Entrevista com o escritor Henning Mankell

O conhecido escritor sueco Henning Mankell estava no comboio de ajuda humanitária que foi atacado na semana passada por soldados israelenses quando seguia para a Faixa de Gaza. Mankell falou a “Der Spiegel” sobre como os soldados estavam prontos para agir com violência, sobre os maus tratos a que foi submetido quando estava sob custódia israelense e os motivos pelos quais ele apoia a causa palestina.

Spiegel: Henning Mankell, você participou da recente tentativa de romper o bloqueio naval israelense à Faixa de Gaza. Por que?

Henning Mankell: Os israelenses atacaram a Faixa de Gaza em 2008. Eles destruíram tudo, e desde então as vidas dos palestinos vêm sendo marcadas por dificuldades sem fim. Eu e alguns amigos decidimos que deveríamos fazer algo quanto a isso. Nós quisemos expressar a nossa solidariedade. O povo da Faixa de Gaza não pode sair de lá, ninguém tem permissão para entrar e eles não possuem nada. Nós quisemos mostrar que o bloqueio israelense é ilegal.

Spiegel: Como vocês pretendiam fazer isso?

Mankell: Nós precisávamos de navios para isso. A ideia era utilizar um comboio para transportar para lá produtos urgentemente necessários, desde cimento até remédios e chocolates para as crianças. E nós queríamos que o mundo soubesse do sofrimento pelo qual a Faixa de Gaza está passando.

Spiegel: Com quem vocês se juntaram para esse projeto?

Mankell: Há muita gente, uma grande diversidade de pessoas, na Suécia, desde membros de igrejas a organizações apolíticas e figuras individuais. A ideia era que a campanha fosse estritamente humanitária, porque nós sabíamos que caso contrário haveria problemas.

Spiegel: A Faixa de Gaza é controlada pelo grupo islamita Hamas. Não seria uma ingenuidade acreditar que vocês poderiam manter-se fora da luta pelo poder no território?

Mankell: Me perguntaram diversas vezes se nós poderíamos descartar com certeza a possibilidade de que o Hamas acabasse assumindo o controle sobre a nossa campanha. É claro que eu sempre respondi que não podia garantir nada,. Mas uma coisa que eu posso assegurar é que nós trabalhamos única e exclusivamente com organizações de auxílio humanitário. Esse é o fato importante. Tudo o mais eram variáveis que estavam fora do nosso controle.

Spiegel: Você se envolveu com os preparativos para o comboio?

Mankell: Não muito. A primeira vez que eu ouvi falar da campanha foi um ano atrás. Eu achei que era uma boa ideia. E eu imediatamente enxerguei um papel para mim, já que eu sou bastante conhecido. Eu disse aos organizadores suecos que eu poderia participar do último trecho da viagem. Eles me disseram que isso seria ótimo.

Spiegel: Vocês dizem que os palestinos estão em uma situação muito difícil. Você já foi alguma vez à Faixa de Gaza?

Mankell: Não, os israelenses não me deixaram entrar lá. Eu fui a Israel e à Palestina várias vezes. Eu participei de um festival literário em Hebron um mês atrás, e também visitei Jerusalém. Nós tentamos viajar para a Faixa de Gaza, mas os israelenses nos detiveram e nos obrigaram a retornar. Eu nasci em 1948, no mesmo ano em que foi criado o Estado de Israel, de forma que este conflito tem me acompanhado a vida inteira. Para mim, a ideia de que esse conflito ainda existirá quando eu morrer é insuportável.

Spiegel: O objetivo político de vocês é fazer com que a atenção do mundo se volte para o bloqueio imposto por Israel. E vocês alcançaram esse objetivo, mas não da forma que esperavam. Como foi a sua experiência no seu navio, o Sofia?

Mankell: O comboio consistia de seis embarcações, e o Sofia era uma das duas menores. Eu jamais estive na embarcação maior, o navio Mavi Marmara. Nós partimos de Chipre. Estávamos muito longe da costa, em águas internacionais, quando os israelenses atacaram. Era tarde, eu estava cansado e já tinha ido dormir.

Spiegel: Que horas eram?

