Entre Narciso e o suicídio, a literatura balança

Por Sérgio Rodrigues
VEJA

Narciso de Caravaggio (1598-1599)

A literatura é hoje um campo que se questiona de modo histérico, com resultados entre o suicida e o narcísico.

O discurso literário parece sentir, de alguma forma, que perdeu o direito à existência. O que quer que o justificasse perante si mesmo não o justifica mais.

Entre as atitudes que o discurso literário toma diante disso, destaco duas que me parecem especialmente significativas: deitar no caixão e declarar-se morto, como um personagem de Nelson Rodrigues, procedendo então à auto-autópsia; ou, feito uma drag queen de quermesse, se montar inteiro com maquiagem, bijuterias, próteses, piscando muito para o espelho e dizendo: “Eu existo, ói eu ali”.

(Seria interessante – mas foge aos propósitos deste artigo, para não falar da minha competência – investigar o que haverá de analogia estrutural e especularidade simbólica entre duas crises culturais contemporâneas, a “do macho” e a da literatura de ficção.)

A verdade é que, além daqueles que a fazem e da pequena seita que a consome sistematicamente, ninguém no mundo de 2012 está prestando lá uma terrível atenção à ficcão literária, como diriam em inglês – literatura artisticamente ambiciosa, digo eu. A ficção comercial vai bem, mas o público da ficção dita séria míngua ao mesmo tempo que se concentra na metade feminina da população.

Quando morrer a geração de Coetzee, McEwan, Marías, e considerando-se que Bolaño e Wallace apressaram essa parte do processo, é evidente que outros nomes ocuparão seus lugares, mas tudo indica que o campo terá encolhido mais um pouco.

*

A teoria literária que cresceu e envelheceu com o século 20 desempenhou em sua juventude o papel cultural de aliada dessa literatura – uma aliada implicante e reticente, mas ainda não abertamente hostil. A mesma teoria literária chegou ao terceiro milênio convencida do fim da ex-amiga. O fim se daria, ou já teria se dado, pelo esgotamento de seu ciclo histórico. Simples assim.

Tal diagnóstico costuma vir amparado em raciocínios de diversos teores, da filosofia da linguagem (preferência dos mais propriamente teóricos) à sociologia e à política (área do pessoal ligado em estudos culturais), mas tem sempre no subsolo uma espécie de pré-ideia, uma sensação visceral e pouco trabalhada: a de que o presente simplesmente já não cabe nesse discurso. Passou. A pós-modernidade eletrônica planetária está forjando novos vocabulários, novas gramáticas, novas dinâmicas em que a imaginação dos seres humanos futuros vai se espalhar com mais conforto do que na extensão cinza de um Saara de palavras chamado livro. Quando se quer dar um lustro intelectual um pouco maior a esse instinto apocalíptico, afirma-se que a coisa é bem pior até, pois a própria ideia de representação está sendo minada, o que em última análise torna fútil falar sobre categorias como arte ou mesmo sociedade. De uma forma ou de outra, deve-se concordar que a literatura já não serve para nada.

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Paulinho da Viola canta: tá legal, e tal, mas faça como o velho marinheiro. Aceito o conselho e fico pensando: para que servia mesmo a literatura, antes dessa crise? Não foi a crise desde sempre seu habitat? E não seria a inutilidade fundamental – ou antes a inutilidade de tentar fazer suas utilidades serem utilizadas de modo realmente útil, isto é, a sublime gratuidade do gesto estético – uma de suas características principais, talvez a mais profunda delas?

Porque se a inutilidade for um traço fundamental da melhor literatura, resulta daí que é uma crença ingênua na linearidade da história supor que a obsolescência e o descompasso radical com o espírito do tempo marcarão seu fim – e não um período de excelência e maturidade, cheio de riquezas inéditas.

Comments

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  1. cyr 31 de Março de 2012 2:40

    acho ridículos esses discursos sobre o fim da literatura. de fato, se déssemos ouvidos à teoria, teríamos de admitir, entre outros óbitos, o da pintura (a despeito de ainda haver quadros assombrosos sendo feitos por aí). a arte é arte, e não teoria, precisamente porque ignora vaticínios, transcende adequações. é brinquedo e gozo, ainda quando áspera.

    são patéticas as tentativas de determinar o fim de algo pelo “esgotamento de seu ciclo histórico”. se somos nós mesmos seres inseridos na carne da história, carrapatos seus, portanto, ou atores, se preferes, como podemos ter a pretensão de conhecer o fim de seus “ciclos”?

    aliás, é bom lembrar que a própria história, segundo certo cientista social afirmava pela década de 90, também morreu. morreu?

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