Entrevista com Dominguinhos

Publicada na revista CONTEXTO
O HERDEIRO DO REI

Logo aos 16 anos, três depois de conhecer Luiz Gonzaga, José Domingos de Morais, o Dominguinhos, foi proclamado, na imprensa, pelo próprio Rei, como o seu herdeiro musical. 23 anos depois da morte da morte de Gonzaga, ele relembra como tudo começou e como foi viver 35 anos ao lado do maior ídolo nordestino de todos os tempos que, se fosse vivo completaria 100 anos. Nascido em Garanhuns (PE), o herdeiro do forró autêntico de raiz, hoje com 71 anos, fala ainda sobre a evolução do estilo nordestino e da interferência das bandas eletrônicas no forró brasileiro.

CONTEXTO – QUANDO topou pela primeira vez com Luiz Gonzaga?

DOMINGUINHOS – Deixe eu dizer do início: Quando eu conheci Luiz Gonzaga em Garanhuns (PE), que é minha terra, eu conheci Luiz Gonzaga com meus dois irmãos: Morais (que é falecido aos 57 anos em Salvador/BA) que era o sanfoneiro que tocada oito baixos, eu tocava pandeiro, e meu outro irmão Valdomiro, que era o mais novo, tocava um instrumento que meu pai fazia que chamava “melê”. E, num dia, lá em Garanhuns, a gente estava tocando na porta do Hotel Tavares Correia – e nós não podíamos ultrapassar o portão, aquela coisa de hospedes… – pois bem: aí, naquele dia, nos puseram para tocar lá dentro, no salão, para algumas pessoas, e, entre essas pessoas, estava Luiz Gonzaga, essa figura. Eu tinha oito anos de idade e meu irmão Morais tinha dez, o Valdomiro tinha seis anos, já tocando no melê. Aí, nós tocamos para aquele cidadão, mais umas dez pessoas, que estavam numa mesa grande. Aí ele meteu a mão no bolso e tirou um bolo de dinheiro e entregou a meu irmão, que era o mais velhinho, e, o mais importante de tudo: mandou alguém escrever o endereço dele do Rio de Janeiro que, se um dia, a gente pendesse pra lá, ele ia nos ajudar. Foi assim que eu conheci Luiz Gonzaga sem saber quem ele era. Porque, eu tou com 71 anos, você veja bem há quantos anos isso aconteceu?

 C – E O SR. já conhecia ou tinha ouvido falar em Luiz Gonzaga?

D – EU NÃO sabia quem era Luiz Gonzaga, quem era Carlos Galhardo, quem era Ângela Maria, Nelson Gonçalves, nem Orlando Silva que era mais velho. Eu só escutava algumas coisas nos alto-falantes. Quem tinha um rádio escutava muito as emissoras, quem podia ter um rádio, e nós não podíamos, porque éramos uma família grande: minha mãe teve 16 filhos, morreram alguns logos…

C – E DEPOIS de topar com o rei, o que foi que aconteceu?

