Entrevista com José Castello

No blog Favas Contadas

Hoje apresentamos aos leitores uma entrevista com o jornalista e escritor José Castello autor do livro A Literatura na Poltrona – Jornalismo Literário em tempos instáveis ((Record, 2007, 204 págs). Obra importantíssima para os amantes da literatura, e que não pode faltar nas bibliotecas de estudantes, professores e profissionais que atuam nas áreas de comunicação e de letras.

1. Quando nasceu sua paixão pelas letras. Existe algum fato marcante?

R_ Fui um menino muito tímido e quieto. Já na escola, eu me refugiava nos livros. Eles se tornaram, desde cedo, um lugar em que eu me escondia das agitações do mundo. Um lugar em que eu me abrigava. Creio que, até hoje, eles continuam a ser, antes de tudo, isso: um abrigo. Um consolo. Um lugar só meu, onde ninguém entra, ninguém interfere, ninguém manda em mim.

2. Além do trabalho de crítica literária que desenvolve em diferentes revistas e jornais você escreve – e com muito talento – crônicas, contos, biografias e romances. Porém, se fosse obrigado a escolher somente um desses gêneros literários. Qual escolheria e por quê?

R_ Não sei responder. Sou um cara disperso. Faço sempre várias coisas ao mesmo tempo, preciso dessa dispersão. Escrever crítica alimenta meus livros, escrever meus livros alimenta minhas crônicas, escrever minhas crônicas alimenta minhas ficções. Gosto de estar nessa zona intermediária, nem aqui, nem ali. Gosto muito de uma expressão do filosofo Rafael Argullol: “transliteratura”. Algo que se passa não exatamente no campo literário, algo que não cumpre seus cânones e regras, mas que o atravessa e dele se alimenta.

3. Castello, seu estilo é calmo e ponderado – diferente de outros críticos que extravasam agressividade nos textos. Esse controle da palavra é típico de sua personalidade ou é fruto da experiência?

R _ Quando jovem, é claro, já fui mais agitado e até um pouco raivoso. Mas, na verdade, isso sempre me incomodou. Isso “saía” de meus escritos mas, depois que os relia, não me reconhecia neles. Luto muito, há muito tempo, para encontrar certo equilíbrio. Não sei se a palavra certa é equilíbrio, porque ela indica uma abdicação dos extremos, e não abandono os extremos. Prefiro pensar que tenta incorporar pontos de vistas diversos, tento diversificar minha maneira de olhar o mundo e perder o medo dos paradoxos, que no fim nos constituem.

4. Quais são os livros que o acompanham em suas viagens? Que tipos de enredos prefere?

R _ Muitas vezes, talvez a maioria, os livros que leio profissionalmente. Estou sempre com um monte de leituras me esperando em minha mesa de trabalho. Na verdade, sou também um leitor eclético. Gosto de ler romances, poesia, ensaios, gosto de passear pelos gêneros. É claro, tenho alguns autores de estimação. Fernando Pessoa, Clarice, Enrique Vila-Matas, Cortázar, Borges, João Cabral, João Gilberto Noll – devo ter esquecido vários _ estão sempre perto de mim.

5. Existe algum livro que tenha influenciado sua vida, suas decisões, suas atitudes?

R _ Dois livros, creio, foram decisivos em minha formação. Robinson Crusoé, que li aos 11 ou 12 anos, e reli em seguida muitas vezes. Eu me identifiquei logo com aquele homem sozinho, perdido em uma ilha deserta, obrigado a partir do zero. Eu me vi (até hoje me vejo) nele. Em torno dos 19 ou 20 anos, creio, li um segundo livro decisivo: A paixão segundo G. H. Foi um choque, o maior choque que a literatura já me deu. Quase caí doente, passei semanas e semanas completamente atordoado. O livro de Clarice desarrumou minhas ilusões juvenis e me mostrou que o mundo é algo muito mais complexo, mas também muito mais frágil do que eu supunha. Creio que, ao ler G. H., entrei na idade adulto. De vez em quando eu o releio e, confesso, ainda levo o mesmo susto. Para mim, é o maior romance produzido pela literatura brasileira.

6. Você se identifica com algum personagem de ficção? Ou seja, algum personagem espelha seu jeito de ser?

R _ Creio que já comecei a responder: Robinson Crusoé. Nunca encontrei um personagem com quem me identificasse tanto. Sempre fui solitário _ embora tenha a alegria de ter muitos e maravilhosos amigos. Sempre me senti incompreendido _ e acho que escrever é um esforço para você se fazer entender, ou, pelo menos, ser um pouco menos mal compreendido. Sempre entendi a vida como luta, luta contínua, que você vive dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sem descansar. Não acho isso ruim, é bom dizer. Ao contrário, a beleza da vida vem daí, do movimento. Isso aparece em outros livros que aprecio muito, como Da natureza das coisas, do Lucrecio, e a poesia de Alberto Caeiro.

7. Quais são os elementos que mais o impressionam em um romance?

R _ Não há regra. Se houvesse, os romances deixariam de me interessar. Toda grande ficção precisa despertar, antes de tudo, um sentimento de estranheza. Aquela sensação que nos leva a dizer: “Nunca li uma coisa assim!”, ou “De onde esse autor tirou isso?”. A literatura é o terreno do singular. Sempre que alguma coisa se repete, nos decepcionamos um pouco. Portanto, não dá para dizer que isso, ou aquilo, me impressiona mais. Eu me impressiono mais com o susto, o espanto de encontrar uma coisa que eu não pensava que pudesse existir.

8. Pode enumerar algumas características que separam um bom romance dos outros?

R _ Como disse na resposta anterior, não sei fazer isso. Talvez possa repetir a mesma resposta: a capacidade de espertar espanto. De nos deslocar. De nos colocar em estado de dúvida e disparar um monte de perguntas em nossa mente.

9. Você acha que não existem mais gênios incompreendidos? Ou somos nós que ficamos cegos e incapazes de descobrir os novos gênios da literatura?

R _ Acho essa discussão, sinceramente, inútil. Como saber se existem gênios incompreendidos, se não os conhecemos? Só com bola de cristal. É claro, existem sempre talentos nascentes, talentos ainda ocultos. E, muitas vezes, é preciso um grande livro, um momento especial para que, enfim, nos demos conta disso. Os grandes críticos, é claro, têm essa qualidade: conseguem farejar a grandeza de um escritor. Foi o que fez, por exemplo, Antonio Candido, quando apostou sozinho na grande de Perto do coração selvagem, de Clarice.

10. Nas Oficinas literárias, encontrou algum aluno realmente genial?

Na verdade, não gosto muito da idéia de gênios. Todo escritor, mesmo o maduro, o consagrado, é um aprendiz. Se abdica disso, se desiste da aprendizagem, se empobrece. Recentemente li Caim, do Saramago. É comovente ver um escritor como ele, premio Nobel, com os cabelos brancos e uma obra que poderia pensar como “completa” lutando para recomeçar mais uma vez. Se existe genialidade, é isso: a força para não desistir de lutar.

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