Entrevista com o escritor Fernando Monteiro

Na visão do mais importante crítico literário da atualidade, o americano Harold Bloom, o mundo de massas, moderno, destruiu o gosto pela alta cultural, provocando um definhamento na prática e cultivo do mundo culto. Hoje cultivamos o pastiche. É uma opinião dura, mas nem por isso totalmente inverdadeira. O escritor pernambucano, Fernando Monteiro, autor de diversos livros lançados, entre eles, romances como Aspades Ets, Etc, Cabeça no Fundo do Entulho, A múmia do rosto dourado, poemas como Memória do mar sublevado e Eu vi uma foto de Anna Akhmatova e biografias de Thomas Edward Lawrence (Lawrence da Arábia) e do faraó Akhenaton certamente que concordaria com o crítico. Nessa longa entrevista Monteiro mostra não só sua vasta cultura, como discorre sobre sua produção passada, presente (e futura), além de tecer comentários sobre a literatura feita no Brasil e no mundo. Provocado sobre suas discordâncias em relação a Ariano Suassuna e Paulo Coelho, Monteiro mostra porque não segue modismos literários muito menos baixa a guarda a patrulhamentos literários, que não tenham um crivo maior com consistência na escrita. A entrevista é um misto de erudição, inteligência e contundência crítica, e, em vários momentos de grande autocrítica. Divirtam-se e aproveitem.

Laurence Bittencourt – Monteiro uma leitura atenta de “Vi uma foto de Anna Akhmatova” transmite a idéia de que você é um dos últimos representantes de um Humanismo perdido. É correta essa análise?

Fernando Monteiro – Se o poema transmite essa idéia, certamente que ele está fazendo mais por mim do que eu mereço, Laurence. Não quero ser o moedeiro falso da modéstia empostada dos dias que correm, mas raciocino: é que a larga palavra usada na pergunta – Humanismo – se encontra inevitavelmente poluída em todos os corações & mentes (incluindo a deste escriba, é claro) da desolada época de “homens ocos” em que caímos, com o sentido de grandeza – meramente humana etc – reduzida à sombra de uma sombra vista no escuro, entre “lágrimas na chuva”. Não é mais necessário o Homem (e, em conseqüência, o Humanismo)? E a Poesia – para um não só chocado como vitimado Walter Benjamim – não será ma is possível, de fato, “depois de Auschwitz”? Seja como for, fomos longe demais no “adeus a uma idéia” (aquele título do poema fúnebre do grande Wallace Stevens), na longa despedida a um modelo de cultura que se originou das peãs pagãs, cantadas em torno da fogueira grega de guerreiros sentados para ouvir o Poeta entre eles. Naquela época primaveril – de sangue, tempestade e alguns antecipados dias de vinhos e rosas –, cantava-se o fragor da batalha, um choque entre surdas nuvens fazendo cair uma folha amarela do outono grego sobre o branco colo de Ariadne. Onde está ela, agora? E onde ficou a visão de Beatriz, Margarida, Miracelli e Anna Akhmátova? Todas as vozes estão se reduzindo a um murmúrio – e não se ouve mais o Tordo, com o seu piar nublado pelo céu que chora nos olhos vazados de estátuas cegas por ácido. O falcão não atende mais ao falcoeiro – já denunciava Yeats, no seu sombrio poema de 1926 (“The Second Advent”). Desde então, entramos no Terceiro Milênio com a horrível sensação de que tudo está mais morto assim (vivo?), do que se o fogo já houvesse consumido o que a água poupou, no antigo dilúvio transformado numa espécie de filme-catástrofe (mal) dirigido por um James-Cameron-qualquer da vida. Enfim, “vôte!”, como se dizia antigamente…

LB – Por outro lado você  é muito ácido em suas análises sobre a produção cultural, por exemplo, feita no Brasil. Não há uma contradição entre esse humanismo poético mesmo nos romances e o Monteiro analítico?

FM –  O Brasil ainda é um Projeto. Um projeto de qualquer coisa na dobra de outras dobras. E não adianta escrever, criar, “forçar” para lhe dar uma espécie de mitologia de emergência (como faz o Suassuna), nem fingir que podemos nos dar bem com algum pulo do gato a fim de “entrar na barbárie da decadência sem ter passado pelo esplendor de algum Século Quinto de Péricles de Brasília” etc. Aqui nesta Pindorama, Péricles é somente o amigo do “amigo da onça”, e não o governante ateniense que imaginou a Acrópole como uma representação do mundo ideal suspenso na piscina do espaço. O Brasil é – ainda – raso como uma piscina vazia, apesar do Aleijadinho, de Machado e de Rosa e Villa-Lobos. Porém, somos capazes de perceber o Outro como nenhum outro povo é capaz de ver no espelho, espionando pelo periscópio na bruma da nossa cultura ainda incipiente, para dizer de modo delicado. E nenhuma linguagem – que não seja a (aposentada?) dos oráculos – será agenciadora de novas realidades futuras, enquanto baixarmos a cabeça para o fantasma por trás da máscara da “pós-modernidade” (por exemplo): o Holograma no lugar onde estava o Homem.

