ENTREVISTA: Crispiniano fala de passado, presente e futuro, e promete 10 festivais de cultura

Quase dez anos depois, o cordelista Crispiniano Neto volta à cadeira-mor da cultura estadual. Herda problemas estruturais e financeiros pouco vistos na história potiguar. Oito teatros fechados, museus ultrapassados, a principal biblioteca fechada, pontos de cultura praticamente falidos e uma lei de incentivo à cultura caduca. Os desafios parecem grandes, mas o gestor já está passado na casca do alho. Tem experiência de diretor da instituição e como artista, e uma equipe mais afinada às demandas urgentes. O projeto RN Sustentável sustentará boa parte dessas iniciativas – mérito de Crispiniano, que soube “farejar” essa fonte inestimável à Fundação José Augusto, sobretudo em tempos difíceis de UTI financeira em qualquer âmbito do poder público. Na entrevista a seguir, o gestor traz muitas novidades: criação de novos projetos e retorno de outros, reformulação da Lei, novo formato para as Casas de Cultura; fala de passado, presente e futuro. Confira!

CULTURA NO BRASIL NA ÚLTIMA DÉCADA
No geral o que mudou é que, apesar dos contratempos ocorridos nos ministérios de Ana de Holanda e Marta Suplicy, quando foram quebradas trajetórias de políticas públicas implantadas por Juca Ferreira e Gilberto Gil, permaneceu a semente dessa política. Justo porque era forte e fruto de uma construção coletiva, junto aos segmentos organizados, às câmaras setoriais. Não era uma política oriunda da cabeça de Gilberto Gil ou de Juca. Claro que o DNA, as digitais do gestor têm um peso grande, mas era algo construído coletivamente. E elas tentaram quebrar isso com ideias muito personificadas. Marta, por exemplo, tentou trazer os CEUS (espécie de centros culturais multiuso), da experiência dela como prefeita de São Paulo. Então, os Pontos de Cultura não tiveram o mesmo ritmo com as duas; a política de audiovisual enfrentou dificuldades; a política de financiamento à cultura, também; o Sistema Nacional de Cultura teve um descompasso na sua construção; faltou a continuidade na luta pela PEC 150, que daria 2% do orçamento da União ao MinC, 1,5% aos Estados e 1% aos municípios. Isso teria impacto tão forte na cultura que aqui no Rio Grande do Norte sairíamos, naquela época, de R$ 23 milhões para R$ 115 milhões. Então, houve essa paralisação, ou como diria Martinho da Vila, uma disritmia.

CULTURA NO RN NA ÚLTIMA DÉCADA
Aqui, também deixamos uma semente com setores minimamente organizados. Não foi o que sonhamos, mas ficou. Veja que há hoje um Fórum de Músicos, tem grupos de audiovisual organizados, tem um grupo de dança que até já me pediu uma reunião, o setor de folclore ganhou patamar a ponto do presidente da associação local representar hoje a associação nacional. E os segmentos, de modo geral, se organizaram e isso permaneceu. Se não cresceu, não acabou.

PONTOS DE CULTURA
Os Pontos de Cultura apresentaram um retrocesso grande nos últimos anos. Hoje respondemos dezenas de diligências, algumas com 550 dias de atraso. A segunda parcela da maioria dos Pontos não foi recebida, quando já deviam ter recebido a terceira há muito tempo! Motivos são debilidades da própria Teia, por falta de apoio e capacitação da Fundação para prestar conta e tudo mais, e falhas da gestão da Fundação em não acompanhar isso e deixar de repassar a contrapartida à União. Então, chego num ponto em que há dificuldades de o Estado dar essa contrapartida, no valor de R$ 1,2 milhão para alavancar mais uns R$ 3 ou 4 milhões, que estão parados à espera desse repasse nosso. Estamos tentando rearrumar a Rede, fazer um encontro da Teia, antes do evento nacional e tentar junto ao governador a liberação dessa contrapartida que está atrasada.

