Entre Natal e Havana: sociólogo Olavo Queiroz e a experiência cubana

Em novembro de 2012, entrevistei Olavo Queiroz para a página de cultura do Jornal de Hoje (RN). Tínhamos nos conhecido três anos antes, quando fui a Cuba e ele me orientou sobre o que interessava ver em Havana. Poucos residentes em solo potiguar entendem tanto da Ilha Caribenha como ele. Das dicas e alertas, vi que estava diante de um personagem ímpar. À época, uma de suas bandeiras era a soltura de cinco cubanos presos nos Estados Unidos acusados de espionagem – dentro da agenda positiva entre Cuba e Estados Unidos, nos últimos anos, eles foram soltos em dezembro de 2014. Caberia muito mais assunto neste Substantivo Plural, mas quis preservar a conversa original, limitada pelo espaço e pelo tempo de um jornal impresso. As alterações aqui transcritas foram insignificantes.

A professora de Moral e Cívica tinha esgotado a paciência com o garoto defensor de Karl Marx e questionador da veracidade de Deus.

Corria o ano de 1972, oitava temporada dos militares no comando do Brasil.

Durante uma aula em que se debatiam erros do pensador alemão, ela, antecipando possíveis problemas com o jovem rebelde, sentenciou:

“Respondam como está no livro, não como Olavo botou na cabeça de vocês”.

O futuro sociólogo e ativista pró-Cuba era um menino curioso e inquieto.

Ainda adolescente, leu “O Capital”, a Bíblia Sagrada e toda a obra de Júlio Verne.

Formava assim um cabedal de conhecimentos que o transformaria em um comunista inveterado (assim como seu pai) e partícipe de movimentos estudantis.

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Desde os anos 1980, Olavo visita Cuba; sociólogo participou de protestos da UNE, em São Paulo, no final dos 70s e acredita na tecnologia para amenizar chagas sociais; No foto, ele fuma seu ‘puro ‘em Habana Vieja

O paulistano Olavo Pereira de Queiroz, 58 anos, é, hoje, um corretor de imóveis, que mora em Natal desde 1998, e mantém vivo o sonho de outrora.

Embates ideológicos serviram de ensaio para o viria no decorrer da década.

Aluno da USP, primeiro de engenharia, depois, de física, ele participou do reavivamento da UNE (União Nacional dos Estudantes) em 1977, com a saída da organização da clandestinidade, após a promulgação da Lei n° 4.464, de 9 de novembro de 1964, conhecida como Lei Suplicy de Lacerda.

Tempos sombrios que culminaram na invasão da PUC pela Polícia Militar – e 1.500 estudantes presos.

Olavo estava no meio daquele pandemônio, mas evitou a prisão ao pular um muro que separava a rua do cenário de guerra.

Jovem de classe média, morador da Vila Mariana e desportista amador, ele acompanhou de perto o processo de anistia dos opositores ao regime (ou agitadores de esquerda, como queiram), em 1979, até conquistar uma namorada suíça, em uma viagem que começou na terra dos relógios, dos chocolates e de polpudas contas bancárias.

O fim do périplo foi a então Tchecoslováquia.  A Cortina de Ferro ainda se estendia rio Danúbio abaixo – foi barrado na fronteira da Áustria com a Hungria (o destino pretendido).

Ele ganhava a vida com aulas em cursinhos pré-vestibulares, sem maiores perspectivas.

E seguia a efervescência política nacional, na iminência de sofrer grandes mudanças.

Vieram as eleições para governador, em 1982, e um quarteto de anos em que Olavo virou pai e fez sua primeira viagem à Cuba, a mítica ilha caribenha sedutora de meio mundo nos 60s, com sua revolução socialista.

O Brasil dispensava manter relações diplomáticas com Havana (restabelecidas em junho de 1986, quatro meses depois do desembarque de Olavo no Aeroporto José Martí), o que forçava uma passagem pelo México para conseguir o visto de entrada.

Ao chegar, ficou surpreso em ver uma sociedade comunista tropical em pleno funcionamento.

Cuba
Da revolução que incendiou a América Latina e o mundo no final dos anos 1950, Cuba viveu o colapso social com a derrocada da União Soviética, em 1991; Olavo presenciou o ‘furacão’ econômico que assolou a ilha caribenha, tão bem representado no livro Trilogia Suja de Havana, de Juan Pedro Gutierrez, ou na imagem de cubanos empilhados em jangadas improvisadas na tentativa de cruzar os 140 km até a Flórida (EUA)

Abastecidos com U$10 bilhões enviados pela União Soviética todo ano, além de material bélico e industrial, cubanos sugeriam alto padrão de vida.

No entanto, o fim da URSS, em 1991, promoveu o colapso social na terra da Cabrera Infante e Silvio Rodriguez.