Mankell: Exatamente quatro horas da madrugada. Meia hora mais tarde, uma pessoa entrou no meu aposento e avisou que a embarcação principal tinha sido atacada. À distância, nós vimos os helicópteros e os soldados descendo por cordas no convés, e ouvimos tiros. Depois disso, não tivemos mais contato com o Mavi Marmara. Foi somente quando eu estava me preparando para embarcar no voo da Lufthansa que me levou de volta para Estocolmo (nota do editor: Mankell foi deportado pelas autoridades israelenses) que fiquei sabendo que houve mortos na operação.

Spiegel: Quando foi que eles abordaram a sua embarcação?

Mankell: Às 5h35. Eles chegaram em lanchas rápidas. Nós fomos até o convés e aguardamos por eles lá, sem oferecer qualquer resistência.

Spiegel: Quantas pessoas havia a bordo do Sofia?

Mankell: Creio que 24 pessoas, incluindo a tripulação. Os soldados israelenses estavam usando máscaras, e eles nos disseram para descer para as cabines. Alguns de nós éramos meio velhos, e não conseguimos nos movimentar com a rapidez desejada pelos israelenses, de forma que os soldados usaram armas de choques elétricos para nos apressar. Foi uma coisa horrível. As pessoas caíam. Eles atiraram com balas de borracha em um homem que estava ao meu lado. Os soldados estavam preparados para usar a violência contra nós desde o princípio. E tudo isso ocorreu em águas internacionais. Eles não contavam com nenhuma base legal para subirem a bordo da nossa embarcação.

Spiegel: E a seguir, o que aconteceu?

Mankell: Eles assumiram controle sobre o barco e desviaram a nossa rota para Israel. O que eles fizeram primeiro foi pirataria, e depois foi sequestro.

Spiegel: O governo israelense advertiu várias vezes que não permitiria que o comboio chegasse à Faixa de Gaza.

Mankell: Pelo menos eles deveriam ter nos deixado continuar por mais duas horas, até que estivéssemos próximos à costa. Então, eles poderiam ter dito: isso é o máximo que vocês podem se aproximar da Faixa de Gaza. Agora os israelenses estão alegando que não queriam ferir nem machucar ninguém. Mas por que, em nome de Deus, eles simplesmente não incapacitaram o nosso radar ou destruíram o nosso leme? Isso teria sido muito fácil para eles, e ninguém teria sido ferido ou morto.

Spiegel: Depois disse você foi levado para uma prisão. Como foi que eles o trataram?

Mankell: Eu não sabia para onde eles estavam me levando. Os soldados formaram filas à esquerda e à direita, e nós fomos obrigados a passar por esse “corredor polonês”, enquanto cinegrafistas militares nos filmavam. Eles nos transformaram em objetos de um espetáculo, e isso é algo pelo qual eu jamais perdoarei os israelenses. E depois disso eles tomaram tudo o que nós tínhamos: telefones celulares, dinheiro, roupas, cartões de crédito. Essa foi a forma como eles nos trataram. Os israelenses são ladrões.

Spiegel: O governo israelense argumenta que está em guerra com o Hamas, e que por causa disso ele tem direito à intervenção.

Mankell: Essa é a arrogância do poder israelense. Eles estão conduzindo essa guerra em águas internacionais. Será que eles podem fazer tal coisa? Não havia armas a bordo. Só um punhado de civis suecos.

Spiegel: A guerra da propaganda agora está sendo travada com toda força. Os israelenses estão divulgando vídeos com o objetivo de sustentar a versão deles para o incidente, e os palestinos estão fazendo a mesma coisa. Vídeos que estão em circulação e que foram feitos à bordo do Mavi Marmara mostram um grupo de homens portando estilingues, bastões e barras de metal, preparando-se para o ataque israelense. Mas as imagens não dizem nada sobre o que de fato ocorreu.

Mankell: Quem estava atacando quem? Os soldados israelenses chegaram em helicópteros. Não foram as pessoas que se encontravam nas embarcações que invadiram os helicópteros. Além disso, existe o direito à autodefesa em águas internacionais.

Spiegel: Não é algo muito inteligente atingir com bastões tropas de elite das forças armadas israelenses.