TEATROS E BIBLIOTECA FECHADOS
Se falava em quatro teatros fechados, mas encontrei outros. Trabalhamos hoje com oito. Além do Alberto Maranhão e Chico Daniel, em Natal, o Adjuto Dias em Caicó e o Lauro Monte em Mossoró, temos o teatrinho fechado dentro da Cidade da Criança, e já conseguimos enquadrá-lo no RN Sustentável. Com R$ 200 mil colocaremos esse espaço para funcionar, além da cobertura do palco e, agora, também para a concha acústica. E ainda um circo, que não deixa de ser mais um espaço às artes cênicas. Temos mais dois teatros em Mossoró, da Secretaria de Educação, que estão fechados. E ainda a Biblioteca Câmara Cascudo, fechada há tanto tempo e perto de 30 anos sem renovação de acervo. O projeto de compra de novos livros foi eu que deixei, mas como não foi concluído, nada foi feito. Tivemos problemas porque fizeram alterações no projeto e o MinC embargou e não repassará mais o dinheiro. Era x e fizeram y. Então, estamos numa luta para convencer o governador – e acredito que conseguiremos – para terminar a Biblioteca com dinheiro próprio do Estado ou via RN Sustentável. Outra área muito desgastada é a dos museus. O Forte dos Reis Magos, o mais ativo, foi entregue ao Iphan. A Pinacoteca precisa de restaurações significativas. O museu de Arte Sacra, o Café Filho e o Memorial Câmara Cascudo precisam de adequações, restauros e acessibilidade.

CIRCO DA CULTURA
Queremos resgatar o Circo da Cultura, projeto realizado na gestão de Cortez Pereira na década de 70 e que revelou tantos artistas, a exemplo de João Marcelino. Esse projeto depois se transformou no Circo da Luz, capitaneado por Racine Santos. O Circo da Luz acabou e a estrutura do Circo não foi devolvida à Fundação. Solicitamos a Racine essa devolução e ele não só se prontificou a devolver, mas também escrever o projeto para reativarmos o Circo da Luz junto à Funarte. Caso consigamos, esses circos circularão pelas Casas de Cultura. Será ótimo à comunidade circense. Olha, eu já vi muito artista com dificuldades, mas nada perto da gente que vive do circo. Na minha outra gestão cheguei a comprar alguns espetáculos para o Dia da Criança e quero poder ajudar de novo nessa nova gestão. Será bom para o público – alunos da rede pública – e para eles.

CASAS DE CULTURA
As Casas de Cultura não morreram, como muita gente pensa. Atividades permanecem por lá, por conta dos próprios artistas das cidades, fruto, talvez, de um empoderamento desses artistas proporcionado em nossa primeira gestão, quando criamos a Associação dos Amigos das Casas de Cultura, justamente com medo de o agente de cultura se transformar naquele funcionário burocrata que assina o ponto e vai embora. Então, há atividade nessas Casas mesmo sem a intervenção ou apoio da Fundação. Para se ter ideia, quando tínhamos dez Casas de Cultura investíamos R$ 1 milhão. Agora temos 28 Casas e destinamos R$ 1 mil por Casa. Isso muito mais por esforço de nossa equipe, porque não há mais recurso para isso. Esse ano temos garantido R$ 1 milhão para atividades em convênio com a Secretaria de Educação, mais um convênio nosso com R$ 300 ou R$ 400 mil para programação. E colocamos R$ 2 milhões como orçamento de um projeto inscrito na Lei Câmara Cascudo para a Associação dos Amigos das Casas de Cultura, que possui CNPJ independentes. Então, vamos tentar captar junto com eles. E pelo RN Sustentável, vamos aplicar uns R$ 12 a 15 milhões na infraestrutura das Casas de Cultura, com climatização dos auditórios, caixas cênicas em todos eles, porque tinha palco, mas não tem estrutura de recursos teatrais. E ainda equipamento de som, luz e projeção para audiovisual. São 28 Casas mais uma de Jardim de Piranhas, que absorvemos para nossa Rede, em parceria com o município.

HERANÇA DE GESTÃO

Militância cultural-partidária já conta décadas
Militância cultural-partidária já conta décadas
A gestão de dez meses de Bico já buscou recuperar equipamentos. A herança mais negativa vem do governo anterior. Determinados aspectos da política cultural foram totalmente desprezados. As Casas de Cultura, os museus, os teatros. Mas estamos com boa vontade do governador. E quando eu cheguei procurei farejar onde tem dinheiro para reverter esse quadro. E esse dinheiro está no RN Sustentável. Buscamos, então, convencer a equipe do RN Sustentável de que, se o projeto é para fortalecer a economia do Estado, precisamos encarar a cultura como fator econômico que representa 4% do PIB (o Turismo representa 3,7%, em âmbito nacional).