D – Bom, nesse mesmo dia, apareceu uma senhora chamada Amerinda, dona de um colégio aqui em Olinda, Pernambuco. Aí perguntou: “vocês estudam?” “Não senhora”. “E vocês querem estudar em Olinda, Recife, Pernambuco?” “A senhora fala com meu pai…” Aí levamos ela para conversar com pai e mãe e os dois aprovaram a ida da gente pra ficar interno, no colégio chamado Escola Prática Comercial de Olinda. Lá, era externo e internado. Nós ficamos internos. Eu passei, junto com meus irmãos, quatro anos. Chegamos lá, ganhamos uma sanfona do dono da Rádio Globo de Pernambuco, Dr. Arnaldo Moreira Pinto, de 48 baixos. Meu irmão (Morais) começou a tocar e “desarnou” logo. Depois foi a minha vez e, assim, ficamos quatro anos. Aí, ela virou empresária da gente. Ela dava o estudo, mas a gente fazia programa na Rádio Clube de Pernambuco, na Rádio Jornal do Comércio, nas emissoras todas daquela época. Ganhávamos prêmio e tudo. Tocávamos nas festas dos meninos mais ricos. Mas era uma época da palmatória. A Palmatória comia solta. Qualquer errinho da gente, a gente apanhava: hora de palmatória, hora de rebenque, de corda, com o que quisessem bater. A professora mesmo batia na gente. E aí, ela vestia a gente muito bem vestidinhos, vendia a gente nas festas dos meninos mais ricos, de aniversário, e a gente ia deixando ali e ela não fazia conta de nada, de dinheiro nem de coisa nenhuma, nem ela nunca mandou ajuda pro meu pai nem pra minha mãe. Nem notícia dava! Aí, quando foi um dia, nós fomos na casa do Arnaldo Moreia Pinto e Morais aprendeu o caminho. Aí, pelo menos uma vez por semana, ia bater na casa dele. Quando foi um dia o homem se incomodou: “Ô meu filho, você não está em horário de colégio?” “Tou, mas tão batendo na gente”. Pronto, foi o suficiente para seu Arnaldo mandar fazer uma sindicância. Porque, em todo tempo da vida é proibido bater em criança, ninguém nunca ligou porque todo pai dava “um corretivo”, mas, bater em criança e ainda dos outros, é um negócio muito sério em qualquer época da vida. Aí o que sobrou pra nós? A expulsão. “Vocês vão embora pra Garanhuns que não quero mais saber de vocês aqui!”. Ela ficou com a sanfona e ficou com todas as roupas. Nós voltamos com a roupinha do couro. Acho que até pior de que quando a gente veio. A viagem para Garanhuns, 230 km de Recife, era muito difícil, levava 24h e, quando chovia, era ainda pior. Não tinha estrada. Nós chegamos em Garanhuns a boquinha da noite. Fomos pra casa que era ali no Arraial, aí meu pai e minha mãe quando nos viram disseram: “Meu Deus o que vocês estão fazendo aqui, vocês fugiram?” “Não, a mulher expulsou a gente”. Pai era calado, pensador – minha mãe também – não tomaram nenhuma providência, não quiseram saber. Nós contamos a nossa história e eles aceitaram.

C – QUEM DESCOBRIU que vocês tinham o dom da música

D – QUEM DESCOBRIU que a gente podia ganhar um dinheirinho tocando na feira foi minha mãe, num foi nem meu pai que era tocador. Ele era um tocador dos melhores de oito baixos. Afinava a sanfona de todo mundo, era conhecidíssimo, tocava em toda festa, e não ia levar os filhos dele para tocar em batente de hotel, nem em feira. Mas minha mãe tinha muitos filhos e não queria que passassem necessidade; que ela mesma trabalhava numa padaria e trazia, no final da noite, aqueles pães dormidos que a gente chamava de “marroque”. Fazia um bule de café nas trempes, a gente molhava o pãozinho duro no café e comia, porque nordestino sempre ceia. E assim, minha mãe foi quem descobriu, num dia de sábado, na feira de Garanhuns, que podia ganhar um dinheirinho com a gente tocando honestamente. Aí meu pai se aproveitou disso, daí, em nossa volta (de Olinda) quatro anos depois, começou a rodar com a gente no estado de Alagoas, porque Garanhuns fica quase na divisa Alagoas.

 C – E QUANDO vocês voltaram a encontrar com Luiz Gonzaga?