LB – Um pouco de história pessoal. Qual tua formação, me refiro a formação escolar mesmo e quais foram os livros que te formaram como escritor?

FM – Me formei em Sociologia, aqui no velho burgo Maurício. Para nada. Estudei Cinema (em Roma, de 1969 a 1971), para entender que não adiantava absorver teorias (e, mesmo, práxis gostosamente latinas da Itália), enquanto corria o risco de deixar de ver os filmes passando nas árvores, simplesmente. E não só os bosques do cinema da natureza eram importantes. Um trem (ou a sua janela aberta) também é uma lição do cinema, apreendida naquela maravilhosa síntese de Humberto Mauro: “Cinema é cachoeira”. E é mesmo! De modo que deveriam existir universidades formando cineastas de calção de banho baixo de Paulo Afonso, perto do Ninho das Águias do velho Delmiro Gouveia, o Lou co do Jardim. Na minha época, não havia (e ainda não há) o curso que teria me servido: o de Formação de Malucos Profissionais ou de Acendedores de Lampiões Inexistentes e/ou de Ícaros com Asas pregadas nas costas com cera inderretível (?) pelo Sol de agosto etc etc. Todos os livros que me ajudaram (mesmo os ruins)? Bem, destaco os bons, os excelentes, os maravilhosos “OS SETE PILARES DA SABEDORIA”, de T. E. Lawrence, e DOM QUIXOTE, de Miguel de Cervantes, TRISTRAM SHANDY, de Laurence Sterne, MADAME BOVARY, de Gustave Flaubert, MOBY DICK, de Herman Melville, OS IRMÃOS KARAMAZOV, de Fiodor Dostoievsky, JUDAS, O OBSCURO, de Thomas Hardy, O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de Emily Brontë, O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad, O GRANDE GATSBY, de F. Scott Fitzgerald, CONVERSAÇÃO NA SICÍLIA (ou “Gente da Sicília”), de Elio Vittorini, GRANDE SERTÃO: VEREDAS, de Guimarães Rosa, DOM CASMURRO, de Mac hado de Assis, DEBAIXO DO VULCÃO, de Malcolm Lowry, A VERDADEIRA VIDA DE SEBASTIAN KNIGTH, de Vladimir Nabokov, OS LOUREIROS ESTÃO CORTADOS, de Edouard Dujardin, a poesia de Leopardi, de Ungaretti, de Montale, de Pavese, do já citado Stevens e do ainda não citado Seferis e seus irmãos de ruínas (Palamas, Elytis, Ritsos, Kazantzakis), além dos poetas árabes de Andaluzia – Sevilha na minha alma não é mesma na “alma de porteiro” de Cabral – e seus sucessores, numa linhagem que vem bater em João – poeta que nunca me emocionou como sempre me emocionou Jorge de Lima, o alagoano que considero o maior poeta da língua portuguesa, ao lado de Luis de Camões (não admiro Fernando Pessoa, meu xará de alma pequena). E também devo a livros de arqueologia e história (destaco o monumental “A CIDADE ANTIGA”, de Fustel de Coulanges), e a romances policiais e até bons westerns – nunca-lidos no Brasil! – que resultaram em algumas obras-primas (de Ford, Mann, Ha wks, Delmer Daves, Dmytryck e outros), todos desprezados pelo armorialismo chato como uma sessão no dentista para tratamento de canal. Em tempo: a minha geração era tão reprimida que se excitava com a bula do “Regulador Gesteira” – que horror -, e havia filmes preto-e-branco cheios de abismos na fotografia, como se pode (re)ver no magnífico Vagas Estrelas da Ursa, cujo título Luchino Visconti foi buscar num poema de Leopardi. E ainda devo muito aos livros de…

LB – Seguindo essa mesma linha: como teve inicio sua carreira de escritor? Qual o primeiro livro lançado? Foi difícil?

