ENTREVISTA Dácio Galvão: “Nos maiores carnavais do país são sempre as mesmas atrações”

Números do Natal em Natal e do Carnaval são vultosos e atestam a importância dos famigerados eventos para a economia da cidade. O milhão investido se reverte em milhões de arrecadação. Isso é fato incontestável. Cabe discussão, sim, se fomenta a cultura de Natal. No pensamento do secretário municipal da pasta, essa é uma realidade alimentada no Brasil e no mundo. E dá exemplos. Na entrevista a seguir, feita rapidamente por celular, Dácio Galvão comenta ainda a frustração com o Natal em Cena e, em tom de desabafo, critica a crítica feita à diferenciação de cachês e tratamento entre os ditos artistas nacionais e locais. Confira:

NATAL EM NATAL
“Sabemos que o investimento no Natal em natal foi bom. A música foi preponderante. Somamos mais de 40 atrações com o Festival de Música de Natal, o aniversario da cidade e o palco livre, além do festival Natal Tem Música. Foi um movimento interessante pra esse segmento. Na área da dança fomos bem também com o Pavão Misterioso, baseado na obra de Ronaldo Correia de Brito. Acho que o Festival Literário de Natal (Flin) se consolidou para além das fronteiras da cidade. Para onde temos ido os ecos são grandes. O próprio Ronaldo Correia de Brito fala de referências muito boas. Conversando com o empreendedor corporativo Joao Dória Jr, candidato à prefeitura de São Paulo, em papo para discutir captação, ele pegou o material do festival e disse: “Porra, prefeito, por que não foi lançado em Paraty?”. E acho que o réveillon também foi bem, feito com artistas locais.

Tivemos dois contrapontos diante da crise, do ponto de vista financeiro, que foi o Natal em Cena, porque fizemos uma gestão tanto para isso quanto para o Cine Natal. Foram duas frustrações. Articulamos com o MinC, que sinalizou positivamente, na proporção do investimento “nós com um e eles com dois” – via de regra é assim que funciona. E terminou que não aconteceu. No Natal em Cena investimos R$ 400 mil no primeiro ano, e no outro, R$ 1 milhão. E nesse ano estávamos com expectativa para zero, diante das dificuldades. Mas conseguimos com o MinC R$ 200 mil. (Fernando) Yamamoto, Quitéria (Kelly), Josenilton (Tavares), Lenilton (Teixeira), Ivonete (Albano) e Grimário (Farias) se mobilizaram e discutiram um novo formato com esse pouco dinheiro, que foi empenhado em dezembro. Aí a Funarte pediu um parecer e disseram não teria problema em adiar a data do evento. Em resumo: o dinheiro está empenhado e tínhamos o aval para realizar o Natal em Cena em outra data, que seria em março. Mas a Funarte deu parecer recente contrariando o que o próprio MinC tinha autorizado. Estamos tentando resolver, mas até o momento não temos mais autorização para fazer o Natal em Cena, mesmo com dinheiro empenhado. Ou seja, foi o lado negativo do Natal em Natal.

CRISE FINANCEIRA
Essa dificuldade financeira atrapalhou muito. Para se ter ideia, fizemos gestões ao telefone junto ao empresário José Vitor Oliva, ao Banco do Brasil, etc, batalhando recursos para um ano difícil. Aprovamos projetos na Lei Rouanet e tivemos parceiros importantes, principalmente a Cosern, que nos ajudou muito. Mas foi tudo muito difícil.

EVENTO X CULTURA (?)
Acho que a sociedade civil e segmentos mais conservadores precisam evoluir na conceituação do que seja evento. Na nossa leitura são propícias as ações continuadas. Sobretudo em um mundo capitalista, onde isso tem preponderância fundamental para a economia criativa, para a economia da cultura. É uma ação formadora, contrariando apenas o aspecto pedagógico da cultura, de cursos de qualificação, etc. O evento sobrepõe isso sem conflitar com isso. É muito redutora essa visão de que evento não é cultura. A Federação da Indústria do RJ criou um departamento de economia criativa. Economistas de tradição do país, gente de visão, têm dito reiteradamente que a economia da cultura não mais significa a cereja do bolo, mas o fermento, porque tem dado um olé na crise, justo porque envolve diversas cadeias da cultura.

