Entrevista com Rodrigues Neto


“A cidade precisa contar sua história pela arquitetura”

Jornalista renomado e o mais novo presidente da Fundação Capitania das Artes, Rodrigues Neto é, antes de tudo, um espirituoso. Após largar a direção geral da TV Ponta Negra para comandar o turbulento barco da gestão cultural do município, Rodrigues Neto tem travado batalhas constantes contra a burocracia para fazer a cultura de Natal avançar, sobretudo em uma área de interesse dos arquitetos e, claro, do natalense como um todo: a preservação do patrimônio arquitetônico e histórico da cidade.

Formas: Natal está prestes a ter sua fisionomia arquitetônica modificada?
Rodrigues Neto: Uma das coisas mais interessantes das ações culturais do Governo Federal é o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas. A cidade do Natal tem 410 anos de história. E ela tem um patrimônio, um sítio arqueológico, um acervo arquitetônico destruído, abandonado. É diferente das cidades históricas mineiras, em que tudo está muito bem preservado. Recentemente, Salvador teve o Pelourinho todo revitalizado com recursos próprios. E hoje, Natal desperta, de forma consistente para esta importância. Temos ainda um departamento de patrimônio material e imaterial pequeno e investimento idem. A expectativa agora é que consigamos vislumbrar um trabalho maravilhoso dos nossos arquitetos a partir da garantia desses recursos federais.

Formas: O pensamento, então, é de recuperar os trechos históricos da cidade…
Rodrigues Neto: O momento agora é de repensar Natal. A cidade precisa ter sua história contada. Estamos à véspera de uma Copa do Mundo. Sua cultura deve estar preservada. Seus casarões, logradouros… O sítio histórico mais importante que temos hoje, do ponto de vista arquitetônico, é a Ribeira. No entanto, só vemos fachadas restauradas na gestão do prefeito Aldo Tinoco. Na verdade, muito mais uma pintura. Não havia um projeto aprofundado como o do PAC das Cidades Históricas.

Formas: Os recursos advindos da Copa do Mundo serão empregados em benefícios estruturais à cidade que fogem à preservação do patrimônio histórico. Como unir a importância da conservação histórica e a necessidade de modernização?
Rodrigues Neto: Não sei porque houve tanta crítica quando falei a respeito do turismo cultural. Precisamos vender nossa cultura ao turista. Ele precisa e quer ver o que nós temos em termos de cultura e história. É melhor que vir explorar sexualmente nossas crianças e adolescentes. Essa concepção de cidade moderna é projetada para o futuro preservando a sua história. Temos áreas para receber a modernidade. Precisamos tirar as 77 favelas de Natal – essas manchas urbanas criadas por fatores sociais diversos – e recuperar nosso patrimônio arquitetônico.

Formas: Quais os impactos deste desleixo histórico com o patrimônio?
Rodrigues Neto: Onde nasceu Câmara Cascudo? Na Rua das Virgens. Mas não existe mais a Rua das Virgens. Sabe-se que foi na Ribeira. Como a história é recente, ainda temos relatos. Mas todo o histórico do Rio Grande do Norte é muito polêmico e muito se deve a esse descaso com o patrimônio arquitetônico e histórico. Outro exemplo foi o massacre de Uruaçu e Cunhau. Foi estudado por vários historiadores e muitos polemizam a veracidade da versão mais aceita. Monsenhor Francisco de Assis conseguiu identificar recentemente o conhecido massacre. Mas faltam registros históricos suficientes. E será que Evita Perón, Saint Exupéry passaram por Natal? Ninguém consegue provar. E isso tudo são dúvidas recentes. A própria fundação da cidade tem três linhas defendidas por historiadores e antropólogos. Imagine o que já se perdeu na época do Império. O primeiro palácio do Governo, por exemplo, está caindo…

Formas: Esse projeto será um recomeço mesmo que tardio da recuperação histórica da cidade?
Rodrigues Neto: Vamos tentar recuperar prédios decadentes e tombar alguns patrimônios. Sabemos que têm alguns tombados pelo patrimônio federal e estadual. São muito poucos para uma cidade de 410 anos. Ora, passou-se aqui um presidente da República americano junto com o presidente Getúlio Vargas para traçarem um pacto da OTAN. Desceram aqui em um anfíbio no Rio Potengi e seguiram para a Rampa, que em qualquer lugar do mundo estaria preservado e serviria de atração turística, mas está abandonado.

Formas: Como se dará a distribuição desses recursos?
Rodrigues Neto: É uma parceria entre o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a Unesco, com a contrapartida de 20% do município. Serão R$ 25 milhões investidos. Cabe a prefeitura empregar R$ 5 milhões no projeto.

Formas: E qual o primeiro passo?
Rodrigues Neto: Vamos começar pelo Corredor Cultural. Seria a ligação da Cidade Alta com a Ribeira e seus entornos: nossos dois principais sítios arquitetônicos e históricos, por onde a cidade nasce e cresce em seus primeiros anos. Temos ainda Petrópolis e Tirol. Não sei precisar a data do início das obras, mas será ainda neste semestre.