D – MEU PAI já tinha o endereço de Luiz Gonzaga desde aquele tempo. O que é que ele disse: “Vamo simbora pro Rio de Janeiro, vamo procurar Luiz Gonzaga”. O Morais, meu irmão mais velho, tinha arranjado um amigo, que era migo do meu pai, que foi pra o Rio de Janeiro, pra Nilópoles, e carregou Morais, e Morais já estava lá há um ano. E, assim, a gente foi ver como estava a vida dele. E aí ele (o pai) levou nós dois num pau-de-arara. Foram 11 dias de viagem num caminhão velho. Chegamos, Getúlio (Vargas) ainda era o presidente – foi antes dele se matar – isso foi em 1954. O que é que acontece: Morais (risos) morava numa tinturaria e, nós, fomos pra lá pensando que ele estava numa casa, mas era uma tinturaria (risos), onde trabalhava, lavava roupa, coisa que eu passei a fazer depois, andando lá em Nilópoles, pra cima e pra baixo entregando roupa. Aí, no outro dia, porque ninguém dormiu quase nada, pai disse: vamos procurar Luiz Gonzaga. Chegamos na casa dele – não sei que sorte foi aquela – que o homem tava. Ele viajava demais, mas naquele dia estava em cada (risos). Aí nos conheceu: “Oh, vocês são aqueles meninos de Garanhuns”. Aí, perguntou o nome de pai: “É Francisco”. “Senta aqui”. Aí meu pai sentou e ele foi lá dentro e veio com uma sanfoninha de 80 baixos e entregou a pai. No mesmo minuto! num deu tempo nem da gente pedir um copo de água! Ora meu irmão, era tudo que a gente precisava! Nós não tínhamos nada, só o bisaco de botar umas bermudinhas. Aí depois, nós fomos embora e eu marquei onde era a casa de Gonzaga. No outro dia eu tava lá, no outro dia eu tava lá, no outro dia eu tava lá: feito a cantiga da perua (risos). E ele se acostumou comigo.

C – E COMO ERA a rotina de Luiz Gonzaga

D – ELE CANTAVA muito ensaiando as letras das músicas. Ele tinha um conjunto bom, com Marinêz, a rainha do xaxado, já falecida, o marido dela, Abdias, que era um grande sanfoneiro de oito baixos. Zito Borborema e Miudinho, que era o zabumbeiro. Estou lhe contando do início pra você ver que eu, com 13 anos de idade, comecei essa amizade com Gonzaga e foi até o fim da vida. Ele me levava pra gravadora (RCE), me levava por tudo quanto era canto que ele tinha amigos e me apresentava. Porque, naquela época, 1955, 1956, eram aqueles discos de 78 rotações (RPM): uma música de um lado e outra do outro. E ele, quando tinha música boa, arregimentava o regional e ia pra lá, gravar aquelas duas músicas.

C – E QUANTO foi que o Sr. participou de uma primeira gravação de um disco de Luiz Gonzaga?

D – EM 1956. Eu fui mais uma vez com ele para a gravação, foi quando ele gravou Forró no Escuro (canta um pedaço). Ele “tava” lançando essa moda e me botou para tocar, pela primeira vez, na companhia dele. Eu tava com 16 anos – pra você ver a sorte quando marca um é pra não perde de vista – e eu não fazia feio. Aí a imprensa tinha ido para ver o lançamento de uma nova música e falar sobre os novos sucessos de Luiz Gonzaga. Foi a revista Radiolândia, na época, que fez a reportagem. E ele foi e aproveitou a reportagem e me apresentou como “herdeiro artístico dele”. Aí a revista fez duas páginas comigo, ele me apresentando: “Esse cabra da peste é meu herdeiro artístico”. Agora pra tu ver, eu não sabia nem o que era isso. (risos) E a minha vida com Gonzaga foi assim.

C – COMO ERA o relacionamento de Gonzaga com os músicos?

Ele não acertava cachê. Eu mesmo toquei muito com ele e, quando terminava, ele me dava um bolo de dinheiro que correspondia a tudo que eu tinha feito. Era assim e eu nunca vi Miudinho, nem Zito, nem Marinêz, nem Abdias, abrir o bico para dizer qualquer besteira sobre Gonzaga. Eles viviam felizes, tocavam felizes e Gonzaga era um pai de família muito bom, um amigo que eles podiam contar; era uma pessoa de mão aberta que se amedrontava com pouca coisa.