E veja: ninguém falou que a saúde trabalhou no carnaval, que a Urbana, que a secretaria do trabalho e assistência social, o turismo, etc. Isso vai gerando cidadania, emprego e renda, circulação de capital e um processo de formação mais amplo. Temos os museus europeus com várias ações de eventos permanentes; não cabem mais visitas pedagógicas no museu. É algo superado. Com a cultura é do mesmo jeito. Então considero essa discussão provinciana e típica de Natal. Pernambuco já não se discute isso há anos. Temos um carnaval no Brasil vendido para o mundo. Em São Paulo, o (prefeito) Haddad deu declaração que a cada milhão investido arrecadou 40 vezes mais. Lá tem as viradas culturais, etc. Em Salvador nem se fala. O Maranhão começou também. Enfim, é uma discussão meio punker dos anos 60. Esse debate precisa ser mais amadurecido. Natal tem de entrar no trilho ou entra no discurso marxista/leninista dos anos 30.

CARNAVAL
Investimos R$ 5 milhões no carnaval de 2015 e capitalizamos uns R$ 50 milhões. Investimos em torno de 4,2 milhões esse ano. Marcelo Queiroz (presidente da Fecomércio RN) se articulou com gestores de Recife e Salvador para analisar uma metodologia de pesquisa e produzir um detalhamento do retorno desse ano. Ele me disse que estão processando os dados e até domingo estaria pronto. Posso dizer que a expectativa é de que teremos mais arrecadação mesmo com investimento menor. Um esforço do prefeito na contramão da crise. Veja que o MinC cortou quase R$ 1 bilhão do orçamento do ano passado. E todos sabem, herdamos uma prefeitura com responsabilidade fiscal comprometida. Corremos o primeiro ano todo para reverter o quadro. O orçamento do MinC no ano passado abriu quase em junho. Nunca houve isso. Fica difícil captar, planejar. E terminaram de cortar tudo agora. Ou seja: não tem grana. Projetos que tínhamos junto a parceiros privados foram todos cancelados. Tínhamos expectativa de patrocínio de R$ 600 mil pelo Banco do Brasil no carnaval. Depois diminuiu para 400 mil e ficou em zero! Sinalizaram com R$ 1 milhão no Natal em Natal e terminou com R$ 50 mil. Ainda assim você viu que o carnaval veio para ficar, e com várias manifestações espontâneas, independentes do poder público, como deve ser. Apresentamos um carnaval de qualidade do ponto de vista de conceito, de sonoridade, de repertório; tivemos a homenagem ao Chico Science, tivemos a própria Margareth Menezes, que além do samba reggae fez um arranjo de tieta fantástico. Claro, tem o momento das horas comuns. O próprio Monobloco fez isso. Tivemos os Novos Baianos fragmentados nas vozes de Baby e Paulinho Boca de Cantor, que com todas as controvérsias foi um show com saldo muito positivo. A Globo News fez links ao vivo, sem articulação nossa e ganhamos esse espaço internacional…

ATRAÇÕES REPETIDAS
Respondo essa questão com tranquilidade. Se você verificar os grandes carnavais do país são sempre os mesmos cantores. Moraes (Moreira) saiu de Salvador apenas por questão política e já está voltando. No mais são sempre as mesmas figuras porque eles emblematizam. Assistia o show de Khrystal e (o produtor cultural) Alexandre Maia comentava comigo que o repertório do show trazia Festa do Interior, etc. Ou seja: ela não tem saída. O próprio repertório daqui é calcado nos clássicos do carnaval, desses que estão vindo aqui se apresentar e são criticados por alguns. Não tem muito pra onde correr. O Monobloco vai da marchinha dos anos 40 até Jorge Bem Jor. Essa repetição é necessária. Eles dominam a cena e são o retalho do melhor carnaval do país. A concha acústica de Salvador vai ser inaugurada e vão levar o Novos Baianos. Essa repetição se dá por legitimação artística e mercadológica no país. Como não repetir a Spok (Orquestra de Frevo) que é a maior banda de frevo do mundo? “Ah, mas Recife também tem um polo recbeat”. Quando tínhamos grana também fizemos isso aqui. E olhe que aqui não temos uma referência como Chico Science. Lá tem maracatu e aqui não tem. Então não temos como investir R$ 35 milhões, como eles fazem.

DIFERENCIAÇÃO DOS CACHÊS
Primeiro existe uma súmula do STJ que possibilita que se pague o artista antecipadamente. Então, não há ilegalidade nisso. Outro ponto: quase todos eles (artistas nacionais) estão inscritos no mercado há mais de 30 anos: Moraes, Alceu, Armandinho… Eles construíram uma trajetória no mercado capitalista; eles têm uma marca e vendem o que valem. Não é o poder público que regula esse mercado. Roberto Carlos pode cobrar R$ 700 mil ou R$ 1 milhão como pode cobrar R$ 200 mil se achar justa alguma causa, etc. Você paga se quiser. Agora, se quiser um carnaval em cima de tudo isso que comentei, da economia da cultura, democratizando o acesso, ou você faz assim ou não faz. A música é o maior vetor de sociabilização. E esses artistas vencem os mercados. Não basta ter só o talento é preciso se mobilizar frente a esse mercado. E aí eles viram um produto. Ou seja: eles valem pelo que construíram ao longo de décadas, pela marca, pelo produto que são hoje, reconhecidos no país.

