ENTREVISTA: Anderson Foca comenta Festival Dosol, atual cenário da música independente e a “babaquice” sobre o fim do rock

O produtor musical Anderson Foca não vive de música; ele vive a música. Se dedica quase 24 horas à música. Subtraia daí algumas horas de sono, um joguinho de tênis aqui e acolá e alguns palavrões durante os jogos do Flamengo (este blogueiro é vascaíno, claro). O resto do tempo produz canções de sua banda Camarones Orquestra Guitarrística, produz shows no Centro Cultural Dosol, planeja o Festival Dosol do próximo ano ou encampa a produção de álbuns e divulgação de outras inúmeras bandas da cena potiguar. É de longe o maior incentivador e produtor de bandas autorais do Rio Grande do Norte. E quem diria que aquele guitarrista da banda Officina, no distante século passado se transformaria num dos mais respeitados produtores da música independente do país? Eis 11 perguntinhas ao Sr. Anderson Foca, após divulgação massiva da programação de mais de 150 shows do Festival Dosol 2015:

Sergio Vilar – O Festival Dosol tem crescido exponencialmente, sobretudo nos últimos três anos. Sabendo que tudo depende de planejamento antecipado, quais as pretensões para o próximo ano no tocante a bandas, tamanho e patrocínios?
Anderson Foca – Bem, a gente todo ano fala que se conseguir repetir o que já vem fazendo é vitória. Mas sim, sempre pensamos em ampliar a atividade, fazer mais shows, receber mais gente. Pra gente, festival tem essa conotação de encontro e quanto mais encontros, melhor. Não sei o que será do ano que vem. Vamos primeiro esperar passar as cosais desse ano. Mudamos muito de patamar e de alcance e precisamos ver o resultado disso ainda.

O que você gostaria de realizar já neste ano, mas que só será possível no próximo?
Eu sempre quero trazer mais artistas internacionais, mas é muito difícil. E eu parecia que tava adivinhando, né? Dólar aumentou muito e eu teria problemas se fizéssemos mais do que já temos. Eu sempre quis levar o festival para Fernando de Noronha e esse ano conseguimos a façanha. Posso dizer que cumprimos bem o que a gente queria fazer.

Conta pra gente um segredo de bastidor na construção do evento deste ano. Um telefonema, um contato com algum dos artistas, uma negociação mais escrota, uma surpresa inesperada…
Fazer o Marky Ramone em 2009 foi surreal pra gente. Eu atendi ele pessoalmente, ficamos escolhendo a bateria que ele ia tocar e eu quase não conseguia esconder a emoção. Fiquei tão pilhado que quando começou o show eu tive uma taquicardia e sai da frente do palco e não vi nada. Ainda bem que filmamos tudo e eu pude ver depois mais calmo. Ramones, né? Uma das maiores bandas desse planeta. Mas sobre este ano, eu queria ter trazido o Moraes Moreira. Conversamos bastante com a produção dele, mas não conseguimos achar uma data boa pra mim e pra eles. Queria ter conseguido, o cara é um um legend!

Olhe 12 anos atrás e rememore a cena musical do RN que você tinha disponível para montar o primeiro Festival Dosol e compare com a de hoje. Quais diferenças de qualidade, quantidade e oportunidade você vê?
Temos uma cena agora, né? Toda criada em cima de muita batalha, de muita promoção, de muita circulação que todo mundo vem promovendo. Quando começamos éramos crianças brincando de ter um selo de música, mas levamos tão a sério que continuamos brincando até hoje. Quando você faz o que curte, nunca trabalha, e eu dei essa sorte. Na verdade fazemos a mesma coisa que fazíamos em 98, mas tudo multiplicado por 100. Se me perguntasse se eu sabia onde ia chegar, não saberia responder, mas nunca deixei de sonhar e até hoje somos movidos a sonhos.

Quais bandas destacaria?
Tirando as que já são conhecidas, como Camarones, DuSouto, Far From Alaska e Mahmed, acho que tem três bandas promissoras nesse ano: Plutão já foi Planeta, Luisa e os Alquimistas e Forasteiro Só. Essas são bandas relativamente novas e bem promissoras.

12065552_970656559668643_4299697754212784043_nComo produtor musical ou líder da banda Camarones Orquestra Guitarrística você presenciou inúmeros formatos de festivais no Brasil e no exterior. Qual ou quais desses eventos influenciam mais a formatação do Festival Dosol de hoje ou mesmo o de amanhã?
Gosto de dois formatos bem diferentes. O primeiro é o da Vans Warped Tour, que é um festival montado e desmontado todos os dias no verão americano em quase 50 datas; curto muito esse formato sem frescura deles, mas muito proveitoso. Lá eles têm a vantagem do dia ser mais longo no verão e fica mais fácil de fazer. Curto também o Primavera Sound, em Barcelona, onde tocamos lá ano passado. Uma aula de música, de formato, de curadoria e de ocupação da cidade. Esses dois são nosso norte para o que queremos fazer. Se conseguirmos 5% deles já seria bom o bastante.