TEATRO ALBERTO MARANHÃO
O projeto de restauração do Teatro Alberto Maranhão estava inserido no PAC das Cidades Históricas. Como a demora para liberação dos R$ 8 milhões estava grande pelo Governo Federal, o governador reservou R$ 2,5 milhões do RN Sustentável para a reforma básica exigida para reabertura do Teatro. Então procuramos convencer o governador – e conseguimos – que fosse investido todos os R$ 8 milhões pelo RN Sustentável. Isso porque seria muito ruim atender o projeto de acessibilidade, prevenção de incêndio e cobertura para evitar infiltrações, entre outros problemas estruturais para reabertura, e inaugurado o Teatro, três ou quatro meses depois, precisar fechar novamente para novas reformas. Quando o governador autorizou os R$ 8 milhões, descobrimos outra falha no projeto: não tinha caixa cênica. Sem esse equipamento seria o mesmo que transformar o teatro em um auditório. Então, contratamos um técnico da Funarte especializado no assunto para agilizar esse projeto e, aproveitando sua estadia aqui, bancada com recursos do governo, elaborar o projeto de caixas cênicas dos outros teatros fechados. Com isso, o projeto de R$ 8 milhões saltou para R$ 10 milhões. Bom lembrar que já tivemos a melhor caixa cênica entre os teatros brasileiros, depois prejudicada com reformas sequenciais.

ATUALIZAÇÃO DA LEI CÂMARA CASCUDO
Nos últimos anos houve várias iniciativas, mas sem “terminativas”. Na minha outra gestão chegamos a abrir debate. E vamos reabrir nesta administração também prorrogando os atuais mandatos da Comissão da Lei para discutirmos o assunto. Inclusive vou protocolar portaria hoje (2 de março) com esse intuito. No final desse ciclo de discussões vamos eleger uma nova Comissão para operar a nova Lei. Agora, como sabemos, a criação de uma nova Lei é atribuição da Assembleia Legislativa. Já solicitei ao deputado Mineiro uma audiência pública para tratar o assunto, oficializando o resultado do debate na casa legislativa. É um tema urgente. O primeiro absurdo da Lei é que uma empresa, para patrocinar um projeto, destina apenas 2% do imposto pago de ICMS. Ou seja: se a empresa tem faturamento de R$ 1 milhão só pode financiar um projeto de até R$ 40 mil. Nesse modelo, a imensa maioria dos empresários fica impossibilitada de patrocinar. E sobram, basicamente, a Cosern e a Petrobras (esta última se afastou nos últimos anos). Dessa maneira, são aprovados em torno de 200 projetos ao ano e apenas 20 deles, ou 10%, conseguem captar. Desses 20, uns 6 ou 7 conseguem captar em torno de 75% do valor do projeto. Os outros ficam com 25%. Outro absurdo: 91% dos projetos que conseguem captação são de Natal. Os outros 9% são praticamente de Mossoró. E o resto do interior? São muitas dificuldades. Empresas que pagam ICMS antecipado ou beneficiadas pelo Proadi ficam praticamente incapazes de financiar, entre outros obstáculos.

E O AGOSTO DA ALEGRIA?
Na verdade, o Agosto da Alegria foi criado em nossa gestão, como Agosto de Teatro. Nossa antecessora juntou esse festival de teatro com a Semana do Folclore e criou o Agosto da Alegria, nascido e morrido, como você lembrou, na própria gestão anterior, e sem deixar saudades. Agora, o que eu penso dos eventos? Tem o e-vento e o evento, que é a continuidade de um processo. O Agosto da Alegria era a junção de vários espetáculos, era e-vento. Também tivemos o momento dos vários autos natalinos, com grande presença de público, mas para montar esses autos pinçávamos alguns dos atores dos grupos de teatro e esses grupos ficavam desfalcados para dar continuidade às suas ações. Ou seja: desestimulávamos o processo de formação, produção, montagem e circulação desses grupos; eles paravam de funcionar. Então, quando criamos o Agosto de Teatro foi na expectativa de, no primeiro semestre, fortalecer essa sistemática de montagem de peças, para no segundo semestre poderem apresentá-las, e não só naquele momento. Então esse processo todo é um evento, mas fruto de um processo contínuo, e não uma junção de espetáculos.

