Entrevista com a escritora Edwidge Danticat

LUZ SOBRE O HAITI

Em entrevista exclusiva, a premiada autora haitiana Edwidge Danticat fala do seu livro de memórias, lançado agora no Brasil, em que o lirismo não anestesia a indignação

Lúcia Guimarães
Estadão

Diante do título Adeus, Haiti (Agir, 232 págs., R$ 39,90, tradução de Geraldo Galvão Ferraz) – estampado na capa da edição brasileira do livro de memórias da haitiana Edwidge Danticat, que chega às livrarias esta semana – é quase impossível não pensar em desesperança no país trágico. No original em inglês, o título da premiada obra é tirado de um de seus capítulos: Irmão, Estou Morrendo. Nele, Edwidge, de 41 anos, relata duas vidas – ou talvez fosse melhor dizer duas mortes? – que tiveram grande influência sobre ela: a do tio Joseph e a do pai, Mira. Joseph criou a escritora até que ela completasse 12 anos de idade e morreu em 2004 (quando pediu asilo temporário em Miami e agentes da Imigração lhe recusaram assistência médica, provocando, de fato, sua morte). Mira se juntou a Edwidge no bairro nova-iorquino do Brooklyn, em 1981. Ele foi diagnosticado com fibrose pulmonar terminal no mesmo ano da morte de Joseph – “Irmão, estou morrendo”. Ao mesmo tempo, a escritora se descobria grávida de sua primeira filha. A menina ganharia o nome do avô.

O terremoto de janeiro jogou um olhar intenso sobre o país mais pobre do hemisfério ocidental, onde não há acordo ainda sobre o número de mortos, apenas a informação do governo de que 200 mil pessoas foram enterradas. Se a voz do grande romancista transforma o particular em universal, o que faz o escritor diante da enormidade da devastação? No começo de fevereiro, num comovente ensaio publicado na revista New Yorker, Edwidge lembrou a morte do primo Maxo, soterrado pela casa onde ela se hospedava em Porto Príncipe, e mais uma vez demonstrou seu poder de descrever o indescritível com um lirismo que não anestesia a indignação.

A negociação para esta entrevista exclusiva de Edwidge Danticat ao Estado foi conduzida no escritório de uma agência literária em Nova York. Edwidge retornara havia pouco da primeira viagem à sua Porto Príncipe em ruínas. Segundo o agente literário, diante do enorme assédio da mídia para ouvir a romancista que plantou o Haiti no mapa da literatura contemporânea, ele só se comunicava com ela por e-mail. A escritora – que ganhou em 2009 a prestigiada e sobretudo vultosa “bolsa para gênios” da Fundação MacArthur, no valor de US$ 500 mil – mora em Miami com o marido e duas filhas (uma de 5 anos e a outra de 18 meses). Quando recebi a mensagem para discar o número de Edwidge, esperei o pior. Sem contato pessoal, como conversar com fluidez sobre o presente dilacerante de seu país e ao mesmo tempo falar de suas memórias pré-terremoto? Do outro lado da linha, a autora logo me ajudou a entender por que tive a sensação de estar falando com uma conhecida. Contar histórias, lembrou Edwidge Danticat, é um rito de passagem do luto para o que o poeta descreveu como a ordem de viver. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da conversa.

Quantos parentes seus morreram no terremoto?

Perdi quatro pessoas. Meu primo e a filha dele, mais dois parentes em Léogâne, a cidade de onde vem a minha família. Mas tanta gente perdeu tantos parentes que oscilamos entre variações de perda. Formamos esta ligação com estranhos no luto comum. Toda morte é devastadora, claro. Aí você pensa: alguém perdeu 20 parentes? Ah, então eu tive mais sorte. Até agora, ainda há gente tendo mais notícias de morte de parentes ou amigos. Ao menos, os meus mortos tiveram um enterro digno. É tudo tão triste. Pior ainda porque precisamos nos mover rapidamente do drama dos mortos para o drama dos sobreviventes. Outro dia, a minha prima, que tem 22 anos e é muito bonita – nós a apelidamos de Naomi Campbell -, me mandou um torpedo no meio da noite, depois de um tremor. Ela diz que não consegue parar de tremer. “Não sabemos ainda se vamos viver ou morrer”, ela escreveu. Então, há muita incerteza. Vai chegar a estação das chuvas e com ela o medo das enchentes.