Hoje o cenário musical está cada vez mais tomado pela cena independente, como em outras épocas esteve por vários estilos e gêneros musicais. Você acredita em moda ou um fenômeno consolidado, posto que relacionado a outros fatores mais sólidos e definitivos, como o download gratuito de músicas, a divulgação democrática nas redes sociais, etc?
Não há moda em ser independente. Na real esse termo todo é meio batido. Ser independente não é um estilo musical, não é o novo sertanejo universitário. Na verdade esse termo se dá porque independente de qualquer coisa continuamos fazendo o que a gente acredita, exatamente sem se ligar muito em modas, tendências ou afins. Claro que você acompanha a tecnologia, a comunicação com as pessoas no flow da vida, mas no estilo musical e, principalmente, no estilo de vida, é tudo muito parecido de quando a gente começou. Download gratuito e redes sociais também são usados pelo pagode da moda, pelo cantor popular igual (ou até mais).

Há quem afirme que a música independente já atingiu seu auge com a explosão de festivais, selos, editais para o gênero e investimentos privados, mas que agora é ladeira abaixo. A Abrafin, inclusive, já foi pro beleléu. O Fora do Eixo talvez não tenha a mesma força de antes. Como você vislumbra esse cenário para os próximos anos?
Bom, tem quem procure chifre em cabeça de cavalo. Mas na minha experiência pessoal acho que nunca houve tantos festivais, bandas, tours, espaços para se tocar música autoral por ai. Só cresceu. Acho que essa sensação de que não rola mais é de quem viu muitas novidades de uma vez, mas se dá pelo fato de que antes tínhamos muito poucas atividades. Então, não é mais novidade uma cidade anunciar um festival independente. E que bom que agora é assim. A Abrafin acabou para surgirem duas associações/redes enormes de festivais independentes, que são a FBA e a Rede Brasil de Festivais. Enfim, fato é que a música nunca foi tão grande no Brasil e no mundo. E na quantidade é preciso de muita qualidade para sobreviver.

Falta empreendedorismo na música independente? E se falta, a independência não pressupõe o não-vínculo com as leis de mercado? Ou o mercado hoje é virtualmente social?
Falta mais gente empreendendo 100% na música. Vejo muita gente legal dividindo funções com outros trabalhos, o que é natural na lei da vida. Acho que música, muito mais que uma profissão é uma vivência, é um lifestyle. E como disse, independência é você andar pelo caminho que achar que deve, sem se preocupar muito onde vai dar. Se você quiser só jogar o jogo do mercado, está tudo certo, se quiser ter seus conceitos e segui-los, ótimo também. Não tem muita regra (e nem deve ter).

Ed Motta escreveu o seguinte: “Nos dias de hoje, o verdadeiro músico profissional tem que lutar contra muito mais coisas. Pra cada músico que realmente toca um instrumento, estuda, pratica, existem talvez 100 bandas indie com um babaca/indie usando um Fender Jaguar fora do tom tocando terríveis acordes abertos desafinados, com uma cantora bonita cantando melodias ingênuas como uma criança”. Comente, please.
A vida é dura. Pra mim, para cantora desafinada e até para o Ed Motta. Os vinhos que ele toma são caros, eu não posso bebe-los. Cada um fala o que dá conta de arcar! 🙂

Se fala que o rock morreu. E não são apenas guitarras distorcidas, mas a atitude rocker, que talvez nem mesmo o mundo precise mais, ou tenha virado algo caricaturado nos dias de hoje. O Camarones participou do Rock in Rio. Vendo ali de perto, não parece realmente que o rock morreu ou vive apenas feito zumbi na cena independente?
Essa é mais uma daquelas opiniões babacas de gente que acha que o rock no Brasil morreu no Brock dos anos 80 (que é ótimo). Cada um ache o que quiser também, quem sou eu para julgar. Eu vejo muito rock foda por ai, aqui, no Maranhão, na França, Barcelona, Caicó. Tá em todo lugar. Foi legal participar do Rock in Rio. Lá não é muito um lugar para se procurar atitude porque é um evento midiático feito para entreter as pessoas e cumpre muito bem sua função. Mas as coisas do submundo estão ai ainda, olhando a sociedade pela brecha. E vai ter sempre um guri para dar uns berros falando mal de deus e o mundo. Isso nunca vai acabar.

cartaz dosol

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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