por tê-lo dito”*.

Nos tempos da Universidade Potiguar, o professor de Cinema em Jornalismo, Gustavo Bittencourt, também colunista deste Substantivo Plural, dizia que nenhuma outra profissão foi tão bem retratada no cinema como o Jornalismo.

Boa noite.2Em Boa noite, e Boa Sorte, essa frase dita em meados de 2008 ganha ainda mais sentido.

Peço uma pequena licença ao meu ex-professor para invadir a área dele e tratar de cinema, em vez do recorrente tema da minha coluna, a literatura.

Assim começa Edward R. Murrow (David Strathairn), em discurso na festa de homenagem promovida pela rede de televisão CBS a ele mesmo.

E assim começa também o filme Boa noite, e Boa sorte (2005), dirigido por George Clooney, que aborda a série de programas que o jornalista e apresentador de tal televisão dedicou para denunciar, desmascarar e esclarecer aos telespectadores e a opinião pública, as técnicas de investigação do senador Joseph McCarthy, naquilo que ficou conhecido como o ‘macarthismo’.

O macarthismo foi um movimento de investigação anticomunista, de perseguição política, infrator dos direitos individuais norte-americanos, principalmente no pós-Segunda Guerra.

Esse ‘movimento’ era liderado pelo dito senador, que usava técnicas agressivas e de ameaças, perseguindo quem tivesse contato com algum tipo de ‘instituição’ comunista.

A esse movimento também chamam de ‘caça às bruxas’, especialmente contra atores e artistas, que durante a guerra apoiaram a união dos Estados Unidos com a então União Soviética, formando os ‘Aliados’, ou um tratado do país com o eixo comunista.

Entre tais artistas perseguidos estava Charles Chaplin, devido a sua visão política mais à esquerda e, por isso, a comissão de investigação liderada por McCarthy o acusou de atividades ‘antiamericanas’.

Tais investigações tinha colaboração do FBI e, assim, exilaram Chaplin dos Estados Unidos, em 1952.

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Senador Joseph McCarthy mostra plano ‘anticomunista’ nos anos 1950; ele foi o principal fomentador de uma paranoia surreal, combatida por jornalistas como Edward R. Murrow

O auge do macarthismo foi em 1953, e Edward R. Murrow, notável jornalista e apresentador à época, tido ainda hoje como um dos principais em sua área, resolveu confrontar e denunciar o poderoso senador com uma série de reportagens.

A Era da Televisão começou com um embate entre poder e Jornalismo, na qual já em 1958, ano do discurso de abertura do texto, Murrow cobra uma televisão como instrumento transformador, não somente um aparato cheio de cabos.

Murrow trata do caráter de entretenimento que a TV começa a ganhar de maneira forte e que isola os cidadãos da realidade.

Ele cobra a sua própria empregadora e a critica por não ser um instrumento clareador de ideias, com uma função social de formação, além de informação.

“Nossa história será a que nós queiramos. E se haverá historiadores dentro de 50 ou 100 anos, e se conservarem os cinescópios de uma semana das três redes, encontrarão gravados em branco e preto, e colorido provas de decadência, escapismo e isolamento da realidade do mundo que nos rodeia”.

Boa noite e Boa Sorte traz a velha questão da vigilância do ‘quarto poder’ sobre os outros três poderes.

E a série de programas elaborados por eles defendem o cidadão comum de uma espécie de CPI contra todo tipo de pessoa, independente do seu status quo.

O filme de Clooney chega até ser saudosista e nos leva, jornalistas mais jovens, a sonhar com uma era romântica da nossa profissão, na qual os ideais moviam os profissionais.

A verdade se não era absoluta, buscávamos que fosse.

Além disso, vem o clichê (real) da vida boêmia dos jornalistas.

A máquina de escrever sobre a mesa, o cigarro no canto da boca.

O que encanta em Boa noite e Boa sorte é a luz ou a falta dela (o preto e o branco característico dos anos 1950).

De jornalistas, repórteres e diretores muito bem trajados, alinhados, com gel no cabelo e aquela força, digamos poder, que a profissão carrega ou carregava.

Um glamour inexistente com as novas tecnologias.

