Entrevista com Eduardo Mendoza

Por Fabio Victor
FSP

O escritor espanhol Eduardo Mendoza é ateu. E um estudioso das religiões. “Para se estudar a vida dos insetos não se pode ser um inseto. Podem estudar melhor as religiões os que não temos crença”, explica. Conhecer o tema foi fundamental na criação do personagem satírico (e hilário) de “A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato”, romance lançado no Brasil pela editora Planeta.

Flato, um romano do século 1º, corre o mundo em busca de águas milagrosas que proporcionam sabedoria a quem as bebe. Mas tudo que adquire ao provar todas as águas que encontra pelo caminho são gases, muitos gases.

Vai dar na Palestina ocupada pelos romanos e é contratado por um garoto para ajudar a desvendar um crime atribuído ao pai dele, o carpinteiro José.

O menino, Jesus, “rubicundo”, “bochechudo” e com “orelhas de abano”, vira assistente de Pompônio na investigação e dele até leva uns cascudos. Para escrever o livro, o catalão Mendoza, 67, valeu-se da Bíblia, de Plínio, o Velho e variados autores greco-romanos, mas principalmente de “A Guerra dos Judeus”, de Flavio Josefo (séc. 1º).

“É um grande livro, escrito por um judeu que se sublevou contra os romanos, foi feito prisioneiro e decidiu passar para o lado romano. É um traidor, e gosto muito dos traidores”, disse o autor em entrevista à Folha, por telefone.

Mendoza é o chamado “escritor de escritores”: admirado pelos pares, mas sem grande sucesso de público. Foi ou é prestigiado por gente como Roberto Bolaño (1953-2003), Ricardo Piglia e Fernando Savater. Este último, seu amigo, comparou “Pompônio” aos romances detetivescos do inglês G.K. Chesterton (1874-1936).

De fato, a sátira inteligente, o sarcasmo, as paródias de humor fino são o forte de Mendoza, que no entanto tem também romances ditos sérios, como “A Cidade dos Prodígios”, único outro título lançado no Brasil, nos anos 80, mas hoje fora de catálogo.

Tão ou mais burlesco que “Pompônio” é “Sin Noticias de Gurb”, publicado originalmente como folhetim no jornal “El País”, que narra os infortúnios de um ET que sai à procura de um colega alienígena perdido numa Barcelona às portas da Olimpíada de 1992.

O autor defende que, apesar de subestimada na largada, a literatura satírica por fim prevalece -cita Cervantes, Joyce, Kafka e Beckett. Ex-tradutor da ONU que por nove anos intermediou conversas de líderes mundiais, sabe também que toda piada oculta verdades inconvenientes.

Avalia que mesmo seu último trabalho é “um pouco triste, porque o protagonista, esse pobre Pompônio, (…) vê que seu mundo, o mundo clássico, da ciência, da filosofia, está desaparecendo, e que virá outro movimento religioso que acabará com a cultura clássica”. Reconhecido na Espanha, resigna-se em ser quase ignorado no Brasil e outros países. Crê que os elementos humorísticos tornam difíceis as traduções.

Entrevistá-lo é tão divertido e enriquecedor quanto ler seus livros. A todo instante surge um “insight”. Questionado se teve problemas com a Igreja Católica por causa de “Pompônio”, diz: “Não, tinha esperança de que acontecesse algo, o que me daria publicidade, mas não, na melhor das hipóteses me excomungaram e eu não sei”.

Depois, a sério, conta que até uma uma revista católica progressista espanhola recomendou o livro. “As figuras religiosas não são tratadas com falta de respeito. Os judeus sim, os romanos também, mas as figuras individuais, Jesus, Maria, José são tratados com carinho, porque creio que já são como personagens de nossa pequena mitologia.”

ENTREVISTA

Folha – Além de Plínio, o Velho, e da Bíblia, qual foi sua inspiração para escrever “Pompônio Flato”?

Eduardo Mendoza – Um livro que li muitas vezes, porque gosto muito, é “A Guerra dos Judeus”, de Flavio Josefo. É um grande livro, escrito por um judeu que se sublevou contra os romanos e foi feito prisioneiro e logo decidiu passar para o lado romano. É um traidor, e gosto muito dos traidores.