Formas: Quem será o arquiteto responsável pela elaboração do projeto?
Rodrigues Neto: Haroldo Maranhão. Ele já tentou implantar projeto na gestão do então prefeito Garibaldi Filho, depois foi o responsável pela revitalização da Ribeira no governo Aldo Tinoco – projeto patrocinado por uma marca de tinta coral. Acontece que após elaborar estudo minucioso do ponto de vista histórico, antropológico e cultural a respeito dos prédios da Ribeira, começou o trabalho de revitalização e teve que interromper porque a gestão de Aldo terminou. À época, ele não teve condições e acesso à computação gráfica como tem hoje.

Formas: Ele aceitou o convite mesmo após essa decepção?
Rodrigues Neto: A princípio, não. Ele reclamava do cansaço em preparar mão-de-obra qualificada para identificar que tijolo tal foi de época tal, a identificação dos estilos e peças arquitetônicas, enfim. E tudo é muito trabalhoso justo pela má conservação histórica dos prédios. Por exemplo: há boatos que afirmam que o poeta Jorge Fernandes morou na Rua Vigário Bartolomeu, mas ninguém sabe precisar. Não há provas de que o poeta Ferreira Itajubá viveu, realmente, na Rua Chile. Em outras cidades como Ouro Preto e Mariana a arquitetura fala por si ou há referências indicativas e explicativas na própria edificação. Haroldo aceitou elaborar novo projeto porque agora há a garantia dos recursos. É um projeto irreversível, mesmo com a mudança de governo. Até porque são vários ministérios envolvidos.

Formas: Outro nome chegou a ser cogitado?
Rodrigues Neto: Não, mas temos uma geração maravilhosa de arquitetos que vem lá de Marconi Grevi até a boa leva de hoje com Marília Sá, Olga Portela e tantos outros também atuando em outro filão que é a arquitetura de ambientes em prédios suntuosos. Temos artistas plásticos como o próprio Demétrius, super modernos que trabalham junto com os arquitetos. Hoje todo mundo quer uma casa funcional, confortável e de arquitetura assinada por grandes profissionais.

Formas: Estamos à vés
pera do Carnaval. Como está a organização para os festejos?

Rodrigues Neto: Nossa meta e crescer um pouco mais a cada ano. Falta a Natal a cultura de curtir a época na cidade. Diante dos muitos anos de decadência, as pessoas migram para cidades do interior como Caicó, Macau, Areia Branca. Alguns de classe média ou classe média alta vão para fora do Estado. Natal já teve dos melhores carnavais do Brasil. Queremos levar ao turista muito mais do que descanso, mas também curtição carnavalesca. Temos a Redinha, onde o carnaval não para. As Rocas como berço do samba que se sustenta mesmo sem estrutura adequada. Veja que Olinda investe R$ 45 milhões do erário público no carnaval para o turista curtir uma semana inteira. Aqui queremos a parceria com a iniciativa privada, cada um com R$ 1,5 milhão. E até o empresariado acreditar que Natal tem carnaval com segurança, opção de carnaval em diferentes pólos culturais, rede hoteleira de qualidade, leva algum tempo. Queremos, no futuro, que o carnaval seja totalmente patrocinado pela iniciativa privada.

Formas: A decoração do Natal em Natal será aproveitada no carnaval?
Rodrigues Neto: Já conversei com alguns artistas plásticos. Vamos trabalhar muito com a reciclagem. Há três associações de reciclagem em Natal. Então, vamos buscar nas garrafas Pet, latinhas de cerveja e refrigerante a nossa matéria-prima para a decoração, inspirada no resgate dos antigos carnavais. E que seja uma decoração aproveitável em outros carnavais.

* Entrevista concedida à Revista Formas, publicação mensal voltada ao ramo da arquitetura.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Sandro Abayomi 27 de Janeiro de 2010 11:25

    Reunião entre um presidente americano e Vargas, em Natal, para formar um "pacto da OTAN"?????? Caramba!!! Esse é o "entendido", responsável pela cultura da cidade? Mais uma frase "lendária" deste que, juntamente com Vicente Mateus (ex-presidente do Corinthians Paulista) e o Jardel (ex-atacante do Grêmio), sobe ao panteão das folclóricas frases de (d)efeito.

  2. Alex de Souza 27 de Janeiro de 2010 11:58

    Foi, de longe, o maior amontoado de equívocos que pude presenciar em minha breve vida.

  3. Anonymous 27 de Janeiro de 2010 22:33

    Rodrigues Neto, por favor, vai "Cagando e andando" e não volte mais. Aproveite e leve sua lagarta pra bem longe de nós.

    Júlia Mércia

  4. Anonymous 28 de Janeiro de 2010 15:49

    com esse conhecimento histórico, só pode ta lendo os livros do sebo vermelho.

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