Entre Ben Jor e Teló, fumaram o ópio do povo

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Seleção brasileira trocou a vanguarda por um conservadorismo tacanho, ao ser eliminada pela França nos pênaltis, no dia 21 de junho de 1986, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, México; desde então, dois títulos insossos e muita concessão ideológica jogaram o time reverenciado em todo o mundo na vala comum

A cuíca e a bateria artificial crescem em um samba acelerado, batuque, batuque, aparece um cara de terno branco, foi rápido, agora imagens dos ‘heróis’ nacionais de camisetas amarelas, às lágrimas, sorrisos largos, um deles abriu os braços.

Crianças na praia, Pelé, Zico, uma mulata de prata, Rio de Janeiro, capoeira, Bellini, Romário, Cafu, todos levantam o troféu, até o assobio nefasto trazer o cara de terno branco chamado Pitbull.

“Put your flags up in the sky”, pede o americano de Miami de descendência cubana.

Estava claro que a coisa ia degringolar.

Há exatos dois anos, vivíamos o clima da Copa no Brasil e tínhamos no clipe de We Are One que, além do cantor com nome de cachorro brabo, trazia Claudia Leitte e Jennifer Lopez na quebradeira, o tema oficial do evento no Patropi.

Creio que 80% da letra é cantada em inglês.

“Ah, mas é a língua universal, o idioma dos negócios, do padrão FIFA”, dizia um conhecido de barba desenhada.

Certo, business.

Mas em um país com tantos analfabetos funcionais, seduzidos pela pompa do evento esportivo majestoso, custava nada ‘vender’ uma trilha em português, com outros artistas.

“Mas a Copa não foi feita pra massa, bobão”, insiste barba desenhada.

Pois está aí o problema: a coisa perdeu o elo com o povão, com quem movimenta a cadeia boleira para além da cervejada em dia de jogo.

Senti esse afastamento dias atrás, ao saber que a seleção enfiou sete gols no Haiti, pela segunda rodada de uma Copa América com tudo para ser memorável – naqueles enormes estádios norte-americanos lotados, a Argentina completa com Messi e Cia, etc.

Ignorei a estreia brasileira contra o Equador (0x0) e nem sabia do ‘clássico’ contra a metade mais pobre da Ilha Hispaniola – dividida com os dominicanos.

Depois da sapatada germânica no Mineirão e da emagrecida do Botafogo, agora na categoria peso pluma, futebol virou nostalgia, para mim.

Na verdade, vejo como os dois títulos de minha geração (1994 e 2002) foram capengas, à base de muita concessão ‘ideológica’, meio que na marra, em coligações espúrias.

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Bilhões foram gastos em estádios monumentais para o Mundial de 2014, a troco de quê? Ganha uma camisa autografada por Felipão e Ricardo Teixeira quem encontrar um defensor do legado da Copa

Com frequência, revejo gols e melhores momentos de Copas do Mundo, e digo que o Tetra e o Penta rendem, com boa vontade, trinta minutos brilhantes.

Para piorar, saber que gastaram bilhões em arenas ostentosas, com anuência do Governo Federal, do comitê organizador, de tribunais supremos e, na real, de todos nós, só aumenta minha desilusão.

Ou alguém ocupou alguma coisa, gritou, movimentou redes sociais contra o evento, a não ser naquele oba oba pré-Copa das Confederações, em 2013?

Por que ninguém fez nada em 2007, ano em que o ex-presidente Lula assinou a procuração para os donos da bola torrarem nossa grana?

À época, sobrou dinheiro e faltou prioridade.

Qualquer discussão política só frutifica se houver autoanálise, dedo na ferida, pingos nos is, inclusive com os chegados, acredite nisso você.

Hoje, 21 de junho, é um dia especial para quem gosta da cultura futebolística.

Puro melodrama, bem ao gosto de quem é fã de esportes.

Há exatos 30 anos, o Brasil trocou a vanguarda pelo conservadorismo tacanho na arte ludopédica, com a nova derrota de Zico, Falcão e Sócrates em um Mundial – a terceira, para os dois primeiros.

Pense na última vez em que tivemos três meias dessa qualidade.

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Copa do México, em 1986, foi último lampejo do verdadeiro ‘jogo bonito’, com Zico, Júnior, Sócrates, Careca e Falcão no elenco

E ainda Branco, Júnior e Careca.

Veio com ajuda da França de Michel Platini, ao vencer o Brasil nos pênaltis, no México, em 1986, a justificativa para o golpe do volante pegador, tipo predileto de uma geração de treinadores que ainda estão por aí – Tite incluso.

No dia da partida contra os franceses, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, eu tinha dez anos.

Fomos para a casa de um amigo do meu pai, em Morro Branco, confiantes na mística da camisa amarela reluzente no escaldante sol mexicano, diante de um adversário sem título mundial, sem disputas em finais, mas então campeão europeu.

O show de 1970 estava vivo, por supuesto.

Bastava botar mais um selinho na cartela, feito restaurante que lhe deixa comer uma vez sem pagar após juntar uma dezena de papeizinhos, e seguir para as semifinais – seria contra a Alemanha de Schumacher, Briegel, Brehme, Matthaus, Rummenigge, Voller, sob direção de Franz Beckenbauer.

Imaginou?

Eram ótimos times.

Vinte anos depois, na nova eliminação pra França, tínhamos Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Roberto Carlos, Cafu, Adriano, Juninho Pernambucano, Robinho, Zé Roberto.

Agora olhe bem para os sujeitos sacolejantes lá do alto da página.

Neymar tem talento, Marcelo, idem, o restante assiste e bate palma.

Um amontoado de jogadores medianos ou fracos, treinadores incapazes e defasados, escolhidos por uma casta de dirigentes aristocráticos, acusados de corrupção por todo lado.

“É a crise, irmão, é a crise, escapa ninguém”, debocha um vizinho aqui do prédio, ao me ver e iniciar um papo de bola.

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Volantes e zagueiros ‘pegadores’ viraram referência nacional

E vem Olimpíada aí, outro absurdo com dinheiro público sonegado por protestantes de qualquer vertente.

O próprio Rio de Janeiro um caos, com invasão de hospital importante por 20 traficantes para resgatar um comparsa, queda de ciclovia mal projetada, uma calamidade só, e o quê?

Mutismo geral.

Sob a batuta de Galvão Bueno, a seleção com Neymar em campo tentará o inédito ouro.

A atmosfera será criada, bares cheios, camelôs, cerveja empilhada na entrada do supermercado, ponto facultativo, mais camisetas verde e amarela, voa canarinho, silêncio na BR aqui em frente na hora do jogo.

Demorei a entender alguns amigos avessos a futebol.

Hoje sou quase um vira-casaca.

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