Agora, a crítica quanto a um cachê ser pago depois ao artista local se dá pela dificuldade grande do artista daqui de reconhecer esses fatores que falei. Se o artista nacional diz que não tem interesse em tocar, a gente corre atrás. E quando eles vêm é com essa condição. Eles têm esse poder porque são disputados. Por isso viajamos para articular diretamente para baixar valores. No caso de Baby fizemos negociação e vamos pagar em três vezes. Quando vendemos nosso conceito pessoalmente ganhamos a sensibilidade desses artistas. Com Alceu chegamos a conversar as 17h até 21h, e regado a água mineral. Os caras vão sacando e se compromissando com nosso conceito de cultura. Então acho que esses produtos (artistas) são importantes nesse fermento geral do qual falamos. Não da para associar o artista local e nacional assim. Há uma complexidade nisso. Não é “esse paga antes e esse outro depois”. O artista local não tem esse poder de exigência como outros têm. Se os outros não tivessem vindo, quem teria perdido: a cidade ou eles? É realidade. E falo de mercado! Esse debate precisa ser mais amplo. Não é talento, mas mercado. No fundo, há um grande desejo de o artista local trabalhar com o poder público. Mas não há aparelhamento. Veja que colocamos 120 inadimplentes para trabalhar nesse carnaval. Desses, mais de 70 ligados à área carnavalesca. Isso deveria fluir tranquilamente, mas há exigências burocráticas. Aqui o artista se acha num momento árcade, no olimpo; acha que a arte está acima de tudo, que a burocracia é capitalista. Mas precisamos amadurecer. É assim no Brasil inteiro.

PREVISÃO DE PAGAMENTO
Natal não é ilha. Pernambuco sofre da mesma burocracia e com atrasos de pagamentos. Moraes mesmo me disse. Na medida que os processos forem chegando, vão sendo liberados. Tudo muito aberto, transparente. É uma luta compartilhada entre nós e os artistas, porque as exigências partem dos órgãos fiscalizadores, cada vez mais rigorosos. Às vezes a Controladoria baixa um processo e nós é que informamos ao artista. E nem é dever nosso. Uma época até mandei levantar uma lista de inadimplentes com a pendência de cada um, para desarmar um pouco o ataque do porquê os processos estavam travados, porque se for erro nosso vamos reconhecer. Mas muita coisa parte do próprio material entregue. Essa cultura da desburocratização é difícil. Não temos saída.

FOTO: EDUARDO MAIA (Novo Jornal)

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 4 comments for this article
  1. gustavo lamartine 17 de Fevereiro de 2016 16:31

    Show de Armandinho, pago com o dinheiro público, porém cortado pela metade por uma grade separando um camarote que custava cem reais pra entrar e a coroa das Quengas negada pela rainha Baby Consuelo argurmentando que só usaria a coroa de Jesus Cristo, somando isso comentários homofóbicos contra o bloco. Desastre!

  2. Diano Maia 17 de Fevereiro de 2016 23:07

    Gostaria de saber qual é a opinião do jornalista sobre essa questão de pagamento de artistas locais dita pelo secretário por parte do poder público municipal? Pois, sempre leio sobre críticas do periodista acerca da Cientec. Quando a UFRN, como instituição pública, padece com essa mesma burocracia e fiscalização…

  3. Sergio Vilar 18 de Fevereiro de 2016 7:30

    Lamentável ambas as situações. Mas são processos diferentes, Diano. Se vc trabalha na UFRN deve saber que são causas diferentes. Abraço.

  4. Wecsley Mariano 20 de Fevereiro de 2016 11:45

    Mentira. O artista local está fadado a um projeto de desgaste burocrático. a programação carnavalesca de natal está parada no tempo lá nos anos 70, época em que Dácio e o Boneco de Olinda curtiam a festa de momo como foliões despretensiosos. Eles não sabem o que há na contemporaneidade, tudo é fruto amarrações politiqueiras e que só favorecem apenas ao papeiro que eles fazem parte mais meia dúzia que são cúmplices.

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