Entrevista com Peter Sunde

Por Tatiana de Mello Dias
Estadão

Você pagaria cinco reais por mês para ter acesso a músicas, filmes, livros e todo tipo de conteúdo na rede? Peter Sunde, co-fundador do PirateBay, aposta que sim. Depois de passar anos à frente do maior site de torrent do mundo e ser condenado pela justiça sueca a um ano de prisão e multa de 3,58 milhões de dólares, Peter Sunde está em outra.

Em agosto do ano passado, Sunde anunciou a sua saída do PirateBay. Ele avisou em seu blog que estava investindo em novos projetos. Nessa semana a menina-dos-olhos do sueco foi apresentada, ainda em versão beta: é o Flattr, um sistema de micropagamentos por conteúdo. Peter Sunde contou ao Link que teve a ideia pela primeira vez em 2006, mas só formou sua própria empresa mesmo em 2008.

Segundo o pirata – ou ex-pirata –, hoje há cerca de 100 pessoas usando o Flattr, a maioria conhecidos da equipe. O Link conversou com Sunde sobre a ferramenta.

O que aprendeu com o PirateBay?
Aprendi que a maioria das grandes empresas de conteúdo não tem interesses reais em ajudar a internet. Essa indústria quer esmagar e controlar a web. O Flattr, como o PirateBay, é uma maneira de tirar o poder da grande indústria e colocá-lo nas mãos dos usuários e criadores reais. É uma outra ferramenta que pode ajudar a indústria de conteúdo a mudar um pouco.

O Flattr é uma forma moderna de pirataria, de certa forma?
Não, o Flattr não é pirataria. É compartilhamento. Ele está contornando a necessidade de pirataria. E, sim, a pirataria é uma necessidade para a maioria das pessoas hoje. É porque a lei está errada.

Por que a criação de um serviço pago?
A discussão em torno de “como os criadores deveriam ser pagos” sempre esteve ao meu redor. Mas sempre tive a impressão de que falamos de 100 pessoas no total, os artistas realmente ricos. Eu procurei achar uma alternativa que ajudasse as pessoas comuns, o artista que não está na parte mais alta da calda longa, a receberem dinheiro.

O público está disposto a pagar por conteúdo?
Sim, definitivamente, se o conteúdo puder ser facilmente acessado da maneira que os usuários quiserem. Nós acreditamos que isso irá encorajar as pessoas a pagar e os criadores a criar mais conteúdo, simplesmente porque o trabalho deles pode valer alguma coisa.

Como funciona o pagamento?
O valor é de no mínimo dois euros por mês, mas você pode pagar mais se quiser. Há vários modelos de pagamento – via cartão de crédito, PayPal ou mensagens de textos.

O Flattr funcionará em todo o mundo?
Sim, será lançado mundialmente quando não estiver mais na versão beta. Por enquanto, os testadores são em sua maioria amigos da Escandinávia em que confiamos e de que gostamos!

MAIS CLIQUES, MAIS DINHEIRO

Peter Sunde defende que o Flattr é uma maneira de mostrar que você gostou de algo – e remunerar o criador por isso. Para participar, é preciso se cadastrar (por enquanto, só com convites).

Cada pessoa paga uma quantia fixa por mês. Se você gosta de uma ou de centenas de coisas, não faz diferença. No fim do mês, o dinheiro é dividido igualmente entre os criadores do conteúdo.

O Flattr funciona exatamente como os botões de ‘retweets’: ele acumula reputação. Se gostar de algo, basta clicar no botão Flattr. Pronto, parte da sua mensalidade vai para quem criou aquilo.

O interessante do sistema inventado por Sunde é que ele remunera através da coletividade. Quanto mais pessoas gostarem de uma coisa, mais dinheiro o autor ganhará por ela.

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