 C – COMO Luiz Gonzaga ajudava a família dele?

D – AS IRMÃS, os irmãos, quem morava lá no Rio de Janeiro morava em Santa Cruz, que era onde vivia a família dele. Ele comprou um terreno muito grande e a família toda morava lá. E eu ia nos domingos e nos sábados que eu tava à toa, e tocava com Zé Gonzaga a tarde todinha; com Chinoca, que é um amigo meu que já está com uns 82 anos e é meu vizinho lá no Rio, quando eu morava lá, porque eu fugi para São Paulo, fui morar em São Paulo. Essa família foi toda ajeitada pelo irmão. Então, tudo que eles tinham deviam a Gonzaga, sem dúvida nenhuma! Quando ele comprou as terras do Exu, um dia, ele dividiu essas terras todinhas – ainda novo. Ele mandou dividir as terras, perto da serra. Todo irmão ganhou um pedaço. Ele tinha umas encrencas bestas com Zé Gonzaga (risos), porque era muito atirado, brincalhão e falava muito e ele não gostava muito das tiradas do Zé, e ele se esqueceu dele. Aí Wilson, que era um cunhado dele, disse assim: “Gonzaga você está sendo injusto”. E ele perguntou: “Em que?” Ele disse: “Você não tá vendo que tá faltando uma pessoa?” Aí ele disse: “Quem, Zé Gonzaga?” (gargalhada) “Então você vai lá naquele pé de serra, lá aonde a água nem chega e dá o pedaço dele e ele que se vire”. (gargalhada) Foi como uma gozação, uma coisa premeditada. Ele sabia que Wilson ia ser contra, porque era quem estava fazendo a conta da divisão.

C – NO FILME “Gonzaga – De pai pra filho”, Gonzaga aparece muito ausente da família por causa dos shows, sobretudo das mulheres com quem conviveu. Era isso mesmo ou esse é um comportamento típico de artistas, ou mesmo de nordestinos?

D – RAPAZ, o distanciamento do nordestino é muito natural, porque, ele mesmo levou aquela surra (de sua mãe Santana, em 1930, quando ela descobriu que ele peitou o comerciante Raimundo Deolindo, que não o queria para genro e ameaçou-o de morte) e desabou no mundo pra virar Luiz Gonzaga, e voltou 16 anos depois, como ele conta, pra casa e voltou já como um grande astro da música. Esse distanciamento que acontece com a maioria dos nordestinos e gente do Norte que procura o Sul do País, o Sudeste, pra ver se melhora uma coisinha e vai ficando e, quando dá fé, já tem 30 anos que mora em São Paulo e Rio de Janeiro e não consegue voltar porque não melhorou de vida. Conquistou um “quixózinho” ali nos bairros mais distantes para morar com a família e ele não quer voltar de qualquer jeito e vai ficando. Aí, isso soa como um distanciamento da família, mas não é verdadeiro. As pessoas se comunicam direto, ficam se falando, hoje em dia com muito mais facilidade. Gonzaga ficou distante o suficiente para depois mandar buscar todo mundo pro Rio de Janeiro. Botou os irmãos tudinho para morar em terra dele, com suas casinhas, com suas coisas. E eu sou testemunha. Agora, a questão de casamento era uma coisa muito difícil, porque ele viajava muito e dona Helena (a esposa) ficava muito só. Mas ele voltava sempre. Eu mesmo ia com ele e a gente fazia a temporada toda que tinha que fazer e voltava pra casa.

C – LUIZ falava de seu passado, de sua vida particular, de seus amores de infância ou mesmo de Gonzaguinha?

