Entrevista com o professor e poeta Márcio Dantas

Por Nara Andrade
O MOSSOROENSE

Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com tese sobre a poesia de Orides Fontela, o potiguar Márcio de Lima Dantas é natural de Patu. Hoje, aos cinquenta anos, é professor adjunto de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras da UFRN, e ministra cursos na graduação e pós-graduação de Letras, sobretudo com conteúdos voltados para a história da lírica no Ocidente, poesia e poética. Entre os livros publicados, “Para sair do dia”, livro de poesias que lhe rendeu o prêmio Othoniel Menezes em 2006, e ainda o I Prêmio Literário Canon de Poesia, em 2008.

O Mossoroense: Quando e como aconteceu o seu encontro com a poesia?

MD: Creio que desde sempre, pois me recordo com clareza os poemas dos livros paradidáticos do Grupo Escolar onde estudei. Quem sabe possa especular que é a poesia que nos assinala, nos elege, para, ao discorrer sobre uma experiência individual – a minha, cristaliza as formas de pensar, sentir e agir de uma dada época, do coletivo. Talvez seja necessário “sacrificar” uma parte para que o todo permaneça no que chamam de harmonia, equilíbrio, normalidade.

OM: A leitura é essencial para a formação do escritor. Você sempre gostou de ler?

MD: Claro que o hábito de ler pode ser interessante no sentido lúdico, tendo um papel que vai ao encontro de demandas ontológicas do ser (Homo ludens), não da formação moral ou do caráter de um leitor. Por que existe tanto escritor oportunista, mau-caráter e pleno de vaidades e com línguas tão aduladoras? Se a literatura melhorasse o homem, não constataríamos tais fenômenos. Basta olhar ao redor. Quem tem olhos/ouvidos que sinta o odor fétido do que aludi. Sim, desde muito pequeno gostava de ler. Havia um móvel na casa dos meus pais – no alto sertão – repleto de livros usados pelos meus irmãos mais velhos, então sempre eu estava bulindo nessa biblioteca caótica de livros didáticos ou literários. Depois foi a biblioteca mais sistematizada do Ginásio Comercial de Patu, bem mais sistematizada e com um bom acervo de literatura infantojuvenil. Desenvolvi o hábito de tomar emprestado ou folhear as enciclopédias com suas belas ilustrações.

OM: Sobre o que gosta de escrever? De onde vem sua inspiração?

MD: Não lido com a noção de “inspiração”. Anoto vocabulário, escrevo marginálias, grifo muito nos livros que vou lendo; depois, concebo redigir sobre algo que me interessa, nunca tendo em vista eu como centro das atenções, mas buscando um ETHOS mais universal, daí muito me interessar a mitologia (bíblica, grega, búdica). Não posso deixar de dizer que também sou pesquisador e ensaísta: escrevo textos ditos acadêmicos, para revistas como a OESTE ou PAPANGU, no qual se expressa mais o professor do que o poeta.

OM: Quais os seus escritores favoritos?

MD: Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Murilo Mendes, Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles, Augusto de Campos, Orides Fontela, Federico Garcia Lorca, são muitos….. Hoje, leio quase só poesia.

OM: Alguns poetas preferem não publicar poemas isolados, optando por publicá-los reunidos em livros, já que aproveitam o intervalo entre a concepção do poema e a publicação, para ir lapidando-os até que estejam “perfeitos”. Como se dá o processo de produção de seus poemas, até a publicação? Você gosta de lapidá-los por um tempo?

MD: Sim, sem dúvida. Gosto deixar o texto “esfriar”, assim aparecem o que julgo como defeitos ou arestas, ou o que excede. Contudo, nada impede de se publicar como se apresenta, posso muito bem alterar quando da publicação definitiva. Como disse, tomo notas, daí entra um forte componente de razão, discernimento, para que, quem sabe, fique como desejo. De outra parte, é relativo, pode ser que não demore muito, pode ser que leve muito tempo. Tem épocas que escrevo, outras não.

OM: Você já publicou alguns livros. Quantos foram publicados? Tem algum especial, preferido?

MD: Publiquei pouco, como pode ver: Traduzi para o francês, em parceria com o prof. Emmanuel Jaffelin, quatro livros da poeta paulista Orides Fontela: Trèfle. Paris: L’Harmattan, 1998 (Tradução) Rosace. Trèfle. Paris: L’Harmattan, 1999 (Tradução). Metáfrase: Natal: EDUFRN, 1999 (poesia). Para sair do dia. Natal: EDUFRN, 2006 (poesia). O sétimo livro de elegias: Natal: Capitania das Artes, 2006 (poesia). Mestiçagem e ensaísmo em João Cabral de Melo Neto. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 2005 (ensaio).

OM: Você recebeu o prêmio Othoniel Menezes (2006), com o livro “Para sair do dia”, publicado em 2006, e também foi contemplado o I Prêmio Literário Canon de Poesia, em 2008. O que representa para o escritor ter uma obra premiada?