FM – Comecei como poeta. Meu primeiro livro publicado foi MEMÓRIA DO MAR SUBLEVADO, um poema longo em três partes. Sempre gostei de poemas longos. Não tive o menor problema para lançá-lo: o livro saiu pela Editora Universitária (da Universidade Federal de Pernambuco), como separata da revista “Estudos Universitários”, em 1973. O ano é para se destacar, nesta resposta, porque foi antes da atual idade “petista” nas universidades, quando o partido saído do “coito maldito” (intelectuais X operários) tomou conta, por exemplo, das editoras universitárias – que passaram a publicar somente os textos medíocres do corporativismo assumido etc. Entenda-se: quando o meu primeiro livro foi publicado pela EU (a editora), eu não era nem do corpo discente nem docente da UFPE. Tinha 23 anos, e vivia – como meu pai dizia – “com a cabeça nas nuvens”. Meu único título era o de poeta jovem, sem eira nem beira. Meu pai tinha razão, mas eu fui editado nessa era pré-petista de universidades abertas para a cultura e a vida. Hoje em dia, elas estão fechadas para tudo que não seja rasteiro como uma plantação de mandacurus-anões…

LB – Monteiro, há em alguns dos seus livros, uma espécie de deslocamento do nosso mundo, quase diria um certo desconforto com o nosso tempo. O seu interesse pelo mundo antigo, o Egito, por exemplo, o seu interesse por Akhenaton, a que se deve? Esse interesse pela Historia, é parte da composição literária, ou seja, ajuda na composição literária? De que forma você analisa esse dado?

FM – Acho que você acerta na mosca. Sou um estranho no ninho, um ET desambientado que não sabe tomar banho nas piscinas vazias do piscinão chamado Terra em Transe de Vera Cruz. Temos, entretanto, tudo para dar certo no século 21 (a partir da alma em branco), o que só será paradoxal para os burrinhos que nos cercam como as águas cercam as ilhas. Ficção das ficções, o Brasil ainda é uma esquina que nos espera na volta da Junqueira Aires (a avenida de Cascudo, rumo ao mar invertido do céu), enquanto aqui em Pernambuco se desce uma rampa na companhia sub-aristocrática de Gilberto Freyre, ainda. Gentes, mares, céus, ilhas. Não acho que “homem nenhum é uma ilha” ou que “és responsável por todo aquele que tu cativas” e todas as frases repetidas pelos Marcos Vilaças (e outros Vilaças da vida), em discursos de chás e Academias. Aliás, eu abomino toda e qualquer academia – exceto as de ginástica, que modestamente ensinam a prevenir barriga de chope e vícios de postura. As outras são imposturas (a começar pela ABL, infelizmente fundada por um gênio inseguro: Joaquim Maria Machado de Assis).

LB – Você já  chegou a mencionar em uma de suas entrevistas que se sentia “envergonhado do artificialismo da literatura”. Ao contrário do critico de literatura americano Harold Bloom você não acha que a literatura seja uma porta para a salvação e traga em si caminhos para se adquirir sabedoria?

FM – Nada é pior do que poesia – quando não é Poesia. Portanto, nada é pior do que literatura – quando não é Literatura. Foi isso o que eu quis dizer (e pensei que havia sido claro, mas, obviamente, não o fui). Ou seja, quando a arte é exercida com o pleno domínio de intenção (em cada caso etc), servida do talento mais aprimorado possível, então ela é via de conhecimento, revelação e expansão da consciência acima de tudo. Só isso.

LB – Um traço marcante em seus livros, como por exemplo em Aspades, Cabeça no Fundo do Entulho, A múmia do rosto dourado, para ficarmos nesses, é a de uma literatura do fragmento, da não linearidade narrativa. Os franceses têm uma expressão para esse tipo de construção que eu acho interessante: bricolagem. Esse tipo de narrativa lembra de alguma forma o James Joyce de Ulisses e Finnegans Wake. Você confirma a influência de Joyce em teus escritos?

FM – Prefiro o mestre de Joyce, Edouard Dujardin. Foi esse francês esquecido quem ensinou Joyce a tentar investigar a realidade daquele modo que o talentoso irlandês transformou, em parte, numa chatice. Gosto do Joyce pré-“Ulisses” – e acho que ele não entendeu toda a lição de Dujardin (pelo menos em Os loureiros estão cortados, que é de 1888). E, sim, Joyce ainda tinha outro grave defeito: acreditava que era Joyce!

LB – O incrível em sua produção artística é vermos que você trabalha tanto a poesia, o romance quanto o teatro. Em qual delas você se sente mais confortável?