D – PELO MENOS para mim ele era muito fechado pra essas histórias. Você sabe que existe um detalhe no nordestino mais antigo dos mais novos não questionarem coisa nenhuma. A gente tinha vergonha de fazer pergunta, viajava o tempo todo calado. Mas eu sei que Gonzaguinha morava lá no morro de São Carlos e depois foi morar com ele (Gonzaga). Eu sei que eu tinha de 13 pra 14 anos e estava vendo Gonzaguinha todo dia lá dentro da casa comendo bolacha e tocando violão. Aí o Gonzaga dizia: “Tá vendo?”. Olha só: a gente chegava da fazenda de Miguel Ferreira com o carro cheio de frutas, aí eu começava a tirar as coisas, Toinho, o zabumbeiro também, e todo mundo tirando as coisas e Gonzaguinha comendo bolacha e tocando violão. “Você tá vendo? Tem jeito não!”, Gonzaga só dizia isso (risos).

 C – É VERDADE que Luiz foi o primeiro a gravar músicas de Gonzaguinha?

D – QUANDO ele notou que Gonzaguinha já era um compositor e fez algumas músicas bonitas, como alguns maracatus, ele foi para o estúdio com o regional, comigo e todo mundo, e gravou umas quatro músicas (Na verdade foram duas) de Gonzaguinha naquele disco “Festa”. Ele foi o primeiro a gravar Gonzaguinha. Ele fez aquele disco e a gente passou a noite todinha gravando no estúdio de “Evaí” na Central do Brasil. E esse disco começou a abrir as portas para Gonzaguinha. Ele fez isso sem dizer nada pra ninguém. Ele foi gravando que tudo que ele gravava ficava bonito. Depois Gonzaguinha foi se ajeitando com ele, arengava aqui e ali, e ele cortava o dinheiro que ele dava para pagar a faculdade. Quando Gonzaguinha “mijava fora do penico” aí ele “pá!” cortava (o dinheiro). Aí depois, quando ele (Gonzaguinha) melhorava, ele (Luiz) afrouxava de novo. Fazia tudo que um pai deve fazer. Depois, Gonzaguinha se chegou mais, teve aquela fase de comunismo, de esquerda, ficou tuberculoso… Gonzaga falou numa ocasião em que estava com ele: “Ó, você é muito magrinho, você não tem corpo para aguentar o rojão não, viu! Tome cuidado. Mas não tem nada não, eu vou lá de vez em quando levar um cigarrinho pra você” (gargalhada).

C – QUAIS eram as fragilidades de Luiz Gonzaga?

Ele tinha uma fragilidade nos rompantes. Isso, às vezes, atrapalhava muita coisa. Porque ele tomava umas medidas, assim, muito apertadas, e depois, se a pessoa morasse longe, levava dias pra ele pedir desculpas, etc. Agora, se morasse perto, não demorava dez minutos que ele pedia desculpas. Isso é uma coisa de nordestino, mas era uma fragilidade que ele tinha. Eu mesmo levei muito grito dele, fiquei calado e fui vencendo, porque, como diz o malandro, “bom cabrito não berra”. (gargalhada). Quando eu casei (1958) eu tinha 17 anos. Janete estava grávida e eu fui comunicar a ele. Aí eu cheguei e disse: “Seu Luiz eu queria falar com o Sr”. “Que é? Pode falar meu filho!” “Seu Luiz eu vou ter de casar”. Ah, rapaz, foi mesmo que ter dado um tapa nele. Ele me deu um grito: “O que que você tá me contando rapaz! Você é doido, é? Você não é doido que eu sei, eu lhe conheço! Que história de casar é essa “Domingos?” Eu digo: “Seu Luiz, Janete está gravida”. “Mas isso lá é motivo de você casar? Você espere, você é um menino. Eu casei com 34 anos e quase não caso, como é que você vai casar com 17, você é doido? Você é um artista, rapaz! Você não pode fazer uma coisa dessas. Vá simbora que não quero mais lhe ver aqui, desapareça!”. Olhe aí o rompante. Aí eu fui embora. Veja bem: dias depois, ele me procurou e disse: “Quando vai ser o casamento que eu quero ser o padrinho” (gargalhada). Eu fui passar a lua de mel lá na fazenda dele (risos). Então ele tinha essa fragilidade.