Folha – Li que você escreveu o livro de forma rápida, nas férias, para se distrair. Como ocorreu?

Mendoza – Eu estava escrevendo outro livro maior, difícil, e não saía. Era verão e fui passar uns dias na casa de uns amigos. Nada me agradava, estava aborrecido, então me ocorreu isso e comecei a escrever. Em uma semana escrevi boa parte do livro, voltei a Barcelona, escrevi o resto em um mês. E então o trabalhei um pouco, porque uma coisa é escrever e outra coisa é escrever. Mas a primeira versão foi muito rápida e muito divertida.

Folha – Pode explicar melhor a diferença entre escrever e escrever?

Mendoza – Escrevo muito, muito, tudo o que me ocorre. E, quando acabo, começa um trabalho muito mais sério… Bem, não sei se mais sério, e se o outro não é sério, mas um trabalho rigoroso, de economia, de dizer as coisas com poucos elementos, não repetir, fazer que tudo tenha sentido. Corrijo pouco, mas volto a escrever muito

Folha – O livro causou problemas com a Igreja Católica? Não quiseram excomungá-lo?

Mendoza – Não, eu tinha a esperança de que acontecesse algo, o que me daria muita publicidade, mas não, na melhor das hipóteses me excomungaram e eu não sei. Inclusive uma revista católica espanhola progressista, mas escrita pela Igreja, recomendou o livro aos leitores. Disse que era um livro com humor, que era uma piada respeitosa e com carinho. E é verdade, creio que não é um livro agressivo. Sempre se pode ofender, mas creio que não, as figuras religiosas não são tratadas com falta de respeito. Os judeus sim, os romanos também, mas as figuras individuais, Jesus, Maria, José são tratados com carinho, porque creio que já são como personagens de nossa pequena mitologia, quase infantil, é um conto de Natal.

Folha – Tendem a separar sua literatura em duas categorias, uma séria e outra humorística. Quais são as diferenças para produzir cada estilo?

Mendoza – Eu não decido fazer uma coisa ou outra, mas quando começo um relato já sei se vai ser sério ou humorístico e, a partir deste momento, é como se estivesse fazendo uma paelha ou uma torta de maça. Trabalho de outra maneira. O humor está presente em toda parte, está em nossa vida. Há livros que são uma proposta humorística e o mais importante é a piada, o humor, fazer rir. Em outros, por mais que haja elementos de humor, o importante é outra história. Por exemplo, em “A Cidade dos Prodígios”, há piadas, humor, mas é uma proposta de contar uma história séria. No caso de Pompônio não queria contar nenhuma história séria, queria contar uma piada.

Folha – É somente uma piada?

Mendoza – É uma piada, mas uma piada longa, cabem muitas coisas dentro. Creio que é um livro de humor, mas um pouco triste, porque o protagonista, esse pobre Pompônio, um homem à procura de uma sabedoria que nunca encontrará, vê que seu mundo, o mundo clássico, da ciência, da filosofia, está desaparecendo, e que virá outro movimento religioso que acabará com a cultura clássica. E isso é uma reflexão que me parece triste. Para mim é. Isso está escondido [no romance].

Folha – Como analisa o papel do humor e da sátira na literatura mundial ao longo da história e hoje?

Mendoza – Creio que a literatura satírica e humorística sempre teve um papel muito importante, está na Grécia, na China, nas origens da literatura. Sempre apareceu num papel um pouco secundário, mas, ao final, acaba às vezes prevalecendo sobre a literatura mais séria. O livro mais importante da literatura espanhola é “Dom Quixote”, que é um livro de humor, que, em sua época, ninguém levou a sério –a poesia, os dramas. E “Quixote” era ambos. Sempre foi assim. No cinema, Chaplin, Buster Keaton. Na literatura contemporânea, a base é o humor, a sátira. Às vezes é um humor amargo, como em Kafka, mas basicamente… James Joyce é literatura de humor, Kafka, Beckett são literatura de humor. Humor corrosivo.