FM –  Na poesia. Se eu fosse “proibido” – por Deus (o único que poderia fazê-lo) – de escrever em mais de um gênero, certamente eu faria o seguinte “negócio” com o Pai Eterno: “Senhor, me deixe continuar escrevendo poemas, que tudo estará beleza etc”. E, caso Ele não permitisse, eu seria expulso do paraíso da prosa, do teatro e do cinema, mas continuaria a escrever versos no meio do inferno da poesia.

LB – Dito de uma outra forma: em qual o gênero literário que você classifica os seus romances? Que tipo de romance você produz?

FM – Eu produzo com certeza um híbrido de ficção, documentário, delírio e biografia (incluindo a “auto”). E isso não é muito bom. Melhor é escrever como estão escrevendo alguns “novos” surgidos no mercado do livro: vieram para cortejar o espírito do tempo, fazendo a pirueta requerida, seja qual for a “muganga” do momento. (Ah, que bom ter escrito a velha palavra “muganga”! Há muito tempo não a usava – e acho, até, que a maioria já nem sabe o que ela significa. Não vou me dar ao trabalho de explicar, entretanto. Quem acompanha o evoluir da “arte-twitter” (???) sabe a quais “mugangas” freirianas eu estou me referindo…)

LB – Já que você trafega em gêneros múltiplos o que você diz sobre o conto? Já arriscou ou prefere mesmo o romance?

FM – Tenho um livro de contos – Armada América (Editora W11/Francis, São Paulo, 2003) – que ficou entre os cinco finalistas da categoria, no Prêmio Brasil/TELECOM de 2004. E estou um livro inédito de histórias curtas, para publicar neste ano. O título é Oxford Hotel e conta com 14 narrativas.

LB – Uma curiosidade: você lançou seu primeiro romance, Aspades Ets, Etc., em Portugal. Por que Portugal? Lançar livro de estréia no Brasil é mais difícil?

FM – Tive esse livro recusado por algumas editoras daqui de Pindorama, mandei para uma das maiores editoras de Portugal – a Campo das Letras – e, em menos de seis meses, estava publicado lá, pelo editor Jorge Araújo. Ele promoveu o lançamento, em dezembro de 1997, em Lisboa e no Porto, com passagens aéreas e hospedagem para mim e minha esposa em “ambas as duas” cidades (como diria o acadêmico da Academia Alagoana de Letras, Fernando Affonso Collor de Melo), e ainda ontem o Substantivo Plural estava dando notícia da presença do Aspades, ainda, nas “montras” e nos balcões portugueses (com foto e tudo, no SP). Fiquei feliz.

LB – Você acredita que todo romance tem que ser escrito com alguma função – seja ela social, moral – que não o entretenimento, ou o romance de entretenimento cabe?

FM – O romance, como toda forma de arte, deve ser utilizado (além do terreno puramente do entretenimento pueril) como meio de expressar a Realidade – seja clara ou oculta. Quero dizer, como um lampejo no inconsciente ou no – chamado – consciente de cada ser humano interessado em se comunicar, artisticamente, com outro humano. Simples assim (não posso pensar em conceituação mais simples do que essa). O resto é resto. Ou melhor, o resto é silêncio, ainda. Um silêncio ensurdecedor.

LB – Monteiro você tem se caracterizado como um dos escritores que mais tem combatido a escrita de Ariano Suassuna e Paulo Coelho. Por quê? Explica isso melhor.

FM – Paulo Coelho não é um escritor. Ele junta palavras (mal), encontrou um filão que o tornou “popular” numa época em que “encontrar um filão” é mais importante (porque mercadológico, pra começar!) do que expressar qualquer tipo de verdade rasa ou profunda. Ainda assim – ou por isso mesmo – ele não faz o mal que, por exemplo, faz um Ariano Suassuna, verdadeiro escritor e intelectual que, nas suas preocupações chauvinistas com a pátria e a cultura nacional, beira a fronteira de uma visão fascista (o que horroriza os espíritos livres). Ariano é um conservador obscurantista, que tem grandes recursos de “clown” – e eu admiro isso -, porém nunca estarei na fila da frente (nem na de trás) das suas “au las-espetáculos”, rindo das mesmas piadas que ele conta centenas, milhares de vezes, com sotaque treinado e roupa de algodãozinho esmeradamente folclórica na costura. Para quem gosta, é um penico cheio. Eu não gosto. Não gosto da encenação “sertaneja” (Ariano é tão urbano, biograficamente, verdade, quanto um Supla), nem concordo com as posições – ex-monarquistas, de apoio ao general Euler Bentes na presidência da República, contra Chico Science etc. É uma visão estreita que, na cultura, faz muito mal. E, na gestão cultural, pior ainda. Espero estar explicando minhas “diferenças” com o viés suassunesco quadernoso da Onça Malhada do Sertão, pela última vez. Todos me perguntam isso, como se Ariano devesse ser uma unanimidade, um velhinho obrigatoriamente querido e tudo o mais. Com todo respeito, discordo – e desconfio – dele e das suas tolas diatribes contra a arte contemporânea, urbana, o Rock, Bossa Nova, Tom Jobim, a Tropicália, parang olés e outras graças. E não vou deixar me intimidar pelas Juventudes Arianas (ou pelas Senhoras Fascistas da Pedra do Reino) que adoram o escritor fanhoso. Eu não “adoro”, e tenho direito a isso – como a J.A e as S.F.P.R também têm o direito de até beijar o chão que Suassuna pisa com aquelas alpercatas compradas em Taperoá, para melhor efeito geral da sua pessoa.