C – O SENHOR é do tempo do Trio Mossoró? Conheceu seus integrantes?

D – O OSÉIAS Lopes (hoje Carlos André) eu conheci lá no Rio de Janeiro, do Trio Mossoró: João Mossoró e Hermelinda. Eu gravei muitos discos produzidos por Bastinho (Calixto) que por aqui vivia com Hermelinda. O Oséias produziu cinco discos de Luiz Gonzaga e eu toquei em todos eles.

C – O SR. É HOJE um dos maiores músicos do Brasil, com uma das maiores sensibilidades auditivas e musicais. De onde surgiu isso?

D – EU DEI muita sorte porque, além de tocar com Gonzaga, eu tocava na rádio e isso aguçava muito o meu ouvido: acompanhando calouros que nem davam o tom já entravam cantando e a gente saia procurando. Toquei em boate, toquei em dance, tive conjunto de baile, tudo como Neném do Acordeom (primeiro nome artístico). Então, isso me ajudou, porque eu peguei várias épocas: bossa-nova, peguei a época do Gil, da Gal, dos Novos Baianos, essas coisas todas. Fui músico da noite, então, músico da noite aprende muita coisa e a tocar em todos os idiomas. E eu fui desses músicos que, além de tocar com Luiz Gonzaga, que eu nunca abandonei, eu tocava moderno, tocava acompanhando todo mundo. Aí já conheci Sivuca, já conheci Chiquinho do Acordeom que tocava comigo na Rádio Nacional, porque eu tocava lá também (gargalhada). Eu me virava de tudo quanto era lado: eu tinha dois “bacurinzinho”, né? (risos). Aí eu tinha de me virar. Na Rádio Nacional era o regional de Décio Santana, na Rádio Tupy era de Rogério Guimarães. E tinha também o regional de Arlindo. Tinha o Arlindo branco e o Arlindo Preto (gargalhada). Aí eu tocava com eles todos, era uma miscelânea danada e isso foi fazendo a minha música. Fui participando de tudo e, graças a Deus, nunca deixei a peteca cair.

C – MUITOS artistas se opõem ao chamado “forró eletrônico”, tocado por essas bandas que fazem sucesso hoje, quase todas do Ceará. O que o Sr. pensa dessa nova música tocada pelo povo do Nordeste?

D – AQUILO ALI tem o lado bom. Eu vejo aquilo ali como um momento de lucidez, porque alguém tinha de fazer alguma coisa para dar uma sacudida na música nordestina. Exatamente Emanuel Gurgel formou as primeiras bandas no Ceará, conseguiu esse furo: o novo forró. Desde que eles começaram, nós sabemos que nenhuma banda toca forró, por que, um forró depende de um triângulo e um zabumba, pode ter bateria, pode ter guitarra, pode ter piano, o que quiser, mas se não tiver o zabumba e o triângulo para tocar redondo, não vai dizer que é forro que não é, é uma invenção. Mas eles, através dessa sacada do Emanuel, deram um chute muito grande e esse chute atravessou o mundo. A música nordestina muito parada despertou.

C – QUAIS FORAM os prejuízos dessa música para os sanfoneiros de raíz?

