Entrevista com Carlos Reis

Por Francisco Francerle
Diário de Natal

O professor universitário Carlos Reis, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em entrevista ao DN, analisou as literaturas lusófonas e a circulação da produção literária entre os países de língua portuguesa. E criticou a taxação fiscal, os direitos autorais e os grandes impostos na produção de livros e, ainda, defende a criação de programas culturais em comum entre os países como forma de estimular a produção literária. Reis é especialista em literatura portuguesa dos séculos XIX e XX e em Teoria da Narrativa. Ele participará do 1º Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal, no Teatro Alberto Maranhão, de 28 a 30 próximos.

Como analisa a linguagem da literatura lusófona?

É aceito hoje que a língua portuguesa não é só língua vernácula que é a língua que se fala em Portugal, a nossa casa de origem e que isso não é um critério de qualidade nem de valor. As línguas de João Ubaldo Ribeiro, de Luís Cardoso e de José Eduardo Agualusa, por exemplo, têm muito a ver com a vibração do espaço em que existem, daquilo que representam, das realidades que contam, da memória popular que integram nos seus relatos. Nesse ponto de vista, as literaturas de línguas portuguesas, chamadas de lusófonas, vivem nessa espécie de vai e vem entre uma língua que é comum e fenômenos de linguagens que se cultivam.

E os portugueses, como vocês vêem a literária brasileira?

Tem muito a ver com imagens que passam na mídia, algumas delas distorcendo a realidade do Brasil, um país que é quase um continente. Basta dizer que há 30 anos o conhecimento sobre Jorge Amado no grande público vinha apenas da televisão e das telenovelas.

Que obstáculos citaria para a circulação literária entre os dois países?

Não se pode admitir que a distribuição do livro literário, científico e cultural tenha uma taxação fiscal e impostos altíssimos de tal forma que o que se gasta para editar um livro seja maior do que seu preço. Ao mesmo tempo, é importante também que os textos dos autores sejam inseridos nos programas culturais. E que em cada país (Brasil e Portugal) haja programas de interesses conjuntos para editar ao mesmo tempo e sem custos significativos a fim de estimular esse tipo de trabalho.

O acordo ortográfico pode contribuir na melhoria dessa realidade?

Sim, eu creio que o tão difícil acordo ortográfico em Portugal será um bom fator de circulação das literaturas de cada país vencendo muitos obstáculos. Afinal, a circulação do livro é alguma coisa que deveria ser planejada entre os dois países, porque por aí passa o conhecimento dos escritores.

Como vê o avanço das novas tecnologias incidindo na produção literária?

A relação entre as chamadas tecnologias da informação e da comunicação eletrônica está a criar fenômenos curiosos bem diferentes do que conhecíamos há 20 ou 30 anos e viabilizam hoje muito mais a publicação de jovens escritores. Não que a aceitação por uma editora não seja interessante, mas ela passa antes por esses canais.

A quantidade de informações faz o estudante ler mais?

Não sei se está lendo mais, mas, com certeza, não está lendo como eu lia quando era estudante. O jovem atual lê ao mesmo tempo em que escuta música, vê um vídeo que está no Yotube, utiliza vários meios de acesso à informação, tornando-se mais um gestor de informações que lhe chegam em formas e linguagens diferentes do que qualquer outra coisa.

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