Entrevista – Anderson Foca

Um dia para comemorar. Assim será o show que o Dosol promove neste sábado, às 17h no Centro Cultural Dosol. O evento vai contar com algumas das bandas mais respeitadas da cena independente nacional: Amp (PE), Black Drawing Chalks (GO), Calistoga e Rejects (RN) e marca o começo das vendas de ingresso para o Festival Dosol 2009. Também vai servir como lançamento do DVD “Festival Dosol 2008 – O Filme”. Shows, festivais, filme, clipe na MTV… Quem acompanha a trajetória do Dosol nos últimos 10 anos encontra, realmente, motivos para comemoração. O filme é apenas o último filho parido; o caçula de outros projetos adolescentes. Alguns já são adultos, amadurecidos. E praticamente todos são independentes, filhos de pai solteiro, do Mr Anderson Foca e da mãe por opção, Ana Morena.

Entrevista – Anderson Foca

Como você entrou no mundo da música independente?
Como amante do rock lembro bem de shows que assisti ainda em Belém, lugar de onde eu vim há vinte anos. Lobão lançando O Rock Errou, Plebe lançando o Concreto já Rachou, Sepultura no começo, Mercenárias, Legião. Depois comecei a me interessar como uma forma de vida e estou nisso desde então. Comecei em 95/96 em bandas de colégio, passei pelo Ravengar, Officina, SuperBoy, Beltane, Allface, The Sinks e agora no Rejects.

E a carreira de produtor?
Começou praticamente junto com as minhas bandas, já que eu produzia nossos próprios shows e afins. De lá para cá apareceu o Dosol e a coisa tomou um rumo que jamais imaginei. Hoje somos um combo de cultura que trabalha com música, audiovisual e tecnologia que envolve uma produtora de vídeos, um estúdio, um centro cultural, um portal, uma produtora de shows e um festival anual. Todos com o nome de Dosol.

A cena musical potiguar tem ganho palcos nacionais: Khrystal, Valéria Oliveira, Tricor, Rosa de Pedra e o próprio Rejects. Um momento único, talvez. A música independente, como um todo, tem seguido o mesmo ritmo?
O que tem acontecido com as músicas nos últimos 4 ou 5 anos não é previlégio só de Natal. O fato é que o poder midiático e de grandes corporações já não tem tanta força quanto tinha por essa coisa da internet, da pirataria, do acúmulo de informação gratuita. Natal, uma cidade cosmopolita e localizada no meio do Brasil litorâneo fatalmente entraria nessa roda dos novos artistas, dos bons festivais e coisas do tipo. Acho também que os artistas potiguares estão mais maduros e correndo atrás das coisas certas para ter visibilidade. Antes era corrida atrás de gravadoras, de grandes produtores. Hoje o artista já sabe que se ele não fizer as coisas por si próprio nada vai acontecer. Estamos num momento interessante e de caos, onde quem conseguir visualizar oportunidades vai sair na frente.

A falta de entrosamento entre músicos potiguares, prejudicial ao crescimento da música potiguar, parece não afetar o movimento crescente de bandas independentes em Natal. Quais as consequencias dessa união?
Talvez o que role seja falta de interesse mútuo. No rock, as bandas estão sempre circulando nos mesmos lugares, em volta dos mesmos ideais e com carreiras parecidas. Termina que o contato de um serve para todos, a ação vencedora de um serve para todos e isso traz um pouco mais de união. Vejo outros grupos com esse tipo de interesse e gosto de estar próximo disso. É o caso de Valéria Oliveira, Simona Talma, Luís Gadelha, entre outros. Gente com um talento sensacional e que de uns anos para cá começaram a trabalhar e pensar juntos. Qeremos estar do lado de quem quer ver a coisa melhorar.

A carência de palcos dedicados exclusivamente à música é fato em Natal. As alternativas são teatros, ginásios e espaços abertos em hotéis. A maioria é inadequada ao estilo musical underground. Como vocês têm escapado dessa carência? O Centro DoSol, o Largo da Rua Chile ou o Galpão 29 bastam?
Bem, o Centro Cultural Dosol surgiu no meio dessa carência em 2005 e está aberto até hoje e funcionando bem porque terminamos sendo um dos poucos espaços que agrega esse programação outsider sem frescura. Vai do Metal Extremo ao som de música brasileira em um passo sem distinção. Acho que para uma cidade como Natal não dá para reclamar da falta de espaço. Talvez pudéssemos ocupá-los um pouco melhor. Nós mesmos ocupamos e fizemos coisas no Budda, Sancho Pub, Casa da Ribeira, entre outros excelentes espaços. Agora estão surgindo os pubs que também podemos fazer valer um espaço, caso do JukeBox. Que tem espaço tem, mas precisamos saber ocupá-los.

