Entrevista com Nélida Pinõn

Por Janilson Carvalho

A grande escritora Nélida Pinõn em recente entrevista a ISTOÉ analisou o processo cultural vigente no Brasil e comentou a importância da educação para uma possível evolução ou mudança. Para que isto ocorra, pais, professores e intelectuais precisam assumir papeis de guias. Não incluo aqui governantes, nem políticos, pois sabemos, com raríssimas exceções, do que são capazes para consolidar a ignorância e a pobreza na população carente. É de lá que sai a sua força política inesgotável.

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ISTOÉ – Esse processo é reversível?

Nélida – Certamente. Esses ditames são revogáveis.Hoje alguém pode ter um comportamento intransigente quanto a um universo que poderia ser considerado anacrônico, e, de repente, através de um fenômeno sociológico , a juventude pode se voltar de forma apaixonada para sua história.Pode haver uma reversão.

ISTOÉ – Essa reviravolta viria dos jovens?

Nélida – Os jovens são massacrados por um tipo de arte repetitiva. Há muito tempo a criação brasileira está imersa no esquecimento, por conta do rock, do pop. As letras das músicas são de uma pobreza, de uma indigência extraordinária. Dificilmente surge um grande letrista. A arte brasileira tem vôos extraordinários. Não defendo que nos fechemos. Sou uma mulher que tem paixão pelos gregos, pelos clássicos. Todos os grandes autores da civilização ocidental me aperfeiçoaram, mas não afugentaram minha índole pátria. Nunca dei às costas a realidade brasileira.

ISTOÉ – Isso faz o público ficar embrutecido?

Nélida – O que está em pauta é uma existência acelerada, sem tempo para refletir. Não é só no Brasil. Isso se alastra pelos outros países. Só que eles têm uma infraestrutura cultural muito sólida, grandes universidades , grandes bibliotecas, grandes museus, estão mais preparados para levantar muros e permitir que a banalidade se expresse, mas não derrube as muralhas de Jericó. O Brasil tem muitas fragilidades culturais, é um país onde a leitura é uma raridade.

ISTOÉ – Mas há avanços. Reduzimos o analfabetismo, por exemplo.

Nélida – Isso é muito relativo porque as pessoas não entendem o que lêem. A leitura induz a processar o conceito. Se ao ler você não entende o que alguém está dizendo e se não exerce a crítica diante do que lhe está sendo dado , não aprende e passa a ser apenas um escravo da informação.

ISTOÉ – Qual é a solução para esse problema?

Nélida – Eu enfatizo a educação.E uma educação que não queira manter a infância pobre no gueto.Porque há uma tendência, em nome de uma falsa valorização da origem da criança, de dar somente o que já seja do meio dela. Não. Esses pequenos, seja qual for a origem, devem ser tratados como aristocratas. A educação dessa criança brasileira, “pobrinha”, que já sofrem terríveis transtornos sociais , deve criar condições para ela ser tratada como se fosse de classe média alta.

ISTOÉ – Como a sra. avalia as condições atuais da educação brasileira?

Nélida – Hoje, muitos alunos vão para escola e saem sem saber nada. É preciso também dar condições de saúde, comida…Se uma criança mora num barraco com oito pessoas e sem essas condições, não vai estudar. Vai apenas sobreviver.

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