Entrevista com Safran Foer

Por Cíntia Bertolino
Estadão

No seu primeiro título de não ficção, o escritor americano Jonathan Safran Foer disseca a indústria da carne nos EUA

Em Eating Animals (Hamish Hamilton), publicado no fim de 2009 nos Estados Unidos, o escritor americano Jonathan Safran Foer traça um perfil perturbador das fazendas industriais, responsáveis por 99% da carne consumida naquele país.

Ao saber que sua mulher, a também escritora Nicole Krauss, estava grávida, Foer, tomado pela preocupação de alimentar um filho, quis saber em profundidade de onde vinha e como era produzida a carne que comia. Desde então é vegetariano. Autor dos elogiados romances Tudo se Ilumina (2005) e Extremamente Alto & Incrivelmente Perto (2006), ambos editados no Brasil pela Rocco, Foer passou três anos pesquisando o assunto.

Eating Animals será lançado por aqui, também pela Rocco, em meados deste ano, com tradução da escritora Adriana Lisboa. “Nem todo mundo adora o livro, mas mesmo quem não gostou concorda que este é um assunto que precisa ser discutido. Importar-se com essa questão é ser fundamentalmente humano”, disse ele nesta entrevista ao Estado, de Nova York.

Por que um romancista aclamado decidiu escrever um livro-reportagem sobre as fazendas industriais americanas?

Não foi uma coisa que escolhi fazer. Para ser sincero, não achei nem um pouco divertido. O livro trata de um tópico sobre o qual pouca gente escreveu, apesar do fato de ser algo enormemente importante. É como se existisse um véu silencioso ao redor do assunto – e escritores, frequentemente, são atraídos por coisas sobre as quais ninguém fala. Considero-me um romancista, não um autor de não ficção. Ainda assim, a discussão, se deveríamos ou não comer animais, sempre esteve presente na minha cabeça. Embora eu não pensasse nela seriamente desde criança, a decisão de deixar de comer carne tornou-se uma questão urgente quando minha mulher engravidou.

Como foi escrever o livro?

A pesquisa foi tremendamente frustrante; era difícil ver qualquer coisa relacionada ao assunto. A indústria impossibilitou completamente o acesso às fazendas onde a maior parte da carne consumida nos Estados Unidos é produzida. Acabei tendo que “tomar a lei em minhas próprias mãos”, como costumamos dizer. Mas, apesar de frustrante, esse processo foi muito revelador. Tenho vários amigos que me disseram que em vários momentos do livro ficaram tão surpresos que liam essas passagens em voz alta para suas mulheres e namoradas, sempre começando com um: “Deus do céu, você sabia disso? E disso?” Exatamente a mesma coisa aconteceu quando eu estava escrevendo. Em inúmeros momentos falei em voz alta: “Oh, meu Deus, é inacreditável.” Foi um processo chocante para mim.

Comer ou não comer carne é um assunto delicado de tratar. Foi difícil acertar o tom?

Acho muito irritante quem faz discursos pregando que as pessoas mudem. Existem várias questões que eu ainda não tenho certeza. No curso da produção desse livro estava tentando também encontrar meu próprio caminho. A falta de certezas absolutas me encorajou a escrever de um modo, talvez, mais humilde. Acho isso importante quando você tem de desenvolver um argumento. Como disse, foi muito difícil fazer a pesquisa, mas nada foi mais difícil do que achar o tom certo.

A preocupação era não deixar que o livro se transformasse em um relato passional demais?

Em momentos pontuais deixo minhas emoções falarem explicitamente. Acho que esse aspecto faz parte da história. A história da comida tem fatos, estatísticas, mas também tem a ver com nossas emoções, memória, raiva, prazer e amor, as sensações que uma refeição em família pode desencadear. Não me preocupei em tentar convencer as pessoas. Nesse caso, informar é convencer.

Qual foi o impacto de se ver numa fazenda estranha no meio da noite?

Nunca quis ter de invadir um local em que não era bem-vindo. Não gosto desse tipo de situação. Contudo, era o que tinha de ser feito. Essa experiência teve um grande impacto sobre mim. Já tinha visto vídeos e fotos dessas fábricas, mas quando se está diante de um cenário desses, vendo tudo com seus olhos, é diferente.

É possível vislumbrar, para um futuro próximo, um cenário diferente do que você descreve no livro?

Uma mudança imediata é bem improvável, porém talvez daqui a 10 anos a maior parte das refeições que faremos seja vegetariana. Não acredito que todo mundo será vegetariano, mas acho que temos refletir mais a respeito de nossas escolhas. As pessoas dizem “não posso ser vegetariano”, porém usam isso como uma desculpa para não fazer nada.

Na fase de preparação do livro, você escreveu muitas cartas aos grandes produtores americanos de carne. Agora que a obra foi publicada, alguém da indústria se manifestou?

Não. Tudo o que eles não querem é chamar a atenção.

Durante a produção do livro você trabalhou em outro projeto?

Sim, estou escrevendo um romance, para o qual não tenho previsão de lançamento. Escrever romances é o que imagino fazer pelo restante da minha vida. Não acredito que vá voltar a escrever não ficção.

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