Filiado ao PCB desde 1985, mas decepcionado com a postura adotada pelos comunas paulistas nas eleições estaduais do ano seguinte (trocaram o apoio a Orestes Quércia e foram pedir votos para empresário Antonio Hermínio de Moraes), esqueceu a política partidária e voltou a atenção para Cuba.

Época em que um amigo agrônomo intensificava a produção de resina de pinos, o cobiçado pinheiro, no Vale do Ribeira, divisa entre São Paulo e Paraná.

Pinos & puros

O fim do primeiro casamento (gerou dois filhos), a baixa remuneração com aulas de física e a paixão pela bebida o desestabilizaram emocionalmente.

O inferno astral começou a ser superado com o convite do amigo para prestar consultorias sobre o promissor negócio das resinas.

Olavo abraçou a oportunidade e deu início ao processo de reconstrução pessoal – iniciado em 1992, ao conhecer a paraense Márcia Gorette e largar o álcool.

Com o crescimento da empresa, a expansão para outros países virou prioridade para o chefe/amigo.

A conhecida exuberância e qualidade da flora da região de Pinar Del Rio (centro da produção de charutos), no oeste de Cuba, caia feito uma luva no projeto.

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Paulistano radicado em Natal conhece boa parte dos países outrora chamados do ‘Bloco Comunista’, como a antiga Tchecoslováquia; Viagem a China teve Pequim como principal escala, onde a dificuldade com o idioma e a alimentação dos nativos foram testadas em grau máximo

De 1994 a 1997, Olavo viajava para a ilha governada pelos Irmãos Castro a cada dois meses.

Tempo de aprofundamento nas convicções ideológicas, diante daquele povo que, mesmo diante da maior crise econômica de sua história (chamado de Período Especial; pós-fim da URSS), oscilou entre a perseverança no sistema socialista e um dos maiores êxodos do século 20.

A imagem de cubanos em cima de pneus transformados em jangadas, no perigoso Golfo do México, ganhou o mundo.

E uma nova guerra midiática estava armada.

“Ninguém imaginava que a União Soviética fosse acabar”.

Chegada em Natal

A entrada dos espanhóis no ramo das resinas em Cuba enfraqueceu a empresa do amigo.

Nisso, a química Márcia conseguiu emprego no colégio Marista de Natal (sua família é do interior do Rio Grande do Norte) e o casal arrumou as malas para cruzar o país e vir morar no Nordeste.

Marxista convicto, logo ele concluiria o curso de sociologia da UFRN e continuaria a viajar a Cuba pelo menos três vezes por ano, agora como simples turista.

“O maior erro foi depender dos soviéticos cegamente”.

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Aos 58 anos de idade, Olavo Queiroz é marxista e acredita na luta de classes como principal barreira a ser derrubada para o bem estar de uma sociedade prevalecer; ele conduz a Casa de Amizade Brasil-Cuba, entidade responsável pelo estabelecimento de relações entre os dois países latino-americanos, cujas composições étnico-culturais são muito semelhantes

Então surgiu o convite para tocar a Casa de Amizade Brasil-Cuba, instituição que, como o nome sugere, tem por objetivo estimular o intercâmbio e o estreitamento da relação entre as duas nações latino-americanas.

A Casa existia, com o vereador Fernando Lucena (PT) de presidente da secção Natal.

“Ele nem sabia disso”.

Um breve levantamento demonstrou a inexistência de atividades locais.

O apoio inicial para Olavo ‘reconstruir’ a Casa veio do ex-deputado Leônidas Ferreira – morto em 2009 e pai da atual secretária municipal de planejamento, Maria Virgínia Ferreira Lopes.

Mas comunistas antigos, como o ex-reitor da UERN, Antônio Capistrano, o presidente da Associação dos Anistiados do RN, Meri Medeiros e o ex-vereador Juliano Siqueira, de alguma forma, estiveram por perto – Natal é uma cidade irmã de Havana, de acordo com a Lei Ordinária nº 05013/98.

Olavo sabe o quanto é custoso remar contra a maré capitalista, mas acredita na necessidade acima da produtividade, em relação a empregos, remuneração e bem-estar social.

Para ele, mais que rum e charutos (vício assumido), a experiência cubana fornece subsídios para uma luta inglória, porém inesgotável.

No momento em que países europeus passam por perrengues econômicos, como um velho filme de décadas atrás ao falar da ascensão do nazismo alemão, do fascismo italiano e do comunismo soviético, governos reveem metas e ações, em certa guinada à esquerda.

Passados 26 anos de sua primeira incursão em solo cubano, Olavo tem como principal bandeira, no momento, chamar a atenção para os cinco cubanos detidos em meados dos anos 1990, em território norte-americano, sob acusação de espionagem e conspiração.

“Perdemos a batalha, mas não a guerra”.

Fotografias: Arquivo pessoal

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