MD: Talvez o reconhecimento, sei lá. Mas o mundo tem muita coisa estranha: pode ser que uma obra tenha recebido o primeiro lugar sem ser merecida. No mundo tem de tudo, passam de 7.000 coisas….multiplicadas por 7.

OM: Você é graduado em Letras pela Universidade Federal do Piauí, tem mestrado e doutorado em Estudos da Linguagem pela UFRN, e está ligado ao Departamento de Letras da UFRN. Seguir a carreira acadêmica sempre foi sua meta, ou tudo aconteceu de forma natural?

MD: Havia uma meta, sempre latejava. Mas havia o destino. Entre os dois me digladiei. Quem sabe tenha vencido as Parcas; talvez, como queriam os antigos gregos, tenha caído justo onde era meu lugar desde sempre. Desconheço o que é natural, pois nada caiu do céu, foi uma trajetória cheia de encruzilhadas. De qualquer maneira, sou o que quis ser: habitando o mundo mágico da linguagem. Quedo-me aqui. Vou indo, como todo mundo.

OM: Qual a sua avaliação em relação à produção literária atual aqui no Rio Grande do Norte e os novos escritores?

MD: Coisas dignas de constar em qualquer boa literatura. Vejo com simpatia, porém há muita coisa de má qualidade, sobretudo os poetas que lidam com a noção ultrapassada do amor.

OM: Poderia citar alguns nomes potiguares que podem ser tomados como boas referências na literatura do país?

MD: Paulo de Tarso Correia de Melo, Theo Alves, Leontino Filho, Adriano de Sousa, Franklin Jorge, Diva Cunha, Eli Celso, Iracema Macedo, Jarbas Martins, Zila Mamede, Nivaldete Ferreira (grande romancista), Carmen Vasconcelos….tem muita gente boa.

OM: Na Universidade você é professor de Literatura Portuguesa, mas atua também nas áreas da Literatura Brasileira, Poesia, Imaginário, Crítica literária. Qual a área que você prefere?

MD: Olha, sempre falo que a Teoria da Literatura e a Literatura, assim como muitas das suas noções e categorias analíticas, são o melhor lugar para se contemplar de maneira crítica o que é produzido em arte ou os fenômenos sociais. Observando meus poemas e meus ensaios, constata-se essa assertiva: a literatura e sua respectiva teoria estão presentes (veja que nunca esqueço o velho e bom Aristóteles, sem esquecer seu mestre Platão, tento uma possível síntese, talvez). Gosto de tudo o que se refere à cultura e ao que o homem produz, de bom ou de mau (meu papel é o de crítico, quase sempre apresentando a simbólica do objeto ou estabelecendo um juízo de valor).

OM: Na sua opinião, porque as pessoas, principalmente os jovens, estão cada vez mais longe da literatura interessados cada vez mais nessa cultura de plástico, se tornando cada vez menos críticos e seletivos? O que fazer para mudar esse quadro?

MD: Toda época foi igual, quer dizer, sempre se representou da mesma maneira: há os mesmos queixumes de uma época de ouro perdida, que antes foi melhor, que houve um passado mais interessante, que os homens eram mais gentis, liam e apreciavam a arte. Ora, nunca houve isso. Nossa época apenas escolhe as lágrimas que estão ao seu alcance para prantear uma invariante antropológica que é a de um paraíso perdido. Só para ficar num exemplo, há papiros muito antigos do Egito que reclamam do presente, exaltando o passado.

OM: O surgimento dos e-books facilitará o acesso de um maior número de pessoas às obras ou aumentará o desinteresse das pessoas pelos livros?

MD: Francamente, não tenho a mínima ideia, pois não acompanho essas coisas.

OM: Você está divulgando a sua tese do Doutorado, concluído em 2006, intitulada “Imaginário e Poesia em Orides Fontela”. Quando o livro foi publicado? Onde pode ser encontrado? Você disse que não vai fazer lançamento. Por quê?

MD: Foi publicado agora no começo do ano. Distribuirei a parte que me coube da edição entre amigos, críticos. Pode ser encontrado na livraria da editora da UFRN, no Centro de Convivência. Não gosto de lançamentos, que rima com constrangimento (quase que obriga os amigos a adquirirem uma coisa que, muitas vezes, nem leem). Também sou preguiçoso, dá muito trabalho organizar aquilo tudo. Ademais meu talento para ator é pouco, teria que representar uma noite toda, o que me deixaria cansado e, ao mesmo tempo, insone. Elogios mútuos são tediosos e fatigantes. Já tenho idade, compreende?

OM: Alguma outra obra para ser lançada em breve?

MD: Sim, um livro que é uma coletânea de ensaios publicados. Dois livros de poesias. Sem previsão para sair, mas ambos terminados.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Bethânia Lima 30 de Agosto de 2011 9:36

    não por ser aluna, mas o admiro muito. Considero-o “certeiro” demais com as palavras, e não consegue realmente representar…

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