Entre grades

Por Luís Fernando Veríssimo
O Estado de S.Paulo

O Vladimir Nabokov certa vez deu uma curiosa explicação sobre a origem do seu romance Lolita. Disse que sua inspiração fora a notícia que lera em algum lugar sobre uma experiência feita num jardim zoológico em que ensinaram um gorila a desenhar, e o primeiro desenho feito pelo gorila foi das barras da sua jaula.

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Se Nabokov não estava deliberadamente tentando enlouquecer um entrevistador – afinal, o que o gorila entre grades tem a ver com a história da paixão de um homem mais velho por uma menina de 12 anos, e seu trágico desfecho? – sua resposta pode ter vários significados. Um deles é o confinamento dentro do próprio texto que é a sina de todo autor, mais evidente no caso do narrador de Lolita, um prisioneiro do seu estilo tanto quanto da sua obsessão por ninfetas. Como o gorila artista dentro da sua jaula, o narrador escreve sobre os seus limites. O seu verdadeiro assunto é a linguagem.

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Humbert Humbert, o narrador de Lolita, escreve em vários níveis de paródia. Parodia a vulgaridade americana do ponto de vista de um intelectual europeu mas também faz uma a paródia do intelectual europeu deslocado e ridicularizado no Novo Mundo, em que o autodesprezo pela sua impostura cultural se mistura com a culpa. Mas ele não pode se livrar nem do seu pedantismo nem da sua obsessão. Lolita está cheio de jogos de palavras, imagens preciosistas, símbolos obscuros, referências literárias – toda a parafernália da ostentação intelectual mobilizada para um só fim, o de justificar uma paixão incomum. Tanto o gorila quanto o Humbert Humbert descrevem o que os separa do mundo.

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No livro A Última Tentação de Cristo de Kazantzakis há um diálogo em que um personagem diz a outro que seus olhos não entendem a mensagem de um profeta porque não veem nada além das palavras. “Mas o que as palavras podem dizer? Elas são as grades negras de uma prisão onde o espírito grita para ser ouvido.” No seu livro Speak, Memory (Fala, memória) o próprio Nabokov diz que está “cativo num zoo de palavras”. A ideia das palavras como grades que impedem a expressão do espírito ou como uma insatisfatória seleção sem alternativas de animais atrás das cercas de um zoo deve ter ocorrido a muitos autores. Em toda a fascinante literatura da Clarice Lispector, por exemplo, se repete este choque com o limite da linguagem, esta incapacidade angustiante de dizer o indizível, de ultrapassar as grades. O que se quer dizer está sempre lá fora, além das palavras.

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“A glória de Deus é encobrir, mas a glória dos reis é tudo investigar”, disse Salomão (Provérbios 25:2). Substitua-se “reis” por escritores e artistas e sua busca de glória pela investigação de toda a experiência humana e seus mistérios, e chegamos ao Nabokov e seu gorila. Nunca ultrapassaremos as grades. Podemos no máximo sacudi-las com mais ou menos talento ou vigor, mas resignados à ideia de que a verdadeira glória de Deus começa onde termina a linguagem.

Pois se trata de um Deus ciumento, senhor de todas as nossas paixões, e indisposto a compartilhar sua glória, ou sua literatura, com quem quer que seja. Mesmo o Nabokov ou a Clarice.

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