Ocorre que, no momento de publicar, é muito difícil. O mundo acadêmico e os grandes prêmios… Não sei se há muitos prêmios Nobel humorísticos. Mas prevalece, porque é uma expressão muito direta da realidade.

Folha – Seu colega Fernando Savater viu algo de Chesterton em “Pompônio Flato”. O que acha disso?

Mendoza – Fernando Savater e eu somos amigos há muitos anos e temos gostos muitos parecidos. Ele considera que Chesterton, e sobretudo os romances de detetive de Chesterton, do padre Brown [personagem do escritor inglês, 1874-1936], são o melhor que já se escreveu. Bem, é exagero, mas a mim também parece fantástico. É um tipo de humor filosófico e culto, não quero atribuir-me esses méritos, mas, à diferença de um humor de riso, direto, é um humor que tem por trás uma reflexão, uma certa cultura, leituras.

Folha – Já que falamos de Chesterton, ele era um agnóstico que se tornou um crente. E você, qual a sua relação com a espiritualidade e com o divino? És religioso?

Mendoza – Não, não, ao contrário. Fiz o caminho inverso ao de Chesterton. Estudei numa escola religiosa numa Espanha na qual a religião dominava tudo, no pós-guerra, tivemos uma vida religiosa praticamente todos, a Espanha era um convento. E logo me tornei muito rebelde contra tudo isso. Mais tarde me interessou muito o fenômeno da religião, como funciona. Todo mundo dizia: bom isso agora passou e não voltará mais e, no entanto, eu tinha razão, porque já voltou, e de uma maneira muito violenta, no Islã. Quem pensava, há até 50 anos, que a religião voltaria a provocar guerras? Era impensável, se pensava que as guerras seriam por razões econômicas, a luta de classes, o capitalismo. Nos séculos 19 e 20 eram guerras imperiais, por conquistas de território, a mim não ocorre guerras religiosas nestes dois séculos. E no momento da informação, da ciência, a religião move as pessoas assim.

Folha – Você acompanhou o debate sobre religião e fé travado entre Richard Dawkins e Christopher Hitchens, de um lado [ambos ateus e críticos das religiões] e Terry Eagleaton do outro [contrário à crítica racional dos colegas]?

Mendoza – Sim, mas logo me cansei, porque me pareceu que eles estavam falando de uma coisa científica, mas não entrava o elemento mais importante, que é a natureza humana. A religião é um fenômeno humano, não filosófico. Uns dizem que é a necessidade de responder aos mistérios da vida e da morte, mas é possível que não. Creio que há outra coisa, a segurança, uma necessidade de sentir que somos mais que pessoas, que há um Deus que é como nós, mas muito maior e poderoso. Porque, claro, não podemos imaginar outra coisa. Eu gostava muito dos deuses gregos, que não tinham mistério, eram homens e mulheres exatamente iguais, mas com alguns privilégios, como uma classe social superior. E decidiam: agora chove, agora sai sol, eram um pouco como ministros de um governo. E era melhor que a coisa misteriosa que ao final acaba sendo. Tudo é impossível, então se acaba pintando um senhor velho com barba, é absurdo. Um Buda gordo. Não se pode levar nada a sério.

Folha – Então você é um ateu interessado em religião?

Mendoza – Sim, por isso [a religião] me interessa como um objeto de estudo, porque para se estudar a vida dos insetos não se pode ser um inseto. Podem estudar melhor as religiões os que não temos crença –respeito sim, mas não crença.

Folha – Há alguns anos causou polêmica nos círculos literários espanhóis declarações suas sobre a morte do romance. Você então comparava o romance com uma múmia, alegando que, “para os antigos egípcios, uma múmia não era uma pessoa viva, mas tampouco definitivamente morta”. O que mudou desde então?

Mendoza – [risos] Creio que a realidade me deu razão. O que se escreve hoje com importância, de uma maneira transcendente –não falo de uma literatura de consumo, mas uma literatura com interesse e renovação– já não é o romance tradicional. É uma forma de relato mesclado com crônica, creio que o jornalismo mudou a forma do romance. A pura invenção que era o romance tradicional já não serve, assim como não serve a pintura que retrata exatamente uma pessoa.