Diante dessa conjuntura de ofertas de espaços e bandas locais, dá pra afirmar que a música independente potiguar já possui identidade própria e um alicerce consolidado para alçar voos mais altos?
Nossa identidade é ser cosmopolita assim como a cidade. É ter Khrystal cantando coco e o Rejects mandando bala em inglês. É ter Valéria Oliveira num festival indie como o south by southwest. Essa é nossa característica. Se isso é identidade, não sei. Alcançar voos mais altos é bem relativo. Vivo honestamente com o Dosol (meu único trabalho), minhas bandas tocam no Brasil inteiro. Sou agradecido por isso e considero nosso case um grande sucesso. Nunca aparecemos na Globo ou algo assim, mas nem todo mundo precisa ser famoso para fazer sucesso.

Quais as bandas mais promissoras e os novos talentos surgidos neste cenário? Quem você destacaria como instrumentista? E compositor?
Como compositor gosto do Jão Saraiva, agora sem banda (antigo integrante do extinto Jane Fonda). Gravei várias coisas dele. Bandas promissoras gosto do Camarones Orquestra Guitarrística, do Projeto Trinca, Mr. Pow de Mossoró, que acabei de gravar. Acho que essas três são as bandas relativamente novas mais promissoras do estado.

DOSOL

Faça um balanço geral do selo DoSol Records.
O selo surgiu em 2001 para lançar minha própria banda na época, o Officina. O grupo era muito popular e aprendemos muitas coisas nesse período. Resolvemos aplicar esse aprendizado para lançar outros trabalhos que gostávamos. Realmente perdi a conta de quantos lançamentos fizemos, mas foram mais que 50. Desde essa época temos estúdio próprio, trabalhamos na produção artística do áudio e na parte executiva. Também vendo capas, prenssagem e tudo o que a banda precisa para ser lançada. Em 2006, levamos o selo para internet e desde então os lançamentos são só online e passamos a nos chamar Dosol Net Label.

E o Centro Cultural DoSol? Foi comprado a quem o espaço? Como ele se encontrava? Qual o perfil das apresentações e público? Quantos shows já ocorreram lá?
O Centro Cultural Dosol apareceu num desentendimento que tive com o grande e saudoso Paulo Ubarana. Ele fazia quase 90% dos meus shows no Blackout e ele cancelou uma data minha sem avisar. Era um show da banda capixaba Dead Fish. Logo depois encontramos o espaço e arrendamos ele até hoje. O primeiro show foi em julho de 2004. O lugar estava totalmente abandonado. Tivemos que reformá-lo praticamente do zero. De lá para cá já fizemos mais que 3 mil shows no espaço, com bandas potiguares, do Brasil e do mundo. O local abre praticamente todos os fins de semana em média duas vezes por semana. O grosso da programação é de bandas da cena independente potiguar e nacional. Toda a promoção dos shows se dá através de redes sociais e internet. No geral, não fazemos campanha em rádios ou cartazes físicos.

Foi essa estrutura proporcionada pelo selo e pelo espaço DoSol a responsável pela viabilidade do Festival DoSol?
Foi sim. O Festival
Dosol é um filho do Centro Cultural Dosol. Sem o espaço jamais existiria festival. Tanto que fazemos questão de que o Centro Cultural Dosol seja um dos palcos do evento todos os anos. E é no dia-a-dia do bar que também vemos bandas em ação, novidades locais que nos ajudam a fazer a curadoria do festvial.

São seis edições com a deste ano. A evolução foi gradativa? Como foi essa trajetória?
Foi. De espaço para o público já fomos até maiores, mas em conteúdo, nessas últimas duas edições a gente realmente chegou ao nível que desejávamos. Acho até que conseguimos um avanço maior do que esperávamos. Quem assistir o DVD Festival Dosol 2008 – O Filme, vai ter a real ideia do que estou falando.

Em que patamar o Festival se encontra hoje diante dos festivais nacionais de música independente, como o próprio Mada?
Essa não é uma análise que gostaria de fazer. Deixo a outras pessoas ligadas ao meio. O que posso dizer é que estamos extremamente satisfeitos com o Festival Dosol e que a cena independente de música de Natal curte muito o que fazemos nas nossas edições e participa com afinco.