Mankell: Eu acho que os soldados israelenses provocaram deliberadamente essa reação. Eles queriam matar pessoas.

Spiegel: Isto é uma suposição. O que faz com que você afirme isso?

Mankell: Eu conversei com um sueco que estava a bordo do Mavi Marmara. Ele me disse que os israelenses atiraram bem no meio da cabeça de um palestino. Para isso, é necessário que o atirador mire no alvo, e isso é algo só pode ser feito de forma premeditada.

Spiegel: O governo israelense argumenta que a organização turca IHH, que foi em grande parte a responsável pela coordenação e pelo financiamento do comboio, tem vínculos com o Hamas e com a Al Qaeda. Israel alegou que havia armas escondidas à bordo.

Mankell: Eu vou lhe contar uma história. Quando nós fomos aglomerados debaixo do convés, os soldados revistaram o barco, e quando retornaram eles disseram que haviam encontrado armas. Sabe que armas eram essas? Navalhas de barbear e facas de cozinha.

Spiegel: Você conhece a IHH e o movimento Free Gaza, uma organização internacional?

Mankell: Não, não os conheço suficientemente para formar uma opinião. Eu tenho que confiar na minha organização sueca e nos acordos que ela fez: nada de armas nem de violência. Se ficar demonstrado que nem todo mundo respeitou essas regras, é claro que eu tecerei comentários sobre isso.

Spiegel: Você é conhecido pelo seu ativismo na África, e frequentemente transita entre a Suécia e Moçambique. Por outro lado, o seu apoio aos palestinos é algo recente. Como foi que você teve a ideia de apoiá-los?

Mankell: O meio apoio aos palestinos não é uma coisa recente, porque eu lutei contra a opressão durante a minha vida inteira. A África era o meu foco, mas eu jamais ignorei outros conflitos.

Spiegel: Ao falar sobre a aids e a fome na África, você está falando de uma questão de vida ou morte. Mas na Faixa de Gaza ninguém está morrendo de fome, apesar das diversas dificuldades enfrentadas pela população.

Mankell: Sob o meu ponto de vista, a conexão entre a África e a Palestina é o sistema de apartheid que foi criado pelos israelenses. Eu presenciei na África do Sul como aquele sistema monstruoso foi destruído. Agora o mesmo monstro ressuscitou em Israel, apenas em uma forma diferente. Os palestinos foram transformados em cidadãos de segunda classe. Quando vejo a face horrorosa do apartheid, eu me vejo obrigado a fazer tudo o que posso para destruí-la.

Spiegel: Para os intelectuais europeus, só existe um país no Oriente Médio no qual eles poderiam viver da mesma forma como vivem nos seus países: Israel, um país livre e democrático, com uma sociedade aberta. Será que igualar Israel à África do Sul não seria um grande exagero?

Mankell: Não. Eu participei do Festival de Literatura Palestina em Hebron no ano passado. De acordo com a programação estabelecida, eu deveria falar na abertura do evento do Teatro Nacional Palestino, em Jerusalém. Nós estávamos prestes a começar a palestra quando a porta foi aberta e as forças armadas israelenses acabaram com o evento. Eu perguntei aos militares qual era o motivo da intervenção e eles me disseram que eu representava um risco à segurança de Israel. “Quem? Eu, um escritor?”, perguntei aos militares. Eu disse a eles que eu estava lá para falar sobre cultura. Eles me responderam que não haveria palestra nem discussão alguma, e acabaram com o evento. Israel não é uma sociedade aberta; apenas finge ser. Em Israel, pessoas são tratadas da mesma forma como se fazia na África do Sul.

Spiegel: Para você o Hamas é uma fonte de esperança, da mesma forma que foi o Congresso Nacional Africano?

Mankell: Eu sou extremamente crítico em relação ao Hamas. Eu não gosto nem um pouco da evolução dos acontecimentos políticos na Faixa de Gaza. No entanto, eu não conheço suficientemente essa questão.

Spiegel: Uma organização islamita como o Hamas, com o seu culto ao martírio, o seu desprezo pelas mulheres e o seu racismo, poderá algum dia ser um parceiro sério para um intelectual de esquerda?