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Com seu clima noir, “Boa noite e boa sorte” teve seis indicações ao Oscar, em 2006: Melhor Filme, Roteiro Original, Direção de Arte, Fotografia, Ator e Diretor.

A realidade é que os filmes norte-americanos talvez abordem o jornalismo como a sociedade o enxerga naquele país. Uma instituição que carrega, ou deveria, a busca da verdade consigo e não uma profissão de seres onipotentes ou sensacionalistas, como personagens das novelas brasileiras.

Não tanto ao céu e nem tanto ao inferno.

Já foi questionado e justificado ‘a perda do quarto poder’ e a imagem, ou a ideia, de exercer o poder e como ele traiu muitos profissionais e meios de comunicação.

Essa teoria estava contida no cerne da profissão, que nos ‘presenteou’ como mandamento número 1, porque não cravado em uma pedra, o “dever de contar a verdade”.

E a Liberdade que nos foi concedida constitucionalmente não devia ser usada em nosso próprio proveito, mas como um direito do público em ser informado por diversos canais e pontos de vistas.

E Boa noite e Boa sorte nos devolve isso durante cerca de 1h30 minutos de duração.

Em uma das passagens, na série de programas dedicados contra o senador McCarthy, Edward R. Murrow afirma:

“É necessário investigar antes que legislar, mas a linha entre investigar e perseguir é muito fina e o senador de Wisconsin a cruzou repetidamente. Não devemos confundir discrepância com deslealdade”.

O que Murrow solicita ao senador e tenta expandir para a opinião pública é que um país democrático deve ter a diversidade de opiniões sem que isso seja alvo de deslealdade.

Políticos natalenses deviam entender isso também, especialmente no interior do Estado.

Murrow não defendia o comunista, somente exigia o direito dos cidadãos que o faziam em ter o direito de fazê-lo, sem serem acusados de traição.

Em plena a Guerra Fria, o jornalista da CBS defendia que os americanos maduros podiam discutir e conversar com os comunistas de qualquer parte do mundo, sem se contaminar, e que isso deveria se manter no campo das ideias e não da coerção.

O embate entre a verdade e o poder político

Edward R. Murrow talvez tenha aberto, na era digital, a via do jornalismo como combate ao poder político.

Anos depois, o Caso Watergate virou o maior embate entre essas duas forças, jornalismo e poder político, na qual a verdade da informação, a verificação e a liberdade de imprensa combateu e ‘derrotou’ o poder político.

Na busca pela verdade, de clarear os fatos para os cidadãos, na luta contra os abusos de poder dos políticos, Murrow declara:

“Inspecionei minha consciência e meus arquivos e não posso afirmar que sempre tive razão, mas persegui e transmiti a verdade com diligência”.

Após embates televisivos da parte de Edward R. Murrow e com o direito de resposta oferecido ao senador McCarthy pelo próprio Murrow, o senador começa a perder força política, sofre censura no Congresso e passa a ser investigado por abusos cometidos

“Eles desafiaram o governo com nada mais do que a verdade”.

Decadência da televisão

O jornalismo fez sua parte como instituição e pilar da democracia.

Mas a pressão política continuou, a ponto de os patrocinadores retiraram seus anúncios do programa.

O chefe executivo, William Paley (Frank Languella), retira o programa do horário nobre, às terças à noite, e o transfere para domingo à tarde.

O diálogo entre Paley, Murrow e o produtor Fred Friendly (George Clooney), na espaçosa e suntuosa sala do chefe, nos leva a distinguir interesses dos setores comerciais e das redações, com a eterna luta entre a qualidade jornalística e interesse dos patrocinadores.

Com cenas reais dos verdadeiros personagens, Boa noite e Boa sorte nos deixa lições como jornalistas e cidadãos, principalmente como profissionais.

Apesar dos estereótipos do modo de vida do jornalista, traz um saudosismo elegante e nos deixa a ideia de uma utopia ou, quem sabe, um mito distante, na qual a verdade vencerá sempre.

*Todas as citações foram traduzidas do filme citado, na versão em Espanhol. Assim, pode ser que na versão em português, a tradução não esteja igual, já que vem direto da versão original, em inglês.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ View all posts ]

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