Quando você visitou o Haiti depois do terremoto, o que achou dos esforços de socorro dos outros países?

Percebi que muitas ONGs fizeram um grande trabalho, especialmente os voluntários médicos. Mas se você se afasta de Porto Príncipe, vê que chega bem menos ajuda. Hoje falei com um amigo lá e ele estava desconsolado; perguntou: se mandaram dezenas de milhões de dólares para cá, não dava para comprar barracas para todos os desabrigados? Há uma consequência desses desastres que é a chegada de companhias estrangeiras para aproveitar oportunidades de reconstrução. Mas é preciso entender que reconstruir os haitianos é tão importante quanto reconstruir prédios. Já morreram tantos professores, profissionais necessários. E se houver uma emigração em massa dos haitianos educados?

Escrever Adeus, Haiti ajudou a aplacar a dor das suas memórias?

Com certeza. O livro foi como um processo de cicatrização. Ele trata de um tempo de tanta tristeza e confusão… Eu ficava desesperada; simultaneamente triste e raivosa. Foi mesmo como uma terapia. Pude revisitar meu pai e meu tio e organizar as lembranças para passar às minhas filhas. É o problema que todo imigrante enfrenta. Você parte deixando o passado físico para trás. Sua ligação com as pessoas que ficaram é um elo forte na terra nova. Mas quando essas pessoas começam a morrer, parece que estão cortando as raízes sob os seus pés. Assim, eu pude criar algumas raízes para minhas filhas. Há este problema de, hoje em dia, os netos não falarem a língua dos avós. Nós ganhamos muito e perdemos muito quando emigramos.

Você enfrenta essa experiência comum ao imigrante – o país que levamos passa a evoluir dentro de nós e, quando voltamos, há um certo choque entre quem partiu e quem ficou?

É claro. Cada um de nós continua processando o país longe de casa. Cada vez que volto ao Haiti, tomo cuidado para não reduzir a experiência às minhas expectativas. Tento não idealizar ou romancear, mas o fato é que vivo num Haiti e ele é diferente do país que encontro lá. Por isso, quando dizem que a minha escrita representa o Haiti, eu aviso logo: é o meu Haiti pessoal. Mas você deve ter essa mesma sensação. Quando a gente volta, fica tudo muito intenso. Meus parentes riem porque eu insisto em curtir pequenas coisas que têm significado especial para mim.

Os críticos americanos destacam o seu estilo sereno para descrever horrores sem alienar o leitor. Essa qualidade tem origem na sua infância tão rica em narrativas?

Eu acho que sim. A intimidade com a narrativa oral é parte importante da nossa experiência. Há esse senso de comunidade. Eu cresci sabendo que as pessoas à minha volta haviam passado por tanta coisa… Contar as histórias ajudava a aliviar o peso. E isso é uma característica forte do caráter haitiano. Agora, depois do terremoto, o restante do mundo é testemunha dessa qualidade. O povo reza, canta, dança suas histórias. A alegria, que aqui pode ser esperada como algo corriqueiro, lá é mais rara.

A morte trágica do seu tio Joseph, depois de ser detido pela Imigração, nunca lhe provocou um momento de ódio ao país que adotou?

Nunca tive esse momento. Porque sabia que a responsabilidade pelo que aconteceu não era de todo o país. Já havia me envolvido nessa questão da imigração anos antes. Perto dos 25 anos, quando trabalhei em documentário com o diretor Jonathan Demme, nós tentamos atrair apoio para ajudar a situação de imigrantes. Eu conhecia bem o sistema. Depois do 11 de Setembro, as coisas ficaram fora de controle aqui. Todo mundo era suspeito. Houve uma erosão das liberdades civis com o Ato Patriótico. Não culpei o país todo, mas para o meu pai, quando conversamos, ele viu a morte do meu tio como um ato de rejeição total. Ficou muito machucado. Acho que a imigração deve ser um processo de integração gradual, quando você pertence mais e mais. Com a morte do meu tio, eu questionei se pertencia tanto a este país quanto pensava. Concluí que não. Mas eu nunca tive o impulso de generalizar a minha indignação contra o Serviço de Imigração americano. Sei que o comportamento deles refletiu o momento. De repente, todo mundo era “o outro”.