D – OS SANFONEIROS perderam espaço. Todos nós fomos tolhidos porque as bandas faziam um show-baile. Eles botavam dois bateristas, quatro cantores, dois guitarristas, tudo em dobro desde que começava até às 4h da manhã. Eu toquei muito no Ceará, no Rio Grande do Norte, no Piauí, aí as portas se fecharam. Por quê? Quando as bandas iam tocar numa festa, a meia noite era a hora do artista. Aí a banda parava, ia descansar, tomar e comer um negocinho e o artista fazia, por volta de uma hora, o seu show. As bandas tomaram conta de tudo e não foi mais possível artista nenhum fazer show porque comandavam a noite toda e o dono da festa pagava um cachê só. Isso aí foi uma coisa muito ruim para nós, integrantes da música nordestina de raiz, porque eu só tocava, naquela época, com zabumba, triângulo e pandeiro. Era um trio. Daí uma banda daquelas com trombone, com pistão, com isso e com aquilo, e a gente éramos três gatos pingados, você imagine a diferença de som. E, muitas vezes, o som era do cara da banda que ficava fazendo maldade: tirava o som, deixava baixinho. Isso aí, até o Flávio José já passou em épocas mais perto agora, Já famoso como é.

C – E COMO foi que surgiu o fenômeno do Forró Universitário?

D – Então isso (o aparecimento das bandas de forró eletrônico) fez com que a gente desse uma sacudida. Apareceram os meninos de São Paulo. O Tato, do Falamansa, ficava por ali. O Paulinho, do Canto da Ema, que é um dono de forró muito amigo meu lá de São Paulo, dizia: “Dominguinhos, num dá pra você deixar o Tato dar uma canjinha aí?” e eu dizia: “Dá o que que tem, pode mandar ele subir”. Ele dava o tom ali em cima comigo, cantava algumas musiquinhas. Mas eles iam lá, tudo garoto bonito, novo, iam tudo ali, acho que pra arrumar namorada (risos). Durante a festa tinha muita garota bonita e eles faziam mais uma farra entre eles e eu botava eles pra cantar. Depois virou o Falamansa e aí estourou. Começou a fazer muito sucesso. Aí eu vim uma viagem aqui pra Recife e, conversando com alguns jornalistas, eu disse pra eles: “Olhe, nós vamos passar uma vergonha danada, porque, hora dessas, vocês vão escutar falar do Forró Universitário lá em São Paulo, que é o nosso pé-de-serra, não tem diferença, mas São Paulo botando esse forró acima da média e, nós aqui, vamos passar em baixo mais uma vez. Que vocês não estão ligando pra música nordestina. Vocês estão ligando pra música de tudo quanto é canto, menos pra música nordestina. Vão dizer que lá em São Paulo estão fazendo o novo forró nordestino”.

C – TODOS nós vimos esse fenômeno, mas isso foi de alguma valia pra o forró raiz?

D – ISSO aí aconteceu e foi bom demais e aí, despertou o forró pé-de-serra de novo e, todo mundo, começou a arengar e as bandas começaram a dizer que eram banda de forró tal: Matruz Com Leite, Forró Aquários e inventaram mil e uma bandas. Aí pronto. Eles foram benéficos pra nós. Então eu não fico com raiva deles (forró eletrônico) porque ali dentro tem muito músico bom que toca para ganhar o seu sustento. Tá entendendo meu irmão? Então eles ajudaram a gente e ajudam até hoje, e estão aí dizendo que tocam forró e a gente sabe que não toca, mas vamos levando tudo irmanados e vai dando certo.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Tácito Costa 18 de setembro de 2013 11:18

    Esta entrevista foi publicada na edição de dezembro/2012 da revista Contexto, de Mossoró-RN, muito bem editada pelo Paiva. Portanto, Dominguinhos ainda estava vivo. Ontem (17) o meu chefe aqui na Assessoria de Imprensa encaminhou-me umas revistas que estavam na mesa dele, todas sobre jornalismo empresarial, e no meio delas veio a Contexto. Li a entrevista, gostei muito, e pedi ao Paiva pra enviá-la para o SP. A revista, por sua qualidade, precisa urgentemente ser disponibilizada para download, um tempo atrás já falei isso. Agilize esse negócio aí Paiva! rs.

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