Entrevista com Lya Luft

Ubiratan Brasil
O Estado de S.Paulo

Em 30 anos de carreira, Lya Luft publicou 20 livros. No mais recente, Múltipla Escolha, que ela lança quinta na Livraria Saraiva do Shopping Center Norte, a escritora prossegue em sua trajetória de convidar o leitor a pensar. Assim, desde o horror à descriminalização das drogas até as exigências sociais, Lya propõe um combate à mediocridade a partir da reflexão. Esse é o tema também da seguinte entrevista, realizada por e-mail.

A incomunicabilidade é um tema que sempre a atraiu, não?

Escrevo sobre incomunicabilidade humana desde meu primeiro romance, As Parceiras, em 1980.Tem sido um de meus temas recorrentes. Na verdade acho que nesses livros que chamo de ensaios não acadêmicos, ou mesmo nos artigos como foi o Em Outras Palavras, apenas tento falar de outro modo, mais direto. O tema me fascina desde criança: a palavra não dita quando devíamos ter falado (podia até salvar uma vida, é sempre uma ilusão nossa) e a palavra dita que deveria ter calado, mas, nos dois casos, a gente não sabia. Portanto, somos inocentes, embora nos sentindo culpados. Não existe um ponto final, a não ser a morte: possivelmente vou mexer nesse tema até o último suspiro, aquele… Pois é inesgotável, como quase tudo no drama humano, com suas glórias e danações.

A íntima relação entre literatura e realidade significa que a literatura jamais se livra do poder?

Ninguém jamais se livra de alguma forma de poder. Nunca senti que minha literatura tivesse qualquer relação com o poder, se por isso se entende poder instituído, governo, sei lá. Porém sempre nos submetemos, em geral inconscientemente – que é pior, insidioso – a algum poder: medo, mitos culturais, figuras do nosso imaginário mais arcaico, etc. Liberdade é um mito bom, diante do qual dançamos.

O mal é aliado da literatura?

O humano é matéria da literatura: nele existem o bem e o mal, a indiferença e o fervor, a indignação e a alienação, a audácia e a covardia, a esperança e a morte. Nada muito original. Porém, pode-se dizer que às vezes, sob certo prisma, o mal pode ser mais interessante. Eu, por exemplo, na ficção, sou fascinada pelo lado avesso do ser humano, os desencontros, os ressentimentos, a crueldade, as perplexidades, etc. Em suma, o teatro das nossas neuroses. Dificilmente – mas às vezes sim – a arte nasce do “casaram e foram felizes para sempre”.

O sentimento de pertencer a um mundo à parte faz bem ou mal aos escritores?

Não acredito num mundo que não seja à parte, isto é, a individualidade é algo real, com nossas neuroses e dons positivos, a bagagem genética psíquica que é muito forte, os condicionamentos culturais (como esses mitos danosos e fúteis dos quais escrevo em parte no Escolha). Nadar contra a correnteza é importante para escapar (um pouco, ao menos) desse perverso espírito de manada, que nos isenta de observar, analisar, discernir, agir ou ficar inerte. Importa não se sentir alienado nem isento nem superior: a falta de humildade liquida com a arte, em geral. Embora alguma doce arrogância preserve alguns da perigosa inércia (risos).

Em seus livros, além do bom humor, há uma dose de perplexidade e indignação com os rumos da cultura contemporânea. Teremos saudade do século 21?

Isso só saberemos no século 22, quando nós todos formos, como gosto de dizer, “poeira de estrelas”. De modo que não precisamos saber. Todos os tempos deixaram de um lado saudade, de outro alívio porque passaram. Para mim, a complexidade incrível do nosso mundo atual, da qual a gente percebe só uma fração mínima, o torna muito sedutor, perigoso, esmagador se a gente não preserva alguma lucidez, algum desejo, alguma força, alguma individualidade. O que me espanta é que no turbilhão de tanta inovação, no espanto de tantos avanços, a gente continue tão infantil, tola, presa a estereótipos e falsos mitos culturais, como alguns sobre os quais falo nesse livro: a eterna juventude, a beleza ideal, o “ter de”, os preconceitos, a burrice, a inércia diante dos maus governos, o desinteresse diante do sofrimento alheio, enfim. Certa vez perguntei a um sábio: o ser humano tem jeito? Ele, sendo sábio, respondeu: esse é o jeito da humanidade.

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