O romance clássico do século 19 e de parte do século 20 não tem atualidade. Mas, por outro lado, há um romance do século 18, humorística, filosófica, que está mais próxima de nós, “As Viagens de Gulliver”, este tipo de romance satírico, fantástico, ou romance com elementos históricos, reportagens.

Folha – O jornalismo influenciou esta mudança?

Mendoza – Muitíssimo, sim. Em um momento creio que o romance foi muito influenciado pela imagem, pelo cinema, pela fotografia. E agora creio que a grande influência é o jornalismo, a informação na imprensa, na televisão, o documentário, a internet. A possibilidade de saber do que está passando. É muito difícil voltar ao romance antigo.

Folha – Bolaño foi um dos grandes escritores a elogiar seu trabalho. Você o conhecia?

Mendoza – Muito pouco. Porque, embora ele vivesse em Barcelona, eu o conheci muito tarde, quando ele já estava doente e era um homem cheio de angústia. Nunca tive com ele amizade, havia uma diferença de idade, e o conheci socialmente. E quando o conheci havia lido muito poucas coisas dele. Depois, quando morreu, foi quando li suas grandes obras. E lamento não ter podido aproveitar a ocasião.

Folha – E como se sente em saber que era elogiado por alguém que tem uma obra hoje tão reconhecida mundialmente?

Mendoza – Não sei o que disse de mim.

Folha – Em mais de uma ocasião mencionou que gostava de seus livros. Numa conversa com Ricardo Piglia disse que estava lendo um livro seu e questionou o colega se ele conhecia sua obra. Numa entrevista citou com desdém a academia espanhola de letras por não ter nos seus quadros certos escritores, você incluído.

Mendoza – Sim, conheço isso porque conheço Piglia e creio que li isso. É sempre muito emocionante ver que uma pessoa com um grande critério sobre a literatura entende o que eu queria fazer. Não é somente que goste, é que se gosta é porque está além do resultado, sabe da intenção. Os escritores somos muito pouco generosos. Não porque sejamos mesquinhos, mas porque entendemos o resultado e a intenção, o mérito e a técnica.

*Folha – Embora seja uma questão que não dependa de você, como interpreta o fato de haver tão poucas de suas obras publicadas no Brasil? [“Pompônio Flato” é somente o segundo lançado aqui, e o primeiro, “A Cidade dos Prodígios”, está fora de catálogo.]*

Mendoza – Não sei. Creio que os meus livros são difíceis, têm elementos de humor… são difíceis de traduzir. Não tive muito êxito fora da Espanha, nem sequer na América hispânica. Vendo muitos livros na Espanha. Um pouco na França, na Alemanha e nada mais. Em alguns países raros, como Polônia. Mas nunca consegui ser um escritor de grandes êxitos internacionais. Tampouco busquei isso e estou muito contente com o que tenho. Mas é assim. Ademais, acho que entre Espanha e Brasil há pouca comunicação literária. À Espanha também chega pouca literatura brasileira.

Folha – O que você sabe de literatura brasileira?

Mendoza – Muito pouco. Os clássicos antigos, e o que há hoje na verdade não sei. Há alguns dias dei um prêmio a Nélida Piñon, mas esse é um personagem excêntrico, não? Não sei se é conhecida no Brasil.

Folha – Como foi sua experiência de tradutor da ONU, em que intermediou conversas entre líderes mundiais como Reagan e Felipe González?

Mendoza – Passei 15 anos, foram muitos presidentes. Foi um trabalho acidental, mas fiquei muito tempo e gostava muito. Nunca teria deixado não fosse pela possibilidade de viver dos livros. Deixei porque estava muito cansado, viajava muito. Mas era um trabalho muito interessante, ver como funciona a alta política –e também a pequena e a baixa política. Mas também porque, para uma pessoa interessada no idioma, na língua, era muito interessante. Eu gostava muito.

A ASSOMBROSA VIAGEM DE POMPÔNIO FLATO
Autor: Eduardo Mendoza
Tradução: Luis Reyes Gil
Editora: Planeta
Quanto: R$ 46 (208 págs.)

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