Mankell: Eu participei de uma tentativa humanitária de romper o bloqueio naval à Faixa de Gaza. Isso é um passo importante para aliviar o sofrimento palestino, mas é algo que não deve ser confundido com as políticas do Hamas. Se a minha crítica ao Hamas tivesse me impedido de fazer parte dessa campanha, eu teria me desacreditado intelectual e moralmente. Eu sou capaz de fazer determinada coisa, mas isso não significa que eu tenha que abrir mão de outra.

Spiegel: Na África do Sul, Nelson Mandela surgiu no momento certo, transformando o Congresso Nacional Africano em uma organização política que criou um país compartilhado para negros e brancos. Como você vê o futuro de Israel e dos territórios palestinos?

Mankell: Infelizmente, não existe um Mandela em Israel, e tampouco há um F.W. de Klerk. Existem de fato apenas duas opções: a solução sul-africana ou a solução de dois Estados. Eu não sei o que acontecerá. Mas se tudo continuar como está, haverá uma explosão. É por isso que o bloqueio precisa terminar. Isso seria, no mínimo, um primeiro passo. E seria algo capaz de conduzir a um diálogo real entre israelenses e palestinos, mas a forma como isso seria implementado é um problema deles.

Spiegel: Esse conflito já é suficientemente complicado, mas ele provavelmente sequer se constitui na maior ameaça à paz na região no momento. Essa ameaça é representada pelo Irã, com o seu polêmico programa nuclear e a sua previsão de que Israel desaparecerá do mapa.

Mankell: Eu estou muito preocupado, porque não confio nesse presidente (Mahmoud Ahmadinejad) e tampouco nos mulás. Eles desejam possuir qualquer arma que possa ser usada para destruir Israel. Naturalmente, nós não podemos aceitar isso.

Spiegel: Mas o que nós desejamos fazer? Campanhas como esta podem ser dirigidas contra um país democrático como Israel. O governo iraniano não deixaria as coisas chegarem até esse ponto.

Mankell: Eu fui convidado para um festival de literatura em Teerã, e recusei.

Spiegel: Por que?

Mankell: Porque o Irã coloca escritores e intelectuais na cadeia e faz com que alguns deles desapareçam. Eu não posso visitar um país como esse.

Spiegel: Por que você não vai lá e revela publicamente a repressão?

Mankell: Eu não seria capaz de fazer o que gostaria. Eles me utilizariam para fins de propaganda.

Spiegel: E você não teve essa preocupação em relação à campanha da Faixa de Gaza?

Mankell: Eu vi aquilo que vi. Senti aquilo que senti. Pensei aquilo que pensei. Eu vi o que acontece com o povo palestino, e foi isso o que eu quis divulgar.

Spiegel: Os intelectuais europeus encontram-se profundamente divididos em relação a Israel. De um lado estão os críticos de Israel, como você, o famoso escritor sueco, e do outro lado estão os críticos do islamismo, como Leon de Winter, o famoso escritor holandês, que chama você de um “idiota útil” para o Hamas. O que você tem a dizer a ele?

Mankell: É claro que não é isso que eu sou, mas eu apreciaria de ter uma conversa com qualquer pessoa que tem uma opinião decididamente diferente da minha, seja ela o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ou o escritor Leon de Winter. Mas o que não faz sentido é ficar trocando gritos. Aliás, eu tenho vários amigos judeus, os meus livros estão publicados em hebraico e são best-sellers, e um ramo da minha família é composto de judeus.

Spiegel: Que papel você está desempenhando no momento? Você ainda é um escritor ou já é um político?

Mankell: Eu sou uma testemunha, porque eu estava lá. Muitas informações falsas já foram disseminadas, de forma que eu faço uma oferta às pessoas: eu estava em uma das seis embarcações, e eu posso lhes dizer o que aconteceu lá e o que isso significa.

Spiegel: Henning Mankell, obrigado pela sua entrevista.

Entrevista conduzida pelos jornalistas Tobias Rapp e Gerhard Spörl, em Berlim, na quinta-feira, 3 de junho, dois dias após Henning Mankell ter sido libertado.

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