LB – Você compõe suas estórias a partir do real, ou literalmente você cria usando apenas a imaginação?

FM – Uso o real, a imaginação, o sonho, a topada no dedão do pé, a lembrança da cor da calcinha da primeira professora do ginásio, as “lembranças” – mesmo falsas – que nos oferece a ilusão do cinema, mais a paisagem, o concreto e os rios de águas heracliteanas, assim como os aeroportos (gosto muito de avião e de aeroporto, ao contrário de muita gente) e as cidades, visíveis e invisíveis. A vida é para ser usada. Não necessariamente para servir de base ou ponto de partida para filmes, peças ou romances (conforme julgava o idiota do Hemingway), porque não há decreto algum determinando que se plante uma árvore, se faça um filho ou se escreva um livro (nada mais ridículo do que as mui bem intencionadas frases de almanaques, nesse estilo). Além de usada , a vida não é para ficar parecida com um nenhum lençol lavado com Omo – que, aliás, não garante brancura alguma. A brancura só interessava ao Nacional-Socialismo das juventudes hitleristas.

LB – Monteiro você  também escreveu biografias. Por que a escolha de Lawrence da Arábia?

FM – Thomas Edward Lawrence  (1888-1935) foi um Hamlet moderno, um dos maiores talentos entre os maiores “orientalistas” ingleses da primeira metade do século XX e um dos homens mais atormentados de qualquer tempo. Escreveu uma autêntica e indiscutível obra-prima (Seven Pillars of Wisdom, publicado em 1926 – em edição particular – e em 1935, em edição pública), e viveu, talvez, a mais extraordinária aventura do século passado, no Hedjaz, entre 1916 e 1918. Dois anos de ação, pensamento e abismos. Acho que é o bastante para despertar o interesse de qualquer um, não?

LB – Você também chegou a escrever um pequeno texto sobre a figura do Faraó Egípcio Akhenaton, considerado por alguns estudiosos, Freud inclusive, como o iniciador do monoteísmo na história humana? Por que, objetivamente, o interesse por Akhenaton?

FM –  Muito simples: assim como T. E. Lawrence foi uma das mais interessantes figuras do mundo moderno, em Akhenaton – o faraó também conhecido como Amenófis IV – nós temos uma das mais intrigantes figuras da Antiguidade, como líder-reformador espiritual (o primeiro monoteísta da História) e governante no período de maior brilho da longa sucessão de faraós, no Egito. Me larguei para lá, em 1983, a fim de estudar a reforma religiosa promovida por esse enigmático rei da 18ª Dinastia, e não me arrependo: o processo dessa aproximação interessa ao meu próprio espírito, ainda, e continua em curso, dentro de mim, mercê de figuras tão díspares (e afastadas no tempo) como o inspirado rei de Amarna e o desconcertante Lawre nce da Arábia (ele detestava o apelido popularizado pelo jornalista Lowell Thomas). Mas, há outros que também me interessam, e sobre os quais ainda não escrevi.

LB – Por que é  tão difícil de se viver de literatura no Brasil?

FM –  Eu diria que é difícil viver – de literatura ou não – na terra Brasilis. Para não parecer que fujo à pergunta, eu acrescentaria que é difícil “viver de literatura”, sim, num país como o nosso, no qual a média de leitura, por pessoa, atualmente é de um livro por ano para cada tupiniquim que somos (todos), com saudade do carnaval quinhentista no qual, num dia de sol, comemos o coitado do bispo Sardinha cozinhado em banho-maria na beira da praia dos naufrágios.

LB – Para terminar: como você vê o panorama da literatura brasileira na atualidade?

FM – O panorama? Bem, eu o vejo como o Arthur Miller via: debaixo da ponte (e aqui no Recife tem muitas)…

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