LEIS DE INCENTIVO

Você tem sido um grande crítico das leis de incentivo cultural. Como produtor cultural quais as maiores deficiências que você aponta nas duas leis, municipal e estadual?
Falta um pouco de vontade política para que as leis se tornem mais conhecidas para quem vai investir (os patrocinadores). Essa é minha principal crítica. De certo modo a própria correria individual dos produtores já ameniza um pouco esse problema. Falar de burocracia no poder público é chover no molhado. Não vai mudar. Até acho que um pouco de burocracia (eu disse um pouco) ajuda aqueles que fazem a coisa direito, mas atrapalha bastante ações culturais com dia e hora para acontecerem, como é o caso do Dosol. Nosso papel é apontar falhas e sugerir soluções. E temos feito isso. Só reclamar não funciona.

O Festival DoSol e outros projetos encabeçados por você conseguiram patrocínio mediante leis de incentivo cultural. Sobretudo a Lei Câmara Cascudo tem seu orçamento praticamente engolido por quatro ou cinco projetos maiores. O seu é um deles?
Não. Nosso projeto tem valores módicos em relação aos projetos que você citou. Nosso orçamento para 2008 e 2009 foi o memso e não passou de R$ 120 mil (que para a mostra que fazemos é um valor baixo). Acho que isso não é nem 1/4 do valor desses “grandes projetos”. O Dosol não tem nenhum outro projeto captado pela lei Câmara Cascudo a não ser o Festvial Dosol.

Outros artistas padecem sem conseguir tal patrocínio após aprovação do projeto. É culpa do engendramento da lei ou também dos próprios artistas, mal articulados?
As duas coisas. Na real, a lei estadual desfavorece muito a conquista de patrocínios para projetos individuais. É bem mais fácil pela lei municipal que tem mais gente com poder de patrocínio. Precisamos de mais preparo dos artistas e mais divulgação das leis para os empresários (e contadores deles).

As primeiras edições do Festival foram realizadas sem apoio das leis. Até que ponto elas são necessárias?
Nós somos vanguarda, formamos público, mostramos novidades, não estamos preocupados se o artista tem público ou não. Estamos interessados com o conteúdo desse artista e o que ele pode oferecer à cidade. Memória e vanguarda são as coisas que podem e devem ser incentivadas pelo poder público. As leis são necessárias para viabilizar isso. Sem elas vamos ficar sempre tendo shows lotados do Asa de Águia ou do Ferro na Boneca, sem que ninguém tenha ao menos a chance de conhecer algo além disso. Estamos aqui para passar esse tipo de informação nova.

Vocês ficaram de fora da lista de 50 escolhidos para pontos de cultura e, salvo engano, não figuraram nem entre os 15 suplentes. O que faltou?
Tem que perguntar na Fundação José Augusto. Nós não pleiteamos virar um Ponto de Cultura. Nós já somos um, reconhecidos como tal por muito gente dentro e fora do estado. Oficialmente a coisa não é bem assim. Se o orgão de cultura do estado acha que não somos, não há muito o que fazer a não ser esperar o próximo edital e tentar de novo.

O FILME

Trabalhamos quase um ano para lançar o material em vídeo do Festival Dosol 2008. A qualidade do produto final ficou excelente. Talvez esse seja um dos melhores registros já feitos da cena independente nacional ao vivo e sem retoques, diz Ana Morena, diretora do DVD e produtora executiva do Festival Dosol. Para realizar o trabalho de gravação do filme foram feitas mais de 50 horas de imagens do Festival Dosol do ano passado e com quase 20 pessoas trabalhando no registro do áudio e do vídeo, todos envolvidos direta ou indiretamente com o rock local e suas vertentes. “Optamos por fazer o registro com pessoas ligadas a música, que entendessem mais os momento de cada artista. Por isso, em vez de contratar profissionais da área demos preferência em fazer o trabalho com simpatizantes da causa, músicos e pessoas ligadas ao rock”, complementa Ana Morena. Ao todo são 75 minutos de filme que mostra depoimentos e bandas em ação em takes inspirados na histórica edição do Festival Dosol 2008.

PREÇOS
Preço da casadinha pros dois dias do Festival Dosol 2009: R$30,00 (dá direito à entrada do show de amanhã)
Preço do DVD Festival Dosol 2008: R$5,00
Preço do show de lançamento do DVD: R$5,00 (gratuito para quem comprar casadinha do festival)

Show de lançamento do DVD Festival Dosol 2008
Data e hora? Sábado, 17h
Onde? Centro Cultural Dosol, Ribeira
Atrações? AMP (PE), Black Drawing Chalks (GO), Rejects (RN), Calistoga (RN)
Informações? WWW.DOSOL.COM.BR

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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