10 FESTIVAIS DE CULTURA E VOLTA DO AGOSTO DE TEATRO
Pretendemos lançar a volta do Agosto de Teatro no Dia Nacional de Teatro, dia 27 de março. A programação para este dia, inclusive, está sendo discutida entre João Marcelino, Tatiana Fernandes, Toinho Silveira e Beto Vieira. Já apresentamos proposta ao RN Sustentável para criação de dez festivais, cada um com orçamento de R$ 150 mil. Seria um festival de música, de dança, de audiovisual, de poesia popular, etc, abrangendo dez manifestações culturais, inclusive o teatro com a volta do Agosto de Teatro. Já há uma sinalização para bancar esse projeto, dentro da proposta de fortalecer a economia da cultura. Isso porque todos esses festivais viriam precedidos de capacitações técnicas e ações estruturantes, culminando com a apresentação.

FUNDO ESTADUAL DE CULTURA
Em reunião, o secretário de Planejamento deixou muito clara a dificuldade financeira do Estado e a prioridade para o pagamento da Folha. E nós pedimos duas prioridades para a cultura, dentro da Fonte 100, que são os recursos do Governo: a primeira foi recursos para pagamento de cachês, e a segunda foi R$ 500 mil para o tão sonhado Fundo Estadual de Cultura funcionar, com abertura de editais, o que não deixa de ser também pagamento de cachês, só que via premiação. Dessa vez só abriremos edital com dinheiro empenhado, garantido.

REELEIÇÃO DE ROBINSON = MAIS 4 ANOS DE CRISPINIANO?

"Quero primeiro reeleger o governador Robinson"
“Quero primeiro reeleger o governador Robinson”
Meu desejo é reeleger o governador. Pela dificuldade que ele tem enfrentado no Estado, outro não conseguiria fazer o que ele tem feito. Então acho que ele merece outra oportunidade para poder realmente governar com domínio do orçamento e não a todo momento tentando repor o desastre feito na gestão anterior. Robinson tem sido um médico de UTI com quatro pacientes terminais e apenas um leito disponível. A todo momento ele precisa fazer escolhas porque falta recursos para todas as áreas. Governador reeleito, podemos avaliar um segundo mandato nosso. Tenho críticas à minha primeira gestão e tinha dúvida de como eu seria recebido nessa, mas fui muito bem acolhido. Já são 60 anos sendo nove de gestão pública, porque depois dos quatro anos da FJA passei mais cinco respondendo ao Ministério Público (risos).

NOVA EQUIPE DA FJA
Temos apenas quatro meses de gestão e já mostramos trabalho fruto de uma equipe muito experiente. Tanto os que permaneceram da gestão de Bico, como Donizete Lima, Aílton Medeiros e Buhiu, por exemplo, quanto os que entraram, como Moisés de Lima, Aécio Cândido (adjunto) formam um time muito maduro. O próprio Toinho, Padre Pedro… Uma equipe muito capacitada. Na primeira gestão ficávamos tateando, hoje vamos direto ao assunto.

CONVOCAÇÃO DO PT
Não recebi propriamente um convite para assumir a Fundação, mas uma convocação (risos). Foi um apelo do PT, do grupo de Mineiro. Era um momento delicado. O governo Robinson nos confiou a pasta e não podíamos abandonar o barco. Mas encontrei um ambiente melhor do que eu esperava. Como disse, fui bem acolhido. Não vi nenhum problema maior ou igual ao que encontrei na primeira gestão. Crise na cultura não é novidade, não vem de hoje. Passei minha vida fazendo cultura sem recurso algum, produzindo cantorias de violeiros pelo interior com refletores de latas de manteiga e papel celofane; semanas de filosofia, festivais de música… Se tinha dinheiro nessa época, eu nunca soube.

FOTO DE CAPA: Carlos Costa

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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