O que acha do uso frequente da palavra “vodu” nos Estados Unidos para descrever a cultura haitiana?

Ah, isso nos incomoda muito. Você não usaria uma palavra chula para se referir casualmente ao catolicismo. A gente reclama, escreve cartas para os jornais: por que vocês não usam outra palavra? E virou uma muleta verbal – vodu economics, vodu politics. Até jornais importantes como o New York Times caem nesse padrão de linguagem. E eu digo, lutem contra o spell checker, pelo menos soletrem a palavra direito: é vodu. Acho que há uma resistência cultural para reconhecer o que é uma prática religiosa. Quando o tele-evangelista Pat Robertson atribuiu o terremoto a uma maldição contra o Haiti, ele estava expressando um estereótipo terrível. O meu amigo Richard Morse, o gerente do hotel Oloffson em Porto Príncipe, perguntou pelo Twitter, depois do último terremoto: será que vão encontrar vodu no Chile e no Japão? Acho que as pessoas esperam por uma oportunidade para confirmar preconceitos.

Sua carreira literária coincidiu com a emergência de vozes imigrantes na literatura de língua inglesa. Ruth Franklin, editora da revista New Republic, fez um balanço da última década e disse que o conceito de literatura americana foi transformado por autores como você, o dominicano Junot Diaz e a inglesa de origem indiana Jhumpa Lahiri.

Não quero soar como oportunista e dizer que fui beneficiada por uma onda de um gênero de ficção! Mas veja, não somos a primeira geração. Outros, como a mexicana Julia Alvarez, e Jamaica Kincaid, de Antígua, vieram antes. Este momento está sendo construído há algum tempo. Acho que Amy Tan, autora de O Clube da Felicidade e da Sorte, de 1989, foi um marco de sucesso da nova literatura em língua inglesa sobre a experiência imigrante. Então, outros abriram caminho para nós. Mesmo se levamos em conta, no meu caso, que há mais de 1 milhão de haitianos vivendo nos Estados Unidos, existe também esta grande oportunidade de sermos lidos pelo mainstream da cultura americana. Não havia isso 20 anos atrás. E sinto também muita alegria de ser lida por pessoas da geração seguinte. Temos, aqui, a geração de imigrantes que não lê em creole nem em francês. Porém, quando encontro a garotada nas universidades, detecto tanto orgulho… Eles formam clubes de leitura, grupos de identificação cultural. E isso é um fenômeno dos anos de universidade; há esse despertar. Os estudantes aprendem sobre outras culturas e dizem: “Espere aí, de onde eu venho há muito o que reconhecer e celebrar.” Não estou segura de que eles vão preservar a cultura. Depois do terremoto, já fui falar em duas universidades e existe um sentimento forte de preservação. Afinal, agora, há enorme destruição física, de modo que o sentimento coletivo de perda aumentou muito.

Quando você ganhou a chamada “bolsa para gênios” da Fundação MacArthur, em 2009, sua reação foi considerar a honraria um instrumento de liberdade.

Eu sempre quis ampliar os horizontes da escrita. Explorar literatura infantil, outros gêneros. Em setembro, sairá uma coleção minha de ensaios que estou escrevendo há vários anos. O último vai ser sobre o terremoto de janeiro no Haiti. O título é Create Dangerously: The Immigrant Artist at Work. O título alude à famosa palestra do Camus sobre os riscos enfrentados na criatividade. O livro lida com a premissa de ser artista e com a relação das pessoas com a sua origem. Quando se vem de um lugar como o Haiti, depois de testemunhar tanta devastação, a decisão de ser artista vem com a obrigação de ser produtiva. Não posso ficar relaxando em casa e me bastando com